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17 Agosto 2022

 

“Uma das teses do mais recente livro de Renata Salecl, Pasión por la ignorancia, é que a natureza da ignorância depende das formas como uma sociedade lida com as consequências de não saber. A falta de conhecimento pode ser um motivo de vergonha ou um indicador de limites”, escreve Federico Romani, em artigo publicado por Clarín-Revista Ñ, 13-08-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

Aprender é um processo doloroso. Supõe sempre enfrentar a angústia diante do desconhecido, aceitar que existem aspectos, dimensões, contextos que dizem respeito a este mundo e a esta realidade que habitamos, mas cujas essências e especificidades ignoramos.

 

Há anos, Renata Salecl vem cruzando sociologia, ciência jurídica e psicanálise para buscar decifrar as diferentes formas como as sensações e emoções humanas são manipuladas, exacerbadas ou canalizadas pelos dispositivos legais e culturais contemporâneos.

 

Ao adentrar nos labirintos semióticos da “Economia do Conhecimento” do século XXI, e tomando como referência nosso anseio de saber tudo em uma época em que todo “saber” parece estar ao nosso alcance com um simples clique, Salecl chega a uma conclusão pessimista: o mundo moderno não se alicerça na proliferação ou massificação do conhecimento, mas em uma paciente e metódica administração da ignorância.

 

Quem conhece o algoritmo?

 

Todos nós sabemos como usar o Google, escreve Salecl, mas poucos, muito poucos – quase ninguém, de fato –, estão cientes de como seus algoritmos funcionam ou como priorizam ou visibilizam as informações que colocam ao nosso alcance. Esse véu de opacidade facilita a formação de lacunas artificiais no campo de acesso ao conhecimento que condicionam as possibilidades de aprendizagem.

 

Salecl cita o professor John Armitage: “O mecanismo mais importante da Economia do Conhecimento não é necessariamente uma maior exigência de nossas habilidades intelectuais, mas uma maior determinação em inibi-las.”

 

Esta autêntica “Economia da Ignorância” pode levar a confundir o excesso de informação disponível com uma verdadeira fonte de conhecimento profundo, em uma época em que abundam os tutoriais online para fazer ou consertar quase tudo, mas cada vez menos pessoas têm a capacidade de ler e compreender um texto de poucas páginas.

 

Uma das teses de seu mais recente livro, Pasión por la ignorancia, é que a natureza da ignorância depende das formas como uma sociedade lida com as consequências de não saber. A falta de conhecimento pode ser um motivo de vergonha ou um indicador de limites.

 

Este último, positivamente internalizado, permite nos colocar no complexo jogo social e aceitar nossas potencialidades, ou seja, o lugar que nos cabe no interior da comunidade, um gesto de humildade quase perdido, enquanto exércitos de ignorantes opinam sobre qualquer assunto ou questão a partir de uma arrogância cada vez mais difícil de diferenciar da soberba.

 

O arrogante contemporâneo

 

Esse arrogante contemporâneo, incapaz de compreender que, muitas vezes, a ignorância desempenha um papel produtivo na descoberta de novos saberes, é também o eixo da segunda tese de Salecl: a ilusão de “saber tudo” facilitada pela internet produz o que ela chama de “viés retrospectivo”, a ilusão de que sabíamos algo desde o início.

 

As recentes guinadas antimeritocráticas que surgem por todo o mundo – com lamentáveis picos em nosso próprio país – estão relacionadas a essa desconfiança da gestão de especialistas que foi vociferada por diletantes nas redes sociais e painéis de televisão, sempre prontos a semear a desconfiança frente à profissionalização das tarefas.

 

É aí que é necessário saber diferenciar as intenções, porque uma coisa é o preguiçoso que viraliza frases célebres de escritores ou filósofos, sem ter a menor intenção de adentrar em sua obra, e outra bem diferente é aquele que semeia notícias falsas de propósito e com o pior dos objetivos.

 

O pensamento zen alerta sobre essas perigosas confluências de intenções: a ignorância em si não é um problema; o problema é a ignorância da (própria) ignorância. Quem opina sobre um assunto, sabendo de sua falta de conhecimento a respeito dele, é um alimentador de asneiras.

 

A “ikeação” da sociedade é o último passo nessa progressão de exigência com a qual se pretende que aprendamos a fazer um montão de coisas com perfeição. O termo que Salecl cria a partir do padrão de facilidade imposto pelos famosos móveis que qualquer um pode comprar e montar na sala de estar de sua casa procura descrever o império do self made man e da self made woman, o homem e a mulher que tudo sabem e podem.

 

Em capítulos sucessivos, quando analisa o poder terapêutico da negação e a “capacidade de ignorar” (algo muito diferente do puro e simples desconhecimento), a autora recupera o ideal da “douta ignorância”, do místico Nicolau de Cusa, segundo a qual, quanto mais alguém conhece os limites de seu saber, menos comum ou ordinária será sua posição no mundo.

 

Para criar vínculos íntimos e sociais é preciso saber priorizar e, portanto, ignorar. Perceber e compreender a realidade sempre foi uma questão de decidir o que é importante e o que não é.

 

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