Sonho de Francisco: “Uma Igreja sem correntes e sem muros, que não acumule atrasos diante dos desafios de hoje”

Papa Francisco na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo. (Foto: Vatican Media)

29 Junho 2022

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 29-06-2022.

 

Festa de São Pedro e Paulo. Missa Solene na Basílica do Vaticano, com a entrega do pálio a 44 novos arcebispos metropolitanos. O Papa, que não preside, mas fez a homilia, estava vestido de púrpura, sentado na cadeira de Pedro, diante da estátua do pescador. Francisco abençoou os pálios depois que foram exibidos diante do altar das confissões, sob o qual a tradição coloca o túmulo do primeiro papa. E sonhou, em voz alta, com uma nova Igreja, "sem correntes e sem muros", que se baseie no "diálogo e na participação" e que "não acumule atrasos diante dos desafios do agora".

 

Em sua homilia, Bergoglio traçou dois aspectos da vida de Pedro e Paulo: "Levanta-te rápido e combate o bom combate", e os contextualiza com o atual processo sinodal. Acordar e levantar-se, recordou o Papa, “é uma imagem significativa para a Igreja”.

 

“Também nós, como discípulos do Senhor e como comunidade cristã, somos chamados a subir rapidamente para entrar no dinamismo da ressurreição e deixar-nos guiar pelo Senhor nos caminhos que Ele quer nos mostrar”, recordou, apesar de, admitiu, "ainda sentirmos muita resistência interna que não nos permite seguir em frente".

 

Igreja preguiçosa e acorrentada

 

"Às vezes, como Igreja, somos dominados pela preguiça e preferimos sentar e contemplar as poucas coisas seguras que temos, em vez de nos levantarmos para dirigir o olhar para novos horizontes, para o mar aberto", lamentou o Papa, que sublinhou como “muitas vezes somos acorrentados como Pedro na prisão do costume, assustados com as mudanças e presos pela corrente de nossas tradições”.

 

"Dessa forma caímos na mediocridade espiritual, corremos o risco de 'simplesmente tentar sobreviver' mesmo na vida pastoral, o entusiasmo pela missão diminui e, em vez de ser um sinal de vitalidade e criatividade, acabamos dando uma impressão de mornidão e inércia", sublinhou. Uma atitude que converte "a grande corrente de novidade e vida que é o Evangelho" em "uma fé que cai no formalismo e no costume, [...] uma religião de cerimônias e devoções, de ornamentos e consolos vulgares [...]. Cristianismo clerical, cristianismo formalista, cristianismo maçante e endurecido", disse ele, citando Henri De Lubac e seu livro "O drama do humanismo ateu".

 

"Uma Igreja livre e humilde, que 'se levanta rapidamente', que não procrastina, que não acumula atrasos diante dos desafios do presente, que não se detém nos recintos sagrados, mas se deixa animar pela paixão de anunciar o Evangelho e o desejo de chegar a todos e acolher a todos."

 

Uma Igreja sem correntes e sem muros

 

“O Sínodo que estamos celebrando nos chama a ser uma Igreja que se levanta, que não se fecha em si mesma, mas é capaz de olhar além, de sair de suas próprias prisões para ir ao encontro do mundo”, exclamou o Papa. "Uma Igreja sem correntes e sem muros na qual todos se sintam acolhidos e acompanhados, na qual se cultive a arte da escuta, do diálogo e da participação, sob a autoridade exclusiva do Espírito Santo”.

 

"Uma Igreja livre e humilde, que 'se levanta rapidamente', que não procrastina, que não acumula atrasos diante dos desafios do presente, que não se detém nos recintos sagrados, mas se deixa animar pelo paixão de anunciar o Evangelho e o desejo de chegar a todos e acolher a todos", desejou.

 

"Na Igreja há espaço para todos, mas às vezes só abrimos para condenar as pessoas... Vá conhecer todos, todos são bem-vindos", improvisou.

 

Sobre o combate, Bergoglio lembrou as "inúmeras situações, às vezes marcadas por perseguições e sofrimentos" pelas quais Paulo passou. "Paulo enfrentou sua luta e, agora que terminou sua carreira, pede a Timóteo e aos irmãos da comunidade que continuem este trabalho com vigilância, anúncio, ensinamento: que cada um, em última análise, cumpra a missão que lhe foi confiada e faça sua parte", lembrou.

 

O que posso fazer pela Igreja?

 

“Para nós é também uma Palavra de vida, que desperta nossa consciência de como, na Igreja, todos somos chamados a ser discípulos missionários e a dar nossa própria contribuição”, explicou o Papa, que fez duas perguntas aos novos arcebispos. "A primeira é: o que posso fazer pela Igreja? Não reclamar da Igreja, mas comprometer-se com a Igreja", o que significa "participar com paixão e humildade".

 

“Com paixão, porque não devemos permanecer espectadores passivos; com humildade, porque participar da comunidade nunca deve significar ocupar o centro do palco, sentir-se melhor do que os outros e impedir que se aproximem, dos outros ou acima dos outros", enfatizou.

 

Uma participação que não foge ao combate, que "é uma "batalha" porque o anúncio do Evangelho não é neutro, não deixa as coisas como estão, não aceita um compromisso com a lógica do mundo, mas, pelo contrário, acende o fogo do Reino de Deus onde, ao contrário, reinam os mecanismos humanos de poder, mal, violência, corrupção, injustiça e marginalização", destacou, citando o cardeal Martini.

 

O que podemos fazer pelo mundo?

 

A segunda pergunta: "O que podemos fazer juntos, como Igreja, para que o mundo em que vivemos seja mais humano, mais justo, mais solidário, mais aberto a Deus e à fraternidade entre os homens?" Resposta difícil. “É evidente que não devemos nos fechar em nossos círculos eclesiais e ficar presos em certas discussões estéreis, mas ajudar uns aos outros a ser fermento na massa do mundo”, exclamou.

 

"O clericalismo é uma perversão. O ministro que seguiu esse caminho cai na perversão, assim como os leigos que se tornam clericais. Fiquemos atentos", disse ele, em outra improvisação.

 

“Juntos podemos e devemos estabelecer gestos de cuidado pela vida humana, pela proteção da criação, pela dignidade do trabalho, pelos problemas das famílias, pela situação dos idosos e dos abandonados, rejeitados e desprezados. Ser uma Igreja que promova uma cultura de cuidado, compaixão pelos fracos e luta contra todas as formas de degradação, inclusive a de nossas cidades e dos lugares que frequentamos, para que a alegria do Evangelho brilhe na vida de cada um: este é o nosso "bom combate", concluiu, agradecendo a presença de uma delegação do Patriarcado Ecumênico. "Obrigado por sua presença aqui! Caminhamos juntos, porque só juntos podemos ser sementes do Evangelho e testemunhas de fraternidade."

 

"A tentação da nostalgia... por favor, não caiamos na tentação de voltar atrás, que está na moda na Igreja, não", foi outra das frases improvisadas, no final da homilia.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos - IHU

 

A íntegra da homilia do Papa Francisco pode ser lida em português clicando aqui.

 

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