"O problema não é só de democracia - ainda que seja hora de abrir os olhos sobre como a crescente exaltação de dirigentes contribua bastante para reduzir a nossa fé e a nossa prática de participação democrática, em todos os níveis - mas também de compreensão do peso fundamental das estruturas e das superestruturas das nossas sociedades", escreve Riccardo Larini, teólogo e ex-monge da Comunidade de Bose, da qual fez parte durante 11 anos, em artigo publicado por Riprendere Altrimenti, 23-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.
Cada um de nós, se tiver um mínimo de senso ético e talvez ainda mais de amor pela humanidade, é levado não só a amar, mas também a indignar-se por algumas coisas. Na era da Internet, há quem opte por concentrar grande parte da sua indignação, ou pelo menos da sua contrariedade, em figuras ou grupos com ideias particularmente distantes das suas. Daí a maré de usuários da rede que se posicionam de um lado de um conflito de opiniões contra uma parte contrária, transformando tudo em preto ou branco, sem espaço para outras cores, matizes ou raciocínios. E, como sabemos, tudo isso levou até à criação de movimentos e partidos políticos ou sociais violentos.
No âmbito dos mundos a que, em certa medida, sinto pertencer, ou seja, aqueles que se inspiram nos valores evangélicos (independentemente da fé ou não num deus) e da esquerda (que, mesmo respeitando a liberdade, as combina com dignidade pelo menos igual com o valor da justiça social), isso muitas vezes leva à identificação de inimigos a serem combatidos por qualquer meio (esperamos lícito, mas nem sempre ...). Poderíamos citar muitos, quase em ordem cronológica. No mundo político, temos a partidocracia, os políticos corruptos, Craxi, Berlusconi, a "casta", Salvini e Meloni, e assim por diante. Na esfera religiosa, temos todos aqueles que se consideram culpados de abusos (sexuais, financeiros, de poder), de clericalismo, de imoralidade pública ou privada de qualquer tipo, e a lista aqui também poderia ser longa. Embora possa parecer bom e reconfortante o sentido de pertencimento à parte "certa" (supondo que tal coisa possa existir...), sempre considerei mais importante dissecar os clichês, os curtos-circuitos ou mesmo apenas as contradições não resolvidas encerradas em posições teoricamente mais próximas do meu sentimento. Daí o meu ser favorável, mas também exigentemente crítico, a mundos como aquele do cristianismo ou da esquerda. Embora tal atitude possa ser rotulada como uma síndrome "do contra", ou mais simplesmente como uma inclinação para ser um chato (eu nunca fingi ser um homem simples ...), na realidade é o resultado de pelo menos duas modalidades do progresso do conhecimento humano que tenho aprofundado através dos meus estudos em diferentes áreas do conhecimento.
Por um lado, como frequentemente repito em meus escritos, a distinção kantiana entre conhecimento e pensamento (pelo menos como reformulada por Hannah Arendt) me leva não só a tentar adquirir constantemente novos conhecimentos, mas também e sobretudo a sujeitar-me a contínuas revisão, juízo e ampliação mediante a árdua e arriscada faculdade do (re) pensamento de todo conhecimento adquirido, que de outra forma poderia se tornar um puro clichê que já não ajuda mais a acompanhar a realidade, a vida e suas contínuas mudanças.
Por outro lado, estou ciente de que grande parte de nossas identidades se formam em contraposição ao que se reconhece "outro" ou diferente, e que isso pode facilmente nos levar a absorver e tornar nossos critérios e valores estranhos ou mesmo incompatíveis em relação ao âmago mais profundo de nossas convicções e dos nossos princípios vitais. Uma resposta possível no âmbito religioso aos mecanismos da indignação, por si só simplificadores ou mesmo violentos, é representada segundo muitos pela identificação de modelos ou figuras de "santidade" que se tornam fatores de transformação não tanto por suas críticas em relação ao próximo, mas pelo exemplo de sua vida. Entre os slogans mais difundidos em muitos âmbitos cristãos está certamente o lema "menos advogados de Deus, mais testemunhas do Evangelho". Problema resolvido? O convite para tentar tornar-se santos (entre outras coisas endossadas em certo sentido tanto pelas Escrituras hebraicas como por aquelas cristãs) coloca tudo em ordem? O respeito pela dignidade humana e a eliminação da violência estão garantidos? Depende. Por trás da veneração dos santos, justamente considerada problemática pelos reformadores protestantes, existem de fato mecanismos perigosos, amplamente desmascarados nos tempos modernos, sobretudo pelos estudos de René Girard. O "desejo mimético", que está inevitavelmente na raiz de grande parte dos comportamentos humanos, quando exercido em direção a figuras ao nosso alcance, ou seja, potencialmente "ao nosso nível", paradoxalmente muitas vezes torna-se fonte de violência e morte ao invés de compreensão, vida e reconciliação.
E quando o desejo de imitar é aplicado a líderes muito concretos aos quais estamos ligados, o culto da personalidade que se segue pode tanto fortalecer os mecanismos violentos explicados por Girard, quanto obscurecer a nossa capacidade de identificar e perceber os problemas concretos das nossas comunidades e das nossas sociedades (onde isso for possível).
No âmbito religioso, tudo isso é tornado ainda mais problemático pelas concepções da verdade como algo a que alguém (uma religião, um líder carismático) teria um acesso privilegiado, que por um lado pareceria garantir tranquilidade e segurança a quem, ao contrário, não dispõe de privilégios equivalentes e, por outro lado, proporcionaria a alguns "direitos exclusivos" que são sempre, inexoravelmente, fonte de ulteriores violências.
Estes mecanismos ligados mais claramente às religiões são agora acompanhados por outros mecanismos nada virtuosos, dos quais muitos são vítimas no mundo da política e da comunicação, tanto na esquerda como na direita: o renascimento de um certo culto dos líderes, decididamente paradoxal. Mas por que se "aposta" tanto nos líderes "certos", em cada âmbito?
Uma primeira resposta é dada pela busca de simplificação em um mundo cada vez mais complexo. Como agora há muitas coisas que não sabemos dominar ou explicar, decidimos gostar a todo custo de narrativas que tornam as coisas menos inquietantes por serem mais simples (simplistas) e mais assimiláveis (embora não necessariamente mais aceitáveis). Exemplos claros de tudo isso são a vulgarização do discurso econômico segundo supostos modelos "científicos" irrefutáveis (o que em si já é um oxímoro para quem tem um conhecimento sério do campo científico), ou mesmo segundo modelos praticamente únicos e padronizados. Soma-se a isso necessidade de "acreditar" (sem qualquer confirmação das disciplinas históricas) que a história seja feita predominantemente por líderes valorosos. A atual divinização a priori de Mario Draghi pela imprensa italiana (e por grande parte do mundo católico) é um exemplo disso. A correspondente exaltação a priori de Joe Biden pelos mesmos setores é, por outro lado, um fenômeno muito mais preocupante, sobre o qual deveríamos refletir especificamente (especialmente se realizada em nome do "catolicismo" de Biden). Isso certamente leva a perder de vista o cansativo trabalho de repensamento e de modificação de legislações e sistemas, que sempre é possível em alguma medida, e que pode ter consequências muito maiores do que a eleição desta ou daquela figura para cargos de prestígio.
O problema não é só de democracia - ainda que seja hora de abrir os olhos sobre como a crescente exaltação de dirigentes contribua bastante para reduzir a nossa fé e a nossa prática de participação democrática, em todos os níveis - mas também de compreensão do peso fundamental das estruturas e das superestruturas das nossas sociedades.
No entanto, não é apenas um problema político, mas uma realidade que tem consequências muito profundas também no mundo do Evangelho e das igrejas. E é neste ponto que mostro as cartas do meu discurso, sabendo que isso deixará muitas pessoas boquiabertas. Mas faço isso com ponderação, pedindo a todos que ouçam com paciência e reflitam profundamente. De fato, parece-me que reine bem pouca consciência a respeito da maneira errada de ler e interpretar o Papa Francisco, especialmente pelos círculos cristãos "progressistas" e pelo mundo político da "esquerda" em sentido amplo.
No dia em que Francisco foi eleito papa, para ser claros, chorei de alegria. Na verdade, sabia que tinha aspectos controversos (tanto do ponto de vista do caráter e da personalidade, quanto das concepções teológicas), também estava ciente de muitas de suas qualidades evangélicas. E a escolha do nome Francisco foi, por sua vez, um bom presságio. Em particular, sua insistência no tema da misericórdia, que acredito ser o centro absoluto da mensagem cristã (talvez sua única verdade em certo sentido irrepreensível), deu-me muita esperança pelos meus irmãos e irmãs católicos.
Oito anos após sua eleição, no entanto, muitas contradições afloraram em sua atuação que não podem ser silenciadas, para o bem do Evangelho e de quem nele crê, e que devem ser identificadas sem transformar Francisco de herói a pária ou testemunha de acusação. E gostaria de voltar a Girard, para me explicar.
A única forma de eliminar os riscos associados ao desejo de imitação não é escolher modelos cada vez mais credíveis aos quais se conformar, mas partir do mecanismo que revelou, de uma vez por todas, a violência do sagrado: o sacrifício da vítima inocente, Jesus Cristo. Um único justo, um único sacrifício, uma única cruz vivificante. Aplicar essas categorias a nós, seres humanos, significa, de fato, recair nos mecanismos da violência do sagrado. Pensar-se como testemunha por estarmos "conformados" a Cristo só pode funcionar quando se compreende que, no fundo, a única verdade que ele pôde abraçar foi a submissão a toda a humanidade, ninguém excluído, por amor.
O Papa Francisco pregou em parte essas coisas, com palavras muito bonitas, mas também fez uso, com demasiada frequência, de instrumentos autoritários. Certamente para um bom propósito, como Savonarola ou Oliver Cromwell, ou como seu compatriota Juan Perón (que, afinal, acredito que agisse de boa fé). Mas chegou a hora de dizer francamente que usar instrumentos e atitudes que apressadamente passam por cima da dignidade e dos direitos humanos nunca pode ser uma solução credível para os problemas estruturais da Igreja e da sociedade. Assim como o justicialismo nunca pode ser a resposta mais adequada, visto que acaba atingindo (com muitas certezas, aliás) alguns errantes, mas quase nunca os erros. Ao contrário do ensinamento de João XXIII, por exemplo.
Então, vamos realmente pensar se faz tanto sentido sentir alegria ou alívio diante das muitas cabeças que parecem cair na Igreja Católica, muitas vezes da noite para o dia. E se faz sentido tentar resolver o enorme problema da pedofilia e dos abusos na igreja unicamente contando com denúncias generalizadas às autoridades civis (que certamente devem ser feitas onde há elementos sérios para realizá-las) sem nos questionarmos corajosamente, ao mesmo tempo, sobre as raízes dos abusos e da violência nos próprios fundamentos do direito canônico e de muitas práxis das igrejas. E vamos pensar se faz sentido, para quem se diz cristão, olhar para qualquer pessoa que não seja Jesus Cristo, envolvendo-a numa aura de santidade que impeça reconhecer as suas limitações e fragilidades.
Thomas Merton, como se sabe, durante a primeira fase de sua vida monástica, tornou-se famoso por seus escritos sobre temáticas tradicionais e um tanto datadas sobre a vocação cristã, a separação do mundo, a oração e a meditação. No entanto, no final dos anos 1950 já tinha começado a aprofundar tradições diferentes da sua - em particular a budista - e graças também ao afrouxamento dos rigores monásticos trazidos pelo concílio começou a meter seu nariz, com frequência no período conciliar e ainda mais nas seguintes, fora do mosteiro, literalmente "sair para o mundo". Assim, descreve em seu Diário de uma testemunha culpada, livro com o título muito eloquente publicado em 1966, um episódio considerado por seus mais atentos biógrafos com um verdadeiro e próprio ponto de virada que lhe permitiu aproximar-se fisicamente de seus contemporâneos:
Em Louisville, na esquina entre Fourth e Walnut, no centro do distrito comercial, de repente me senti tomado pela compreensão de que amava todas aquelas pessoas, que pertenciam a mim e eu a elas, que não podíamos nos chamar de estranhos, embora não nos conhecêssemos. Era como despertar de um sonho feito de separação, de espúrio autoisolamento em um mundo especial, o mundo da renúncia e da suposta santidade...
Acredito que a resposta, tímida, aos problemas explorados nesta minha contribuição se encontre entre Girard e Merton: nem indignados, nem santos, nem líderes, mas pessoas que usam todas as suas faculdades para mudar um pouco as coisas, sabendo que no fundo todos, perseguidores e vítimas, ricos e pobres, "bons" e "maus" são perdoados, regenerados e reconciliados pelo homem de Nazaré, de quem não existem substitutos nem vigários, mas apenas testemunhas culpadas e misteriosamente portadoras de uma vida que não é delas.