Diante de Deus somos únicos, mas não filhos únicos

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16 Setembro 2021

 

"Hoje, às diferentes religiões pede-se não apenas a assumir a responsabilidade de recordar à humanidade sua vocação originária de cuidar e cultivar a fraternidade, mas também de cuidar e cultivar a fraternidade das religiões com particular cuidado. Onde está o seu irmão? O sangue de Abel e dos seus numerosos descendentes, derramado em abundância ao longo dos séculos, é um grito silenciado por nós, mas acolhido por Deus. Por aquele único Deus que deseja a vida para todos os viventes. E que implora a seus crentes que parem de usá-lo para justificar sua violência, para alimentar uma religião da inimizade", escreve Lidia Maggi, pastora batista italiana, em artigo publicado por Fine Settimana, 15-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O que deformou o seu olhar, Caim? O que te fez acreditar que Abel estava roubando a cena da sua vida? Por que você queria ser aquele cuja oferta estava sendo olhada por Deus? Você não percebeu a disparidade entre você e seu irmão mais novo? Você não percebeu que todos os holofotes da vida já estavam em você? Não lhe contaram sobre o canto de júbilo de sua mãe quando ela deu à luz você?.

“Consegui um filho com a ajuda de Deus!”. Chamou você de Caim, aquele que foi adicionado, adquirido. Bem precioso e decisivo: você é aquele que deu o tom à sua vocação de mãe de todas as gentes. Para Abel, nenhuma música, nem mesmo uma palavra.

Para ele apenas um nome (nomen omen): nome presságio, que já resume o efêmero de sua existência, Abel, sopro, fútil existência destinada, como a geada, a evaporar-se ao primeiro sol. E junto com o nome, uma profissão de nômade, de quem não pode se arraigar na terra: Abel, o pastor. Você, por outro lado, recebeu como herança a vocação original do humano, aquela de guardar e cultivar a terra. Para o segundo filho, nenhum canto; e uma identidade definida apenas em relação a você: Abel, irmão de Caim.

Enquanto Abel era apenas isso, seu sopro não lhe incomodava: efêmero, precário. Mas quando Deus ousou colocar os olhos naquele irmão invisível e apreciou a oferta, então seu ciúme se acendeu, seu rancor tomou forma. Você não estava acostumado a pensar que Deus pudesse ter olhos para outras pessoas além de você. O outro tornou-se de repente volumoso, perigoso. A suspeita de que Deus tivesse decidido não olhar mais para você, que tivesse lhe abandonado, quebrou sua confiança. Mesmo assim, o próprio Deus apercebeu-se de seu desconforto. É verdade, Deus não prestou atenção à sua oferta, mas quanta atenção foi dada a você, e somente a você, por seu rosto perturbado. Quanto cuidado em dirigir-se para você, para lhe arrancar de seu rancor. O Senhor Deus, o Criador do universo, está com você; ele só falou com você. Ele olhou para a oferta de Abel, mas acima de tudo examinou com apreensão o seu semblante fechado, até se abaixar, se aproximar, para falar ao seu coração, para lhe dar conselhos, para alertar sobre onde poderia lhe levar aquele sentimento perverso de sentir o irmão como uma ameaça. Você se lembra das palavras divinas, de suas perguntas? “Por que seu semblante está tão fechado? O que incomoda você, Caim? Eu também desejo o seu bem; mas, agindo sob a pressão do rancor, você erra o alvo, certamente não alcança a felicidade almejada. Este é o único verdadeiro pecado: errar a própria vocação, o próprio propósito na vida. Saiba, entretanto, que você tem a força para dominá-lo. Portanto, não deixe seu coração ser devorado pela sua inveja...”.

Nem mesmo Deus, com suas palavras, foi capaz de fazer você mudar de direção. Você, lavrador, devia cuidar e cultivar o terreno da fraternidade e, em vez disso, aquele campo se tornou um campo de batalha; você tornou estéril a terra fértil da relação fraterna, poluída com o sangue, o sangue do teu irmão.

Você permaneceu mudo. Por que você não abriu seu coração para Deus? Por que você não gritou sua raiva para ele? Que sentido tinha oferecer a ele os frutos da terra, mas não lhe entregar o seu coração?

Por que aquele silêncio? E não só o silêncio com Deus, mas também com Abel. O texto bíblico, de fato, permanece suspenso. Parecia que sua voz finalmente seria ouvida - "e disse Caim..." - mas sua boca ficou fechada por sua mão, que se ergueu sobre Abel e o matou.

E enquanto, talvez, seu coração se alegrava: novamente filho único - eis o peso de uma solidão que não é "boa". Você não soube administrar o conflito com aquele irmão tão diferente de você, negou o problema eliminando-o: matou seu irmão. Se seu coração se sentia aliviado por aquele problema resolvido, eliminado, o coração de Deus se rompia; e como Raquel, inconsolável, chorava aquele filho que não existia mais. O que você fez? A voz dos sangues de Abel chegou até mim. A voz de Abel, o irmão que não fala e a quem você não dirigiu palavra alguma, na morte, tornou-se um grito que Deus acolhe, para conservar a sua memória. Um silêncio ensurdecedor! O Deus de Caim (aquele Deus que intimida: "ninguém toque em Caim”) é, ao mesmo tempo, o Deus dos últimos, dos que não têm voz, dos que não têm poder. É o Deus que não permite que a vítima da violência seja esquecida. O nome de Abel, tão efêmero, está gravado no coração de Deus; e para Caim a ausência de irmão agora se torna mais incômoda do que sua presença.

"Onde está o seu irmão?", Deus lhe perguntou quando veio lhe procurar ao longo das veredas perdidas da fraternidade. Você não soube cuidar e cultivar a fraternidade, agora nem mesmo poderá ser um lavrador: você se tornou um fugitivo, nômade como seu irmão ... para depois se tornar o fundador da cidade. Porque, afinal, você também compreendeu: você, que se salvaguardava do outro, justamente você, fundou a cidade, onde o encontro com o outro é inevitável.

Abel e Caim nunca existiram? O fato de não ser um relato histórico não significa que esse antigo mito, retomado por várias tradições religiosas, não nos ajude a conhecer a verdade. O fato de não ser um relato histórico não significa que o que é narrado não aconteceu e continua a acontecer. Acontece sempre que numa comunidade se insinua a suspeita que o outro está nos roubando o espaço vital. Acontece entre irmãos e, de modo particular, entre as crenças: cada uma com a sua necessidade de unicidade, cada uma correndo o risco de transformar esta exigência de singularidade em exclusividade, justamente como Caim. O conflito entre Caim e Abel não nasce de um dissenso religioso, mas os gestos da fé resultam divisivos. Representam uma ocasião para exasperar o conflito. Uma maneira diferente de prestar o próprio culto a Deus constitui o terreno sobre a qual se concretiza o confronto com o outro. Mas, igualmente, são os mesmos ingredientes religiosos que, por sua vez, oferecem os anticorpos, as vacinas para imunizar-se do risco da intolerância religiosa. A voz de Deus, que observa o semblante fechado de Caim e o torna consciente do risco que está correndo, é a voz atestada por experiências religiosas capazes de empreender um processo educativo, que faça crescer no diálogo e no confronto as diferentes religiões.

É voz sábia que incita a enfrentar a conflitualidade sem negá-la. A pergunta que Deus dirige a Caim - "onde está seu irmão?" - questiona a todos nós que, contra a nossa vontade, estamos ainda ali, com semblante fechado, desconfiados da nossa fé irmã, com medo de que o outro nos roube a cena. Ainda somos a geração de Caim, quando acreditamos que a singularidade de nossa fé coincide com a exclusividade, quando condenamos a diversidade religiosa, a censuramos, a ponto de caluniar o outro.

Hoje, às diferentes religiões pede-se não apenas a assumir a responsabilidade de recordar à humanidade sua vocação originária de cuidar e cultivar a fraternidade, mas também de cuidar e cultivar a fraternidade das religiões com particular cuidado. Onde está o seu irmão? O sangue de Abel e dos seus numerosos descendentes, derramado em abundância ao longo dos séculos, é um grito silenciado por nós, mas acolhido por Deus. Por aquele único Deus que deseja a vida para todos os viventes. E que implora a seus crentes que parem de usá-lo para justificar sua violência, para alimentar uma religião da inimizade.

Hoje, ainda mais do que em outros momentos históricos, precisamos no colocar à escuta das palavras que Deus fala a Caim, daquela sabedoria do humano que elas veiculam.

Daquele humano que Deus criou à sua imagem.

Procuremos juntos esta sabedoria divina, a sabedoria de um Deus que se manifesta onde quer e transforma as crises em oportunidades e se faz ouvir nas diferentes línguas, nas diferentes tradições religiosas, com uma tenacidade e uma criatividade que nós - devemos confessar - ainda não compreendemos.

 

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