Entre laicidade, declínio e solidão: os mal-estares da igreja da França

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23 Abril 2021

 

Os andaimes do canteiro de obras a céu aberto na catedral destruída de Notre-Dame, que incendiou há dois anos, são a descrição mais adequada da igreja francesa. No país onde o filósofo católico Rémi Brague lembrou que o verbo enraizar, se planter, também significa estar errado, o catolicismo encontrou ao longo dos séculos a equidistância certa de Roma. Para os bispos católicos, porém, esse equilíbrio expresso pela lei do separatismo de 1905 agora corre o risco de se perder.

A reportagem é de Marco Grieco, publicada por Domani, 20-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

A carta dos bispos

Numa carta ao Le Figaro, os bispos expressaram sua perplexidade com a revisão da lei saudada pelo Presidente da República, Emmanuel Macron, como uma etapa necessária da luta ao separatismo religioso. Para os católicos, a lei que simboliza a laicidade corre o risco de uma mudança que minaria seu espírito original: “A Conferência Episcopal apoia o Estado francês, que quer combater a radicalização e o terrorismo, mas o projeto de lei atual não parece ser a resposta correta a este desejo”, explica em exclusiva ao Domani o pe. Hugues de Woillemont, secretário-geral e porta-voz da Conferência Episcopal francesa. Se a intenção é prevenir o extremismo e responsabilizar aqueles que administram locais de culto, a nova modificação apresentaria novos vínculos, como o controle sistemático por um prefeito a cada cinco anos: "Este projeto de lei corre o risco de violar as liberdades fundamentais como a de culto, associação, educação e até a liberdade de opinião”, explicou pe. de Woillemont.

Distantes de Roma

De acordo com o observatório sobre a laicidade nacional, a população francesa oscila entre 48% dos que professam ser católicos e 34% dos que não se sentem filiados a nenhuma religião. Esta dupla identidade nacional é o resultado de uma relação constantemente cotejada entre a République e a Igreja Católica, como demonstram os “Encontros Matignon” anuais. A abordagem laicista é uma peculiaridade da França, que sempre manteve distâncias de Roma. Como principal exemplo, podemos citar o então presidente da convenção europeia, Valéry Giscard d'Estraing, que, durante a elaboração do preâmbulo da constituição europeia, recusou o convite do Papa João Paulo II para mencionar as "raízes judaico-cristãs de Europa". Esta posição identitária, que como o Papa Francisco recordava ao La Croix em 2016, também pode degenerar em um "tom triunfalista e vingativo", é contida pela lei de 1905, que assim preserva a neutralidade do Estado em relação a todas as confissões e faz da laicidade a garantia da liberdade religiosa individual.

Igreja cada vez mais pobre

Hoje, a Igreja Católica francesa também enfrenta uma grave crise financeira. Isso foi revelado no relatório anual da Conferência Episcopal publicado em dezembro passado: um terço das mais de 90 dioceses estão em sérias dificuldades econômicas; destas, 15 encontram-se em situações definidas como "frágeis". Em um tweet em dezembro passado, os bispos lembraram que, no ano da pandemia, as receitas caíram 35 por cento, embora as doações dos fiéis tenha representado a principal receitas (39 por cento). Até o momento, a Igreja Católica francesa estima uma perda de 90 milhões de euros. Como assinala o secretário-geral dos bispos, o problema tem repercussão social: “Hoje o enfraquecimento econômico afeta muitas pessoas e aumenta as desigualdades, e leva as igrejas a ampliar as iniciativas de caridade. Nossas finanças estão, portanto, voltadas para os últimos e ainda há muito esforço a ser feito para poder dar acolhimento a todos”.

Imóveis da igreja

Dessa forma aos bispos é cada vez mais demandado o papel de funcionários, como haviam profetizado os sociólogos Bourdieu e De Saint Martin em um estudo dos anos 1980, que traçava o perfil do bispo "zelote", menos intelectual e mais administrador. Para estancar a hemorragia financeira, alguns edifícios de culto ou imóveis religiosos, cada vez mais inutilizados, são assim vendidos e transformados em espaços de co-working, como é o caso da capela Mondésir em Nantes, onde os bancos para a orações cederam lugar aos sofás. “Há um grande reservatório de igrejas que serão inúteis nos próximos anos, porque não são mais utilizadas, e há um pároco para cada dez cidades”, explicou à rádio France Info, Patrice Besse, corretora imobiliária especializada em edifícios religiosos. Distinta é a interpretação dada pelo pe. de Woillemont: “Trata-se de um fenômeno raro. No país, a igreja permanece um patrimônio vivo, aberto a todos e gratuito”. Nos últimos anos, o tema foi abordado também pela Santa Sé em dois documentos capitais para a gestão de bens em institutos de vida consagrada, respectivamente de 2014 e 2018. No mesmo ano, aliás, foi o próprio Bergoglio quem recordou na Pontifícia Universidade Gregoriana que “O novo destino de uma igreja não é uma operação que se pode negociar apenas do ponto de vista técnico ou econômico, mas segundo o espírito de profecia”.

O flagelo dos abusos

Também na França, os casos de abuso podem criar uma divisão intransponível. O relatório final da Comissão independente sobre os abusos é esperado para outubro, mas a igreja já está se preparando com o que vai surgir. A Conferência francesa dos religiosos e religiosas, que se reuniu nos dias 19 e 20 de abril, já abordou o tema da responsabilidade dos institutos em "promover um clima de sigilo e silêncio". Em 26 de março, no entanto, foi encerrada a Assembleia Plenária Extraordinária e em outubro "A revelação dos abusos cometidos por sacerdotes ou religiosos (bem como por leigos sob responsabilidade na Igreja) contra menores ajudou a Igreja da França a enfrentar com seriedade o tema para fazer da Igreja uma ‘casa segura’” explica o porta-voz dos bispos franceses, que acrescenta: “Na assembleia foram aprovadas resoluções importantes, do reconhecimento dos diferentes níveis de responsabilidade à escuta assídua das vítimas, da criação de um local da memória a um dia de oração, até o pagamento de uma contribuição financeira”. Na catedral de Luçon, em Vendea, Mons. François Jacolin fez afixar uma placa em homenagem às 60 vítimas de abusos na diocese desde os anos 1940 até hoje. “Até a publicação do relatório - acrescentou o porta-voz dos bispos - continuaremos a trabalhar ao lado das vítimas, assim como dos especialistas, empenhando-nos na reforma e na formação”. Como atesta a carta aos bispos de 25 de março passado, a Igreja espera "dados duros": alguns vazamentos atestam que mais de 80 por cento das vítimas dos abusos são menores.

Padres sozinhos

Mas o desconforto na igreja francesa tem raízes mais profundas. De acordo com a pesquisa promovida pela Conferência Episcopal, dos 2.656 padres entrevistados em 2020, metade vive sozinho e 20 por cento desenvolveu sintomas depressivos. Dois em cada cinco abusam do álcool e 8% se declaram dependentes, a ponto de dois terços participarem de grupos de apoio ou receberem acompanhamento espiritual. Um quadro sombrio que leva a demissões cada vez mais frequentes ou a remoções de cargos. Como o recente de pe. Benoist de Sinety, delegado de assistência aos marginalizados e pobres de Paris, que aparentemente não era apoiado pelo arcebispo Michel Aupetit, repetidamente acusado de autoritarismo e detestado por grande parte dos parisienses, segundo o Libération.

Depois da Alemanha, a França também se prepara para enfrentar seus demônios. Enquanto isso, o país aguarda a confirmação de uma visita do Papa Francisco a Marselha: "Aguardamos uma resposta do Papa, somos pacientes e confiantes", disse pe. Hugues de Woillemont. A segunda cidade da França poderia ser para Bergoglio a terceira etapa europeia de sua teologia do Mediterrâneo. Nunca como agora, no marasma em que se projeta a Igreja francesa, há necessidade as palavras de um pontífice que assumiu o ensinamento de Romano Guardini: “Não devemos nos enrijecer diante do novo, tentando preservar um belo mundo condenado a desaparecer”.

 

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