Sinodaliade: tarefa de todos

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08 Janeiro 2022

 

"Esta obra chega em boa hora, quando se constata a urgência de caminhar nesta perspectiva. A reflexão de Cipollini ajudará agentes de pastorais, fiéis leigos, padres, bispos, diáconos, religiosos e religiosas  a dar passos desta busca eclesial em que todos tenham espaço, voz e caminhem juntos. Trata-se de um livro precioso para quem quer conhecer/aprofundar os caminhos de reflexão sobre a sinodalidade, ampliando seus horizontes e fomentando o desenvolvimento da consciência sinodal", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro Sinodalidade: tarefa de todos (Paulus 2021, 112 p.), de autoria de Dom Pedro Carlos Cipollini.

 

Eis o artigo.

 

Imagem: capa do livro Sinodalidade: um trabalho de todos | Foto: reprodução

 

A “sinodalidade é dimensão constitutiva da Igreja” (p. 56), é “uma atitude ou um processo tanto quanto e mais que um acontecimento. É a dinâmica da encarnação, da kenosis eclesial” (p. 94). Graças ao magistério do Papa Francisco, a sinodalidade desde o início de seu pontificado vem ganhando espaço na discussão teológica e pastoral da Igreja.  Fundamentalmente, a sinodalidade é um “estilo ou modus vivendi et operandi de uma Igreja, expressando sua natureza como o caminhar juntos e reunir-se em assembleia do povo de Deus, convocado pelo Senhor Jesus na força do Espírito Santo, para proclamar o Evangelho do Reino” (p. 91).

 

É sobre esse tema que se ocupa o livro: Sinodalidade: tarefa de todos (Paulus 2021, 112 p.), escrito por Dom Pedro Carlos Cipollini, Bispo de Santo André (SP). O referido autor destaca que “os sinais dos tempos e a metodologia pastoral exigem uma transformação” (p. 20).  Frente a isso, entende, que a sinodalidadade como um “modo de ser e articular da própria Igreja na qual se deve caminhar juntos. Sinodalidade está associada a caminho, a não ser uma Igreja estática, centrada sobre si e autorreferencial. O tema hoje se impõe a partir do magistério do Papa Francisco a respeito da praxe sinodal constatada nas últimas décadas, com destaque para o Brasil, e da produção teológica a respeito. De fato, tem se intensificado a realização de Sínodos diocesanos nos vários continentes” (p. 19).

 

A temática é desenvolvida em quatro partes:

 

O primeiro capítulo: A Igreja sinodal do papa Francisco (p. 21-32), busca fundamentar a insistência do Papa Francisco em solidificar/consolidar uma Igreja sinodal. Cipollini destaca que o caminho da sinodalidade é uma convicção que vem sendo expressa por Francisco desde os primeiros meses de seu pontificado. Assim “as referências fundamentais para a compreensão do pensamento do papa a respeito da sinodalidade e dos eventos sinodais são relacionados ao Sínodo dos Bispos, organismo que, por sua natureza, expressa e promove a sinodalidade mundialmente. Em seu discurso, na comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, o papa demonstrou estar convicto de que este é o ‘caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio´ como se expressou. Essa afirmação, ele a justifica em chave missionária” (p. 23). Para a promoção deste caminho, Francisco parte da afirmação conciliar de que a Igreja é o povo de Deus (p. 24), e, aponta dois fundamentos teológicos indicados na Lumen Gentium:

 

a) infabilidade in credendo de todo o povo de Deus, a serviço da qual está o ministério dos pastores, e cuja base é a assistência do Espírito;

b) o sensus fidei e o consensus fidelium, o que faz de cada batizado um sujeito ativo da evangelização (p. 24).

 

A sinodalidade promove a corresponsabilidade missionária de todos os membros da Igreja (p. 26), por isso, não há conflito entre a comunhão de todos na Igreja e na estrutura hierárquica (p. 24-25). Cipollini destaca que o caráter pneumatológico é um dos distintivos da teologia da sinodalidade de Francisco (p. 28-29), “o Sínodo é caminhar juntos atrás do Senhor e em direção às pessoas, sob a orientação do Espírito Santo” (p. 28), para que “cada um preste atenção às ressonâncias que as coisas ouvidas suscitam no seu coração, para aprofundar e aprender o que mais o impressiona. Essa atenção à interioridade é a chave para se efetuar o percurso: reconhecer, interpretar e escolher” (p. 29). A sinodalidade tem uma motivação missionária (p. 29), consequências ecumênicas (p. 30), e, sociais (p. 30-31).

 

O segundo capítulo apresenta a fundamentação teológica da sinodalidade (p. 33-49). Entendendo que a “Igreja brota da Trindade e é essencialmente uma unidade com a Trindade e na Trindade” (p. 35), Cipollini destaca que a “sinodalidade visa tornar efetiva e eficaz a participação de todos na Igreja. Porém por detrás desse objetivo, está a busca da unidade na verdade e de verdade. É um modo de ser da Igreja excêntrica e ao mesmo tempo concêntrica. Por isso, a sinodalidade não pode ser vista só no seu aspecto jurídico ou organizacional, mas como modo de ser da Igreja. Não é a distribuição de poder através da participação, mas é um modo de viver a unidade como Igreja” (p. 35). É perseguir o ideal apontado por Jesus: que todos sejam um para que o mundo creia (p. 35-37). Por assim ser, o autor, chama a atenção para a raiz trinitária da unidade (p. 37-39), ou seja, a “sinodalidade faz parte da essência da Igreja, enquanto ela participa da comunhão trinitária.

 

Refutar o princípio da sinodalidade é contrariar a dimensão trinitária da Igreja” (p. 37). Em seguida, acena para a busca da unidade a partir da escritura e da Patrística (p. 39-41); para os instrumentos de unidade (p. 42-44). Chamando a atenção para posturas que impedem a unidade (p. 44-46), apresenta elementos para a construção da unidade (p. 46-49). Conclui dizendo que “a sinodalidade está no gene da própria Igreja que brota da Trindade e é instrumento na construção da unidade” (p. 49).

 

O terceiro capítulo oferece a fundamentação histórica da sinodalidade (p. 51-59). Sabedores que “as assembleias sinodais são convocadas ao longo da história para manter a unidade ou ao menos o consenso em torno de questões vitais para a vida da Igreja” (p. 53), o autor observa que o “tema da sinodalidade, comum nos primeiros séculos da Igreja, foi-se debilitando na prática eclesial e na reflexão eclesiológica do segundo milênio da Igreja. Era uma prática típica da Igreja do primeiro milênio, continuada na Igreja ortodoxa” (p. 53). 

 

Nos Atos dos Apóstolos, capítulo 15, temos na Igreja nascente de Jerusalém o testemunho da sinodalidade no que se convencionou chamar de “Concílio de Jerusalém”. A partir deste evento, a Igreja “foi crescendo na compreensão e significado do que significado do que é essa sua sinodalidade” (p. 54). Consequentemente foram muitos os sínodos realizados na antiguidade (p. 54-56), e, “sempre representou uma busca de conversão estrutural e pastoral, com a finalidade de obter a união da Igreja e a eficácia na sua missão” (p. 56). Cipollini, salienta que a noção de povo de Deus como peregrino na história é condição importante para compreender a sinodalidade como dimensão essencial da Igreja (p. 56-59), “o Concílio Vaticano II deu destaque à noção de povo de Deus para designar a Igreja. Esse conceito foi redescoberto na Bíblia e na história das origens cristãs” (p. 56), assim, a “linha de continuidade com o Vaticano II supõe a noção de povo de Deus na eclesiologia no devido lugar que lhe compete” (p. 57). Desta forma, “a teologia da Igreja como povo de Deus quer uma Igreja conduzida na história pelo Evangelho em toda a sua atuação temporal” (p. 57).

 

Sem a “visão da Igreja como povo de Deus fica incompreensível a sinodalidade e sua articulação comunitária” (p. 59), desta maneira, “somente de pode compreender e impulsionar a sinodalidade da Igreja a partir do conceito do povo de Deus, conceito intrinsicamente complementar ao conceito de comunhão/Corpo de Cristo. Povo de Deus, no fundo significa que não somente o povo tem necessidade de Deus, mas que Deus mesmo deseja ter necessidade de um povo” (p. 58).

 

O quarto capítulo indica tarefas e desafios, sobre os quais a Igreja terá de se debruçar nesta jornada, para chegar à vivência da sinodalidade (p. 63-87): a) resgatar a teologia trinitária (p. 63-64), b) viver a koinonia sem cair no “democratismo” (p. 65-67), c) vivência mais intensa da Igreja particular (p. 67-69), d) incentivar o protagonismo dos leigos (p. 69-71), e) dar espaço para a parrésia [valentia, liberdade, audácia e confiança] como profetismo intraeclesial (p. 71-73), f) superar o clericalismo (p. 74-76), g) adotar novo modo de gerir a economia na Igreja (p. 76-78), h) além da ética da obediência, a ética da responsabilidade (p. 78-80), i) praticar as virtudes necessárias: acolhida, escuta, paciência, diálogo (p. 80-81), j) passar de uma Igreja triunfalista e autorreferencial para uma Igreja peregrina (p. 81-83), l) levar em conta que os fiéis também são ungidos pelo Espírito Santo (p. 83-85), m) passar da lei do preceito à lei do Espírito (p. 85-87).

 

No anexo, reproduz-se o Discurso do Papa Francisco, comemorativo dos 50 anos do Sínodo dos Bispos, no qual ele projeta seu pensamento sobre o futuro do Sínodo e da sinodalidade da Igreja (p. 97-108).

 

O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio. É tarefa de todos os segmentos da Igreja caminhar juntos em vista de uma verdadeira experiência de sinodalidade. O Cardeal Dom Cláudio Hummes, Arcebispo emérito de São Paulo e Presidente da Conferência Eclesial da Amazônia ao apresentar esta obra (p. 11-12), destaca que a sinodalidade é uma “forma de comunhão eclesial e de caminho do Povo de Deus na história, rumo ao futuro, baseado no ‘sensus fidei’ de todos os batizados. A sinodalidade torna-se um antídoto ao clericalismo, que pretende ser exclusivo detentor do sensus fidei. É preciso, por isso, reconhecer e põe em prática no cotidiano da vida eclesial que todos os batizados são corresponsáveis na Igreja pela missão da Igreja, cada um segundo seu estado de vida, vocação e missão, pois pelo batismo, todos receberam do Espírito Santo o sentido da fé” (p. 11).

 

Esta obra chega em boa hora, quando se constata a urgência de caminhar nesta perspectiva. A reflexão de Cipollini ajudará agentes de pastorais, fiéis leigos, padres, bispos, diáconos, religiosos e religiosas  a dar passos desta busca eclesial em que todos tenham espaço, voz e caminhem juntos. Trata-se de um livro precioso para quem quer conhecer/aprofundar os caminhos de reflexão sobre a sinodalidade, ampliando seus horizontes e fomentando o desenvolvimento da consciência sinodal.

 

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