21 Dezembro 2021
O Papa Francisco completou 85 anos. E a importante idade por ele alcançada relança o jogo triste, que na realidade já começou há algum tempo, dos “balanços” sobre o seu pontificado.
O comentário é de Gianni Valente, jornalista italiano, em artigo publicado em seu blog Senza Mandato, 19-12-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Quem joga esse jogo muitas vezes esconde as cartas. E são favorecidos pela liquefação e pela contínua erosão da memória coletiva – nos tempos longos e agora também nos breves –, que são um dos efeitos do fluxo de comunicação digital non-stop em que vivemos imersos.
O Papa Bergoglio assinou o acordo com a China sobre as nomeações dos bispos chineses. Proclamou santo o bispo mártir Óscar Arnulfo Romero, cuja causa de canonização havia sido bloqueada sine die devido às sabotagens de matriz política, implementadas por alguns cardeais. Atestou todos os dias no seu magistério a predileção de Cristo pelos pobres, que, em contextos ligados a épocas eclesiais anteriores, havia sido parcialmente ocultada por razões também políticas.
O Papa Bergoglio encontrou nas palavras da fraternidade um léxico de compreensão e convivência com os filhos do Islã, em uma fase histórica em que tudo conspirava para encobrir com linguagem religiosa as estratégias de aniquilação militar dos inimigos.
Com as homilias em Santa Marta, com o Jubileu da Misericórdia e com tantos outros gestos, o papa reinante reiterou ao mundo que o confessionário é um lugar de libertação e não de tortura psicológica, e que os sacramentos são os gestos com os quais o Senhor doa a sua graça “livre, suficiente, necessária para nós” (Paulo VI).
Bastariam apenas algumas das inúmeras coisas ditas e feitas pelo Papa Francisco para agradecer ao Senhor por aquilo que já aconteceu no tempo do seu pontificado, também em perspectiva histórica.
Porém, se olharmos para os fatos e as dinâmicas eclesiais registrados em tempo real pela crônica midiática, devemos reconhecer necessariamente que, sim, o papa fracassou.
A fórmula da “Igreja em saída” tornou-se um mantra do “eclesialês”, mas nomenclaturas e aparatos eclesiais parecem estar, como nunca antes, envoltos sobre si mesmos, congestionados nas suas próprias dilacerações e convulsões internas. Tudo em meio a fenômenos de autoexcitação devido aos processos de redistribuição de cargos e de cotas do carcomido “poder” clerical.
Nos círculos internos, abundam manifestações paroxísticas de carreirismo, exibicionismo, estados de autopromoção midiática permanente por parte de sujeitos individuais e organizados em meio a bulimias presencialistas e a delírios de onipotência: enquanto isso, como pano de fundo, cardeais travam guerras midiático-jurídicas na frente das câmeras.
“Oportet ut scandala eveniant.” Convém que os escândalos explodam, também e sobretudo na Igreja, se e quando a sua deflagração serve para mortificar os orgulhos clericais de todas as resmas e para mostrar mais uma vez a não autossuficiência da comunidade eclesial, a sua dependência permanente do agir da graça.
Fora desse horizonte, a própria ideia da Igreja que “purifica” a si mesma e erradica o mal com instrumentos humanos e eclesiásticos, protocolos e operações de engenharia institucional, que não são os milagres de Cristo, pode se tornar expressão de uma hybris, de uma arrogância ímpia muito mais nefasta e devastadora em longo prazo do que qualquer miséria humana.
Diante desse estado das coisas, precisamente o “fracasso” de projetos e desígnios eclesiásticos atribuídos ao Papa Francisco pode se tornar um dom de grande momento, neste momento, para a Igreja.
Esse fracasso, chantageado ou enfatizado pelos grupelhos que buscam ocupar posições de força em vista do conclave, diz ao mundo que a Igreja não salva um pobre homem.
O “fracasso” papal desfaz hologramas e epopeias de mundanismo espiritual construídos em torno do seu simulacro, incluindo os do “papa um de nós”. Mas, acima de tudo – e isto é mais importante –, atesta mais uma vez que o estado último da Igreja, a fecundidade e a eficácia da sua ação não dependem deste ou daquele papa. Não depende de um papa que os homens e mulheres do tempo presente possam encontrar a humanidade de Cristo e ficar felizes com isso.
As circunstâncias históricas, de muitas maneiras, evidenciaram ao longo do tempo a insuficiência, o desamparo e a impotência dos bispos de Roma. Seguindo os passos de São Pedro, os seus sucessores aprenderam também com os pecados perdoados ou com as suas intenções mortificadas a deixar toda a iniciativa à ação do Senhor. Reconhecendo que a Igreja também está sempre precisando de cura, necessitada dos Seus milagres.
Desde São Pedro – que renegou Jesus – até hoje, não são os limites humanos dos papas que põem a Igreja em perigo, mas sim as corjas clericais que tratam o órgão eclesial como se fosse uma sociedade de acionistas. As mesmas que agora também parecem estar se preparando para o “ar de conclave”, assim como ao jogo de papéis que mais as apaixona. Cortam os cabelos, dissertam presunçosamente, promovem fórmulas mágicas e arranjos táticos “vencedores”, sem que aflore neles a mínima vertigem autêntica diante do mistério da Igreja e da sua missão no mundo.
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