Ambiente e ética. Para uma nova relação. Artigo de Giannino Piana

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06 Abril 2021

 

"A ética que deriva dessa concepção apela a uma visão da realidade em que não compete ao homem exercer um domínio despótico sobre a natureza, mas assumir uma responsabilidade precisa", escreve Giannino Piana, teólogo italiano, ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, na Itália, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas, em artigo publicado por Rocca n. 7, 01-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

A questão ecológica tornou-se, nas últimas décadas, a questão crítica mais importante na sociedade em que vivemos. A gravidade da situação se torna transparente pelo rápido avanço dos fenômenos que colocam seriamente em perigo a vida do planeta: desde a poluição ambiental que está constantemente aumentando e afetando bens fundamentais para a vida - ar, água e terra - até a erosão progressiva dos recursos, muitos dos quais são não renováveis, o que torna precário o futuro da humanidade que, no meio tempo, cresceu exponencialmente (e ainda está em constante crescimento).

É redutivo - como acontece em algumas partes - atribuir a crise exclusivamente a fatores técnicos - o desenvolvimento da técnica e a proposição de um ideal tecnocrático tiveram sem dúvida (e ainda têm) um peso de grande importância nesse aspecto -; ela remete, de forma mais radical, a fatores de ordem antropológica e ética, que explicam, desde a raiz, aos processos manipulativos que o homem instaurou, explorando os novos conhecimentos adquiridos e utilizando os instrumentos cada vez mais sofisticadas e disseminados à sua disposição hoje.

As raízes antropológicas

A raiz mais imediata da crise é, sem dúvida, constituída pela mentalidade economicista, que se instalou desde a revolução industrial. A ideologia capitalista dela decorrente, alicerçada numa lógica quantitativa, que privilegia a maximização da produção e do lucro, passou a considerar a natureza como um simples recipiente de recursos a explorar de forma ilimitada e incondicional. Para acentuar essa tendência utilitarista, por sua vez, contribuiu a afirmação de uma visão de molde iluminista baseada na razão instrumental, para a qual o progresso tecnológico e o crescimento humano são identificados de forma otimista, sem levar em conta as repercussões negativas dos processos ativados.

Mas a razão mais profunda da atual crise ecológica pode ser atribuída à presença de uma concepção antropológica dualista, que tem suas origens na filosofia grega - Platão e no Neoplatonismo - e que também encontrou expressão em outras correntes culturais, mantendo-se viva até mesmo nos tempos modernos - não podemos esquecer o dualismo cartesiano a esse respeito - que tem produzido uma interpretação do corpo como 'objeto' (o corpo que 'temos' e não o corpo que 'somos') e, consequentemente, uma objetivação de natureza extra-humana, sujeita ao domínio absoluto do homem.

Deve-se acrescentar que o fenômeno da secularização - ainda em curso até os limites do secularismo - que provocou a separação da natureza da relação fundamental que a ligava a Deus - o mundo não é mais considerado "criação", mas "natureza" e "cosmos"- também determinou a separação da natureza do homem, devolvendo-a a si mesma e à sua plena autonomia, e fazendo com que perdesse a dimensão de habitat de onde o homem obtém não só o sustento material, mas também o alimento espiritual, e transformando-a em "coisa” totalmente manipulável.

Uma nova relação homem-meio ambiente

A relação homem-meio ambiente deve, portanto, ser repensada, evitando-se assim uma forma de 'naturalismo' radical, que não se confronta com os limites da natureza - não só mãe, mas também madrasta -, que portanto exige ser controlada e transformada pelo homem, quanto uma forma de reducionismo cultural, que justifica um uso indiscriminado da natureza, que acaba por alterar radicalmente sua identidade. Trata-se de dar vida a um equilíbrio dinâmico, que integre entre si conservação e mudança, respeito e exercício do senhorio. Para melhor expressar essa dupla relação, recuperando ambos os sentidos, temos os dois verbos 'cultivar' e 'guardar', presentes no segundo relato da criação (Gn 2,15), onde o 'jardim', tirado das mãos de Deus, é deixado nas mãos do homem para que o leve a cumprimento, transformando-o sem distorcer seu caráter original.

A possibilidade de concretizar esse equilíbrio implica tanto a superação de uma racionalidade ideológica, que se baseia em uma razão totalizante (e abstrata), quanto de uma racionalidade instrumental, para a qual - como nos lembrou Bacon - 'saber é poder', que ou seja, exercício de um domínio incondicional sobre a realidade, para dar lugar a uma racionalidade simbólica, evocativa ou alusiva, que olha para a natureza em uma perspectiva aberta, sem pretender circunscrever seus contornos em termos absolutos, mas constantemente remetendo para além. Daí nasce uma relação de verdadeira comunhão que faz da natureza não só uma realidade a ser utilizada instrumentalmente, mas também (e sobretudo) objeto de contemplação em vista de um enriquecimento interior.

As dimensões éticas

A ética que deriva dessa concepção apela a uma visão da realidade em que não compete ao homem exercer um domínio despótico sobre a natureza, mas assumir uma responsabilidade precisa.

O reconhecimento de que existe uma hierarquia entre os seres vivos no topo da qual está o homem - como quer uma forma de antropocentrismo moderado - não implica a possibilidade de um uso puramente instrumental do que é inferior; envolve antes de tudo a implementação de uma relação de comunhão com ele; uma relação que não exclui a intervenção manipulativa, mas respeita o equilíbrio entre os diferentes ecossistemas.

Nesse sentido, o exercício da responsabilidade deve se desenvolver em duas direções: as escolhas estruturais (ou de sistema) e as escolhas pessoais.

O entrelaçamento entre a ética pública e privada (ou pessoal) é aqui muito estreito.

A primeira direção - a das escolhas estruturais - exige a superação do atual modelo de desenvolvimento para dar vida a um modelo que possa responder seriamente pelo limite dos recursos disponíveis e pela necessidade de conter a poluição.

Isso implica a rejeição do sistema capitalista (ou neocapitalista) baseado em uma lógica quantitativa, para dar lugar a uma lógica qualitativa que privilegie os bens relacionais e a promoção da qualidade de vida. A consciência de que - como o Papa Francisco nos lembrou na Laudato si'- a questão ambiental e a questão social estão intimamente ligadas, nos impele a dar vida a um sistema que seja eco-sustentável e equi-sustentável: um sistema - para usar novamente um expressão da encíclica papal - de "ecologia integral"; que associe, em outras palavras, o cuidado com o meio ambiente e o redimensionamento das desigualdades sociais. Um sistema que vise, em última instância, o bem humano comum que não pode mais ser definido apenas em sentido sincrônico – todo o homem e todos os homens existentes - mas também em sentido diacrônico, envolvendo as gerações futuras às quais um mundo habitável deve ser entregue.

A segunda direção - a das escolhas pessoais - implica a adoção de novos estilos de vida. Trata-se de fazer a transição de um regime baseado no desperdício dos recursos ("descartáveis"), na multiplicação dos descartes e na busca pelo atendimento das necessidades, aquelas supérfluas, que muitas vezes também são alienantes por serem induzidas pelos pressão social exercida pelos meios de comunicação, para um regime caracterizado pela sobriedade, isto é, pelo uso parcimonioso das coisas e do tempo, pela redução das necessidades e pela atribuição do primado à recuperação da própria interioridade e do empenho com os outros, a partir daqueles que se encontram em situações de particular desconforto, com os quais é preciso estabelecer condições de solidariedade e de partilha dos bens.

A questão ecológica exige, portanto, uma verdadeira revolução cultural e socioeconômica - a crise atual não é conjuntural, mas estrutural e sistêmica -; mas também requer uma ampla participação de baixo, que, além de contribuir de forma decisiva para reduzir os efeitos negativos dos processos em curso, possibilita as próprias mudanças estruturais, que precisam de um amplo consenso de base para se imporem com eficácia. Em tudo isto evidencia-se o papel indispensável da política, que deve recuperar a sua autonomia e autoridade, saindo da sujeição ao poder econômico e do provincianismo dos Estados-nação, que a torna impotente para gerir processos que vão muito além das suas fronteiras, assumindo o papel que lhes pertence constitutivamente, o de servir de guia para a vida associada em vista do crescimento do bem comum.

 

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