Papa Francisco ajuda a proteger Biden da intimidação dos bispos dos EUA. Artigo de Massimo Faggioli

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01 Novembro 2021

 

A forte oposição vinda dos Estados Unidos contra o papado de Francisco poderia influenciar o futuro equilíbrio de poder na Igreja em nível global – até mesmo antes do próximo conclave.

A opinião é de Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado em USA Today, 29-10-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

A audiência do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e da primeira-dama, Jill Biden, com o Papa Francisco na sexta-feira passada foi um momento muito diferente do encontro anterior entre um papa e um presidente católico dos Estados Unidos.

No dia 2 de julho de 1963, quando John F. Kennedy foi recebido no Vaticano, o presidente de 46 anos estava preocupado com a campanha à reeleição em 1964. Paulo VI havia sido eleito papa alguns dias antes, e a Igreja Católica estava em uma lua de mel extraordinária com a opinião pública mundial que foi o Concílio Vaticano II (1962-1965).

Essa audiência ocorreu no contexto da nova relação entre a Igreja Católica e o mundo global, mas também de uma nova aliança entre a Santa Sé e os Estados Unidos do ponto de vista cultural, mas também teológico.

Agora, essa aliança está sendo redefinida. Desde a sua eleição em 2013, Francisco redefiniu o alinhamento entre o Vaticano e a ordem política ocidental liberal por meio do acordo de 2018 com o governo da República Popular da China, do trabalho para intermediar novas relações dentro do Islã entre sunitas e xiitas e do apoio aos movimentos populares radicais na América Latina.

A nova orientação geopolítica da Santa Sé deixou muitos nos círculos diplomáticos dos Estados Unidos desconfiados, independentemente das suas filiações políticas internas.

A audiência de Biden no Vaticano deve ser vista na interface entre a política partidária e as lutas internas na Igreja Católica dos Estados Unidos. Essa audiência papal ocorreu apenas duas semanas antes da assembleia de outono da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos em Baltimore, que discutirá um documento sobre a Eucaristia que alguns bispos gostariam de usar para excluir políticos pró-escolha de receberem a Comunhão na missa.

O Vaticano, embora mantenha o ensino católico tradicional sobre o aborto, está tentando proteger o acesso de Biden aos sacramentos do ataque dos bispos estadunidenses. Os bispos estão tentando não apenas constranger o presidente Biden, mas também intimidá-lo.

Não importa o que ocorra com o documento que os bispos discutirão em Baltimore, a própria discussão já dividiu o episcopado de uma forma sem precedente.

Uma coisa importante a se lembrar sobre a maioria dos bispos que gostariam de punir Biden é que um bom número deles endossou, ou deixou de responder, às acusações extraordinariamente sérias feitas pelo ex-núncio papal nos Estados Unidos, Carlo Maria Viganò, que em agosto de 2018 tentou destituir o papa com acusações não comprovadas e teorias da conspiração.

Os membros do episcopado dos Estados Unidos que estão tentando excluir Biden do sacramento da Eucaristia são os mesmos que olharam favoravelmente não apenas para a presidência de Trump, mas também para aquela que foi efetivamente uma tentativa de golpe contra o Papa Francisco.

Tudo isso está se desenvolvendo ao mesmo tempo em que a Suprema Corte dos Estados Unidos, cuja maioria conservadora é dominada por católicos, poderia decidir sobre casos de aborto de uma forma que poderia revogar a sentença Roe versus Wade [que autorizou o aborto nos Estados Unidos] e desencadear aquilo que Biden chamou de “caos constitucional”.

A eleição de Biden no ano passado foi recebida no Vaticano com um grande suspiro de alívio, depois de quatro anos difíceis de tensões sem precedentes do governo Trump entre a Casa Branca e o papa.

Mas, depois de nove meses do governo Biden, o Vaticano agora está se perguntando que tipo de promessas o segundo presidente católico pode manter, em relação às mudanças climáticas, à imigração e (especialmente após a retirada do Afeganistão) ao multilateralismo nas relações internacionais.

Por outro lado, não está claro se o Papa Francisco representa o início de uma nova era na relação entre o papado e a modernidade global – uma postura mais dialógica e menos ideológica – ou se é um interlúdio antes do retorno, com a eleição de seu sucessor, para uma abordagem mais conflituosa.

Desde a cirurgia abdominal de Francisco em julho, as discussões sobre o próximo conclave foram retomadas, e o próprio papa admitiu em uma entrevista que alguns cardeais estão ansiosos para substituí-lo.

A forte oposição vinda dos Estados Unidos contra o papado de Francisco poderia influenciar o futuro equilíbrio de poder na Igreja em nível global – até mesmo antes do próximo conclave.

O que está acontecendo entre as lideranças católicas dos Estados Unidos pode ser uma previsão para o futuro do catolicismo. Um fracasso do pontificado de Francisco em livrar o catolicismo das garras do fundamentalismo teológico e do autoritarismo político poderia ser um sinal sinistro para quem esperava que a presidência de Trump e o catolicismo trumpiano fossem uma aberração.

 

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