Francisco, a doutrina e os “passadistas”

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03 Agosto 2022

 

“Sobre o problema dos anticoncepcionais, sei que saiu uma publicação sobre esse tema e sobre outros temas matrimoniais. São as atas de um congresso e em um congresso há várias argumentações, depois discutem entre si e fazem as propostas. Devemos ser claros: aqueles que realizaram esse congresso cumpriram o seu dever, porque tentaram avançar na doutrina, mas em sentido eclesial”.

 

O comentário é de Fabrizio Mastrofini, jornalista e ensaísta italiano, publicado por Settimana News, 01-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

É oportuno refletir sobre esta e outras declarações de Francisco, em resposta a uma pergunta feita no avião na viagem de volta do Canadá. A pergunta referia-se a uma possível "mudança" em vista da proibição da contracepção.

 

Um livro e a tempestade

 

A referência subjacente - que o Papa Francisco imediatamente compreendeu - foi em relação às violentas polêmicas que se desenvolveram a partir de 30 de junho passado, data de lançamento do volume Ética Teológica da Vida, que traz as Atas de um Congresso da Pontifícia Academia para a Vida publicado pela Livraria Editora Vaticana (falei sobre isso aqui em SettimanaNews).

 

Capa do livro "Etica teologica della vita".
Foto: Divulgação

 

O livro causou certo alarido midiático porque contém uma possível abertura sobre o tema da contracepção, mesmo para o casal católico regularmente casado na Igreja, mas apenas para condições específicas. Inútil dizer que o livro de 527 páginas, que recebeu uma resenha favorável da La Civiltà Cattolica (aqui), é muito denso e cheio de ideias e temas. Reduzir seu escopo a algumas frases fora de contexto é uma operação enganosa, infelizmente habitual.

 

Os sites católicos conservadores, italianos e estadunidenses, seguidos pela repercussão midiática nas redes sociais (Twitter) afirmaram imediatamente que a "doutrina" da Humanae vitae não pode ser mudada, buscando apoio para sua posição na Veritatis splendor e na Fides et ratio: os teólogos não têm liberdade de pesquisa, o diálogo não existe em teologia, o Magistério já falou e toda a discussão está encerrada.

 

"Existe uma regra que é muito clara"

 

Diante de tais argumentos, no prefácio do livro assinado por Mons. Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, destaca-se que o método da conferência foi o diálogo, no estilo das "questiones disputatae" da memória medieval, reivindicando a legitimidade de um espaço de diálogo em teologia.

 

É a linha que Francisco argumentou em sua resposta. Certamente uma resposta improvisada, porém bem meditada. Em primeiro lugar, o papa compreendeu imediatamente a referência subjacente à pergunta. E, portanto, quis inserir sua resposta em um contexto mais amplo, fornecendo um critério de hermenêutica teológica que é tudo menos dado como certo.

 

“Para o desenvolvimento teológico de uma questão moral ou dogmática - explicou, começando a responder - existe uma regra que é muito clara e esclarecedora. Foi o que fez Vicente de Lérins (é um escritor eclesiástico do século V - ndr). Ele diz que a verdadeira doutrina para avançar, desenvolver-se, não deve ficar quieta, se desenvolve ut annis consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate. Ou seja, consolida-se com o tempo, expande-se e consolida-se e torna-se mais firme, mas sempre progredindo. É por isso que o dever dos teólogos é a pesquisa, a reflexão teológica, não é possível fazer teologia com um "não" à própria frente.

 

Depois será o Magistério que dirá não, você passou do ponto, volte, mas o desenvolvimento teológico deve ser aberto, os teólogos existem para isso. E o Magistério deve ajudar a compreender os limites. Sobre o problema dos contraceptivos, sei que saiu uma publicação sobre esse tema e outros temas matrimoniais. São as atas de um congresso e num congresso discutem entre si e fazem propostas. Devemos ser claros: aqueles que realizaram esse congresso cumpriram o seu dever, porque tentaram avançar na doutrina, mas em sentido eclesial, não fora, como eu disse com aquela regra de São Vicente de Lérins. Depois o Magistério vai dizer: sim está bem, ou não está bem”.

 

O "passadismo" é um pecado

 

A continuação do raciocínio do Papa Francisco também foi importante, porque ele quis ampliar suas considerações com um exemplo e mais uma reflexão. O exemplo diz respeito ao avanço da conscientização e da doutrina sobre o tema das armas atômicas e da pena de morte.

 

“Pense, por exemplo, nas armas atômicas: hoje declarei oficialmente que o uso e a posse de armas atômicas são imorais. Pense na pena de morte: hoje posso dizer que ali estamos perto da imoralidade, porque a consciência moral se desenvolveu bem. Para ser claro: quando o dogma ou a moral se desenvolve, tudo bem, mas naquela direção, com as três regras de Vicente de Lerins. Acredito que isso esteja muito claro: uma Igreja que não desenvolve seu pensamento em sentido eclesial é uma Igreja que retrocede, e esse é o problema de hoje, de muitos que se dizem tradicionais”.

 

Francisco poderia ter parado, mas, em vez disso, continuou para tornar mais claro o seu pensamento. Aqueles “muitos que se dizem tradicionais” na realidade “são “passadistas”, retrocedem, sem raízes: sempre se fez assim, no século passado se fez assim. E o "passadismo" é pecado porque não avança com a Igreja. Em vez disso, a tradição, dizia alguém, - acho que já disse isso em um dos discursos - a tradição é a fé viva dos mortos, enquanto para esses "passadistas" que se dizem tradicionalistas, é a fé morta dos vivos. A tradição é precisamente a raiz, a inspiração para avançar na Igreja, e esta é sempre vertical. E o "passadismo" é retroceder, é sempre fechado. É importante compreender bem o papel da tradição, que é sempre aberta, como as raízes da árvore, e a árvore cresce”.

 

Certamente as palavras cristalinas do papa não extinguirão as polêmicas que se desenvolvem, especialmente nas redes sociais, seguindo um esquema que responde ao que hoje se chama de “desordem informativa”, ou seja, a tentativa articulada de confundir atacando as pessoas, sem explicação, jogando na roda documentos do Magistério muitas vezes pouco conhecidos, rotulando de "herege" qualquer um (especialmente o Mons. Paglia), com base em interesses políticos e econômicos levados adiante (de forma não explícita) por aqueles grupos que pretendem dividir a Igreja por dentro com a desculpa de uma suposta fidelidade à tradição.

 

Felizmente, o Papa Francisco mais uma vez desmantelou essa tentativa. Mas talvez fosse necessário um trabalho concertado e meditado de conferências episcopais, bispos, sacerdotes, mídias católicas (inclusive aquelas vaticanas) para fazer progredir eclesial e culturalmente o "povo de Deus".

 

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