Mike Davis, Los Angeles e os pecados do capitalismo

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30 Mai 2022

 

Los Angeles é o Grande Gatsby das cidades americanas”, escreveu Kevin Starr, o cronista da história da Califórnia e ex-bibliotecário, muitos anos atrás. A Cidade dos Anjos foi, durante mais de um século, famosa por ser o destino de quem queria se reinventar, mas a região também tem uma certa aptidão por apagar o seu próprio passado e revitalizar seus mitos. E ainda permanece um lugar otimista. O título de uma resenha de Bryce Nelson, publicada em 1991 no The New York Times, do livro de Mike DavisCity of Quartz: Excavating the Future in Los Angeles” (Publicado no Brasil sob o título: “Cidade de Quartzo: escavando o futuro em Los Angeles”, pela editora Boitempo, 2015), talvez tenha dito melhor: “If this is hell, why is it so popular?” (“Se isso é o inferno, por que é tão popular?”, em tradução livre).

 

O artigo é de James T. Keane, editor da revista America, dos jesuítas estadunidenses, 17-05-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Bryce Nelson não era um grande fã de Mike Davis, e Mike Davis não era um grande fã de Kevin Starr, em parte porque Davis sentiu que a história da Califórnia por Starr, na série de livros “Americans and the California Dream”, era pintada de cor-de-rosa demais para o estado e sua maior cidade – considerando a história conturbada de ambos. Um sociólogo urbano nascido e criado no sul da Califórnia (sim, alguns de nós são realmente de lá), Davis ganhou destaque com nos anos 1990 com esse livro.

 


Mike Davis. Foto: Wikimedia Commons

 

O jesuíta Sean Dempsey escreveu nos Estados Unidos em 2020 que Cidade de Quartzo “lê como história social filtrada pela imaginação febril de um romancista de ficção científica. Isso claramente não foi um acidente, pois dois dos personagens de Davis, Carey McWilliams, o autor esquerdista de várias obras da história do sul da Califórnia, e Philip K. Dick, o escritor morador de Los Angeles que é mais lembrado por suas visões distópicas da cidade no filme ‘Blade Runner’ (1982), também eram claras inspirações”. Os muitos outros livros de Davis incluem “Ecology of Fear: Los Angeles and the Imagination of Disaster” (Original de 1998, e publicado no Brasil sob o título: “Ecologia do Medo: Los Angeles e a fabricação de um desastre”, pela editora Record em 2001), “Magical Urbanism: Latinos Reinvent the US Big City” (“Urbanismo mágico: latinos reinventam a Grande Cidade dos EUA”, em tradução livre, 2000) e “Set the Night on Fire: LA in the Sixties” (“Incendiar a noite: Los Angeles nos anos 1960”, em tradução livre, 2020).

 

O jornal de mídia online Boom California certa vez chamou Davis de “cronista do lado sombrio da Califórnia e do submundo de Los Angeles, proclamando uma realidade preocupante e ameaçadora sob a fachada brilhante e ensolarada”. Em Cidade de Quartzo e Ecologia do Medo, Davis pintou retratos sombrios de uma megalópole governada pela paranoia e balcanização, um arquipélago de comunidades brancas fechadas em um vasto mar de pessoas de cor desprivilegiadas e imigrantes lutando para encontrar moradia, emprego e um pedaço do sonho californiano. Desde então, historiadores e sociólogos tiveram que contar com os retratos e conclusões de Davis, mesmo que ele continuasse sendo uma figura polarizadora.

 

Embora ele não seja um entusiasta do sul da Califórnia em sua forma atual (nas palavras do mencionado Bryce Nelson, “Los Angeles é o bode expiatório ideal de Davis para todos os pecados do capitalismo”), Davis disse que os leitores não devem ficar desanimados por seus livros sobre Los Angeles: “São apenas polêmicas apaixonadas sobre a necessidade da esquerda urbana”. Um estudo mais otimista foi o Magical Urbanism, que observou as maneiras (muitas vezes ignoradas) pelas quais a migração latina estava revitalizando a vida urbana estadunidense. “Esta explosão demográfica tem um impacto contínuo no design das principais cidades dos EUA”, escreveu o jesuíta John Coleman, em uma resenha para a revista America, em 2000. “Davis afirma que os hispânicos (que valorizam a casa própria e frequentemente fundem hipotecas entre vários proprietários para alcançá-la) estão trazendo energia redentora para espaços negligenciados e desgastados no centro de nossas cidades”.

 

Embora Davis se concentrasse em coalizões políticas e fatores sociológicos, Coleman observou que o livro “Magical Urbanism” também poderia ser valioso para as agências de serviço social católicas. “Para os leitores católicos que evocam retoricamente uma opção preferencial pelos pobres, Davis fornece um foco necessário sobre onde colocar as energias. Além dos empregos”, escreveu Coleman, “os recursos públicos vitais para os trabalhadores pobres são educação, saúde e trânsito. Esses precisam se tornar os objetivos escolhidos também por nossas paróquias diocesanas de grandes cidades, agências de caridade católica e comissões de justiça social”.

 

A “Los Angeles radical” dos anos 1960 é o foco de “Set the Night on Fire”, de 2020, que Davis escreveu em coautoria com Jon Wiener. “Em vez de bares e da Mansão Playboy, nossos guias da cidade nos levam aos campi universitários no auge do movimento antiguerra, às ruas de Watts à beira da revolta, e às igrejas e salas de reuniões onde a luta pelos direitos dos gays começou”, escreveu Sean Dempsey em uma resenha a America, em 2020. “Em prosa propulsiva e vinhetas históricas vívidas, Davis e Wiener narram uma história quase mítica da Los Angeles radical, um movimento que eles afirmam ter plantado as sementes para uma revolução ainda não realizada”.

 

“Juntos, Davis e Wiener criaram um livro que é ao mesmo tempo enciclopédico e profético, acadêmico e polêmico”, continuou Dempsey. “A qualidade onívora do livro o torna o volume mais completo sobre a história da política radical na cidade em qualquer período”.

 

No entanto, Dempsey achou o livro deficiente em aspectos importantes. “A atenção de Davis e Wiener às ações públicas do movimento, de protestos de rua e violência civil a greves escolares e militância política radical, também corre o risco de apagar formas mais silenciosas de resistência e luta”, continuou Dempsey. “Minha própria pesquisa em Los Angeles revelou que as muitas igrejas da cidade e outras comunidades religiosas também eram centros dessas lutas menos óbvias, mas não menos vitais, por dignidade e igualdade entre os cidadãos mais marginalizados da cidade”.

 

Apesar dessas falhas, Dempsey concluiu: “‘Set the Night on Fire’ será um recurso indispensável para acadêmicos e ativistas interessados em política radical em Los Angeles nos próximos anos. De fato, Davis e Wiener pedem que uma nova geração ‘amplie e revise’ as histórias contadas no livro e, no processo, crie uma nova e mais justa Los Angeles”.

 

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