A filosofia da libertação já é universal porque é decolonial

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11 Fevereiro 2022

 

Pela primeira vez na história, a filosofia latino-americana, aquela que germinou do pensamento de Enrique Dussel (1934, Mendoza, Argentina, naturalizado mexicano), está trazendo perguntas ao mundo perguntas e não simplesmente comentando os argumentos de autores eurocêntricos.

 

A reportagem-entrevista é de Mónica Mateos-Vega, publicada originalmente por La Jornada e reproduzida por Rebelión, 10-02-2022. A tradução é do Cepat.

 

É o que explica em entrevista ao jornal La Jornada aquele que é considerado um dos pais da filosofia da libertação, a propósito de uma antologia de sua obra, com esse título, que acaba de ser publicada pela editora Akal, que inclui as teses fundamentais da enorme janela filosófica, escancarada pelo mestre há meio século.

Trata-se de um livro de mais de 900 páginas, um quilo de filosofia, brinca Dussel, antes de iniciar a conversa online, na qual o frescor de suas ideias se materializa, como sempre, em uma aula magistral.

“A pandemia e esses novos meios para nos comunicar, como o Zoom – explica o também historiador e teólogo -, favoreceram para que a filosofia da libertação esteja presente em todos os países latino-americanos, em grupos importantes e em congressos especificamente dedicados a ela. Por exemplo, na Argentina, há cursos, no Chile, dei conferências. Toda a América Latina se fez presente porque é uma filosofia crítica, a única que não está repetindo o pensamento europeu ou fazendo comentários do que dizem Jürgen Habermas (Gummersbach, Alemanha, 1929) e outros autores europeus”.

“Nós já pensamos com a nossa cabeça e levantamos muito mais para eles os problemas nos quais não pensaram, porque todo esse pensamento filosófico europeu-estadunidense é do centro e nós estamos na periferia. Eles não pensam no que provocaram na periferia e no mundo colonial, que é o que destruíram, qual é a sua culpa”.

“Então, são eles que precisam começar a repensar sua própria filosofia e nós estamos indicando para eles. Conseguimos uma grande presença na Alemanha, Itália, França. Nos Estados Unidos, há todo um movimento de filosofia da libertação entre os latinos, então, tornou-se universal”.

“A ideia de fundo é que a América Latina está lutando pelo que chamo de segunda emancipação, e isso é o que disseram o filósofo peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930) e o cubano José Martí (1853-1895): a segunda emancipação não é mais da Espanha e Portugal, é dos Estados Unidos”.

O livro Filosofía de la liberación: una antologia é dedicado ao doutor Juan José Bautista, filósofo boliviano e aluno de Dussel, que junto com Katya Colmenares foi o responsável em escrever a introdução e que, lamentavelmente, morreu no ano passado.

O ex-reitor da Universidade Autônoma da Cidade do México (UACM) insiste em que há um pensamento europeu-estadunidense que possui a hegemonia da palavra filosófica, e então todos os nossos filósofos se cansam de citar autores, sobretudo franceses, alemães e ingleses, e a filosofia entre nós é comentário, não enfrenta a realidade.

Mas a filosofia da libertação, comemora o autor de 74 livros e mais de 400 artigos sobre o tema, “já foi mobilizada em todo o continente, mesmo nos Estados Unidos e na Europa, porque é um pensamento decolonial, da vida, e temos muitas coisas a dizer sobre essa pandemia e essa crise mundial”.

“Estamos completando 52 anos do início do processo de pensar a América Latina a partir de nossa filosofia. Nesta antologia, há artigos que publiquei em 1965, na Revista de Occidente, em Madrid, (publicada pela Fundação José Ortega y Gasset), sobre uma história da América Latina diferente da eurocêntrica. Na realidade, antecipamos o que hoje se conhece como o processo de descolonização. Sou um dos teóricos, junto com Ramón Grosfoguel e Walter Mignolo, da descolonização de nosso pensamento. Isso é a filosofia latino-americana”.

A segunda emancipação, detalha Dussel, tem a ver com “o problema da ditadura na Nicarágua, com o que estão sofrendo Venezuela, Cuba, com o golpe de Estado em Honduras e agora com seu governo democrático. Tudo faz parte da luta contra os Estados Unidos para estarmos em pé de igualdade e não ser o quintal, mas uma peça da casa. É toda uma crise que vivida pela América Latina, que não é igual ao que acontece na África, no mundo islâmico ou no Oriente”.

“A luta latino-americana se deve ao confronto com os Estados Unidos. Por isso, quando o presidente Andrés Manuel López Obrador diz que a Organização dos Estados Americanos (OEA) não serve para nada, concordamos plenamente, assim como quando propõe que é preciso formar uma Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe, pois a OEA é o escritório colonial estadunidense na América Latina, a partir de onde organizam golpes de Estado para depois nos dizer que não somos democráticos”.

“Na segunda emancipação, precisamos ser considerados países livres, com uma soberania cujo sujeito é o povo latino-americano, não os ditames dos Estados Unidos. Por isso, a filosofia da libertação é muito crítica da subjugação e dominação perpetrada por esse país, e do pensamento estadunidense e europeu metropolitano e colonial”.

“A filosofia da libertação é um sistema filosófico aberto, não são temas pequenos lançados ao ar. É um pensamento acadêmico, concreto, que possui tudo: lógica, antropologia, histórica, ética, política, tecnologia e, agora, até a estética (seu próximo livro)”.

Dussel, professor fundador e agora emérito da Universidade Autônoma Metropolitana, narra que quando morou por vários anos na Europa estudou a filosofia helenística. “Eu a conheço bem, mas faço uma filosofia latino-americana, a partir de nossas tradições. Lutei por ela. Depois de 50 anos e tendo sido discriminado inicialmente em instituições como a Universidade Nacional Autônoma do México, agora me cabe colher os frutos de uma fidelidade crítica que já é aceita, pois se trata de um pensamento que é o futuro”.

“Após todo esse trabalho, já estou pronto para prestar contas. Os anos pesam, tenho 87 anos. Caso a pandemia termine, penso que posso voltar a dar aulas presenciais e isso me rejuvenesce, pois sou mais comunicativo no sentido oral do que escrevendo, entusiasmo aos alunos e me ajuda a receber o impulso de continuar vivendo e pensando por eles”.

“Como dizia León-Portilla: tenho muita juventude acumulada, e agora com Pablo González Casanova completando 100 anos, vamos ver se chegamos lá também”, concluiu o filósofo.

 

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