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09 Julho 2021

 

"Mas o fracasso do Estado, para Morin, é muito mais do que um aumento das práticas administrativas e do controle dos cidadãos. Em vez disso, é o sintoma de um vazio da política no sentido forte do termo, ou seja, a ausência da capacidade de imaginar um futuro possível para uma sociedade, de conceber uma nova forma de convivência", escreve Luca M. Possati, em artigo publicado por L’Osservatore Romano, 08-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

“O humanismo regenerado rejeita o humanismo da quase divinização do homem, que visa a conquista e o domínio da natureza. Reconhece a complexidade humana, feita de contradições. O humanismo regenerado reconhece nossa animalidade e nosso vínculo umbilical com a natureza, mas também reconhece a nossa especificidade espiritual e cultural. Reconhece a nossa fragilidade, a nossa instabilidade, os nossos delírios, a ignomínia dos assassinatos, das torturas, da escravidão, as clarezas e as cegueiras do pensamento, a sublimidade das obras-primas de todas as artes, as obras prodigiosas da técnica e as destruições operadas pelos meios de esta mesma técnica".

É com o apelo a um novo humanismo capaz de unir razão e paixão, ciente do absurdo de uma razão pura ou de uma verdade absolutizante, que Edgar Morin decidiu responder ao desafio da pandemia global. Na crise de Covid, o filósofo francês indica uma grande oportunidade que não pode ser reduzida ao slogan da enésima "revolução" ou a um "projeto" pré-construído, noções estáticas demais para explicitar o sentido da transformação necessária. No livro Cambiamo strada (2020), Morin fala de um "caminho novo" animado pela esperança de renovação. É o seu maior ensinamento: a complexidade não deve nos assustar, mas nos levar a redefinir o nosso pensamento e as nossas vidas de forma criativa, nova e corajosa.

De acordo com Morin, a grande lição do coronavírus é nos levar a refletir sobre nossa existência e sobre o destino da comunidade humana como nunca antes. O Covid é uma grande experiência coletiva que solapa o individualismo e o hedonismo capitalista da segunda metade do século XX. O homem repentinamente descobriu que é um ser frágil, que não domina o planeta e que, ao contrário, se descobre cada vez mais dependente dos equilíbrios sutis da biosfera. “A nossa fragilidade havia sido esquecida, a nossa precariedade ocultada. O mito ocidental do homem cujo destino é se tornar ‘dono e senhor da Natureza’ desmoronou diante de um vírus”.

Entre os vários aspectos destacados por Morin há um que emerge com particular clareza e que nos leva ao aprofundamento: o fracasso do Estado. “A crise revelou o problema básico de uma administração estatal hiperburocratizada e sujeita, em seus vértices, a pressões e interesses que bloqueiam qualquer reforma”, um paradoxo para o pensamento neoliberal que fez do combate à burocracia e ao centralismo uma de suas principais bandeiras - pelo menos em palavras.

Mas o fracasso do Estado, para Morin, é muito mais do que um aumento das práticas administrativas e do controle dos cidadãos. Em vez disso, é o sintoma de um vazio da política no sentido forte do termo, ou seja, a ausência da capacidade de imaginar um futuro possível para uma sociedade, de conceber uma nova forma de convivência. Essa ausência é particularmente evidente na Europa, onde a resposta ao vírus foi assimétrica e lenta. França e Alemanha - afirma o filósofo - “mostraram-se pouco solidárias quando a Itália e depois a Espanha se encontraram em plena emergência sanitária”. Se apenas permanece o esqueleto da União Europeia, "um despertar da solidariedade e uma política ecológica comum não poderiam talvez restituir-lhe um pouco de corpo?".

A resposta a essa pergunta deve vir de uma nova política baseada em uma nova lógica. A proposta de Morin é aguda e provocadora ao mesmo tempo: “Promovemos em primeiro lugar uma política que une globalização e desglobalização, crescimento e decrescimento, desenvolvimento e retrocesso. Esses termos são antinômicos apenas em uma lógica binária que os encerra em alternativas mutiladoras”.

Significa dar um rosto humano à globalização, ou seja, tornar o desenvolvimento capaz de contemplar formas de desaceleração, de estabilização e de respeito pelas tradições locais. Como diz Morin, a nova política deve combinar crescimento e decrescimento e admitir o "retrocesso". O retrocesso "diz respeito à comunidade e à solidariedade. Se, de fato, durante o confinamento a solidariedade nas suas várias formas foi despertada, ela emerge de uma longa letargia nas famílias, na vizinhança, nas cidades, no trabalho, na nação”. Dessa letargia, devem recomeçar a filosofia e a boa política.

 

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