A Páscoa segundo Rahner

Karl Rahner | Foto: Centro Dom Bosco

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Março 2024

"Tudo o que é possível se realiza quando se invoca o Pai, confiando-lhe a própria vida, o próprio espírito, a própria morte. O arrebatador prêmio da salvação virá depois como consequência lógica", escreve Roberto Mela, professor da Faculdade Teológica da Sicília, em artigo publicado por Settimana News, 27-03-2021, comentando o livro Che cosa significa la Pasqua [1], de Karl Rahner. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.  

Os dois organizadores — Andreas R. Batlogg e Peter Suchla — reuniram pela primeira vez em um único volume quatro breves meditações (p. 17-52) escritas pelo grande teólogo alemão (1904-1984) durante a Semana Santa de 1957 (Sexta-feira Santa e Sábado Santo), em 1946 a primeira sobre a Páscoa (Início da glória) e em 1950 a segunda (Uma fé que ama a terra). Publicadas várias vezes em vários livros, agora estão disponíveis em italiano em uma obra especificamente dedicada a elas.

Rahner não gostava da distinção entre escritos teológicos e outros textos que podem ser definidos como "espirituais" ou "devocionais". Para ele, não havia limites claros. Rahner se questionava como os conteúdos da possam ser implementados e estendidos para a vida cotidiana e estava muito atento ao desenrolar do ano litúrgico. Seus escritos de viés mais de divulgação sempre foram muito apreciados por sua riqueza teológica e acessibilidade de linguagem.

Na introdução (p. 5-16), Andreas e Peter fornecem um indício seguro da leitura dos textos rahnerianos. Vamos nos valer dele para manter firme o fio do discurso.

Na perspectiva do tremendo abismo da morte, a Sexta-feira Santa só pode ser vivida no abandono ao Pai, ainda que seja difícil perceber o seu amor que nos espera. Aquele dia trouxe à tona o que ainda está em ato: o escândalo, a loucura da cruz. Essa loucura, como Paulo diz, não deixa de ser a sabedoria e a força de Deus para aqueles que acreditam.

O abismo é difícil de enfrentar, mas é preciso aguentar e resistir, porque, no fim, “caberá a nós voltar os olhos para o abismo e cair nele com corpo morto” (p. 20).

Estamos cheios de forças vitais, mas é bom estar sob a cruz. Aí podemos deixar-nos reanimar pela graça de Deus, aceitar de bom grado o escândalo e o absurdo do nosso "ponto de vista" por considerá-lo como "a força e a sabedoria de Deus", olhando para o Crucifixo, mergulhando no mistério de sua morte.

Para não errar também o último ato da nossa vida, “é muito melhor celebrar antecipadamente a Sexta-feira Santa do Senhor, aproximando-se da sua cruz, repetindo com ele as suas últimas palavras” (p. 21-22). Desse modo, é possível ver o abismo em que se cai, mas "acredita-se firmemente que nele pulsa o amor e a própria vida: Deus" (p. 22).

Tudo o que é possível se realiza quando se invoca o Pai, confiando-lhe a própria vida, o próprio espírito, a própria morte. O arrebatador prêmio da salvação virá depois como consequência lógica.

O Sábado Santo representa a realidade que os seres humanos vivem todos os dias. Representa o lugar onde a pessoa atua, decide, obtém sucesso ou fracassa. É o símbolo da vida cotidiana. Sua "mediocridade" se estende entre medo e júbilo. Na cotidianidade dores e preocupações são vivenciadas, mas nós estamos, fizemos o salto de nada para a vida, e realmente somos e nenhuma morte pode agora tomar esta existência de nós, que continua a ser preservada para sempre em Deus.

O Sábado Santo, no entanto, é também a passagem entre a Sexta-feira Santa e a Páscoa. Por esse motivo o cristão não deve resignar-se à mediocridade, à normalidade da própria existência, porque a sua vida já está no signo da Páscoa e ele não tem o direito de "ser modesto demais". A vida quotidiana “move-se decididamente na direção da Páscoa e, por isso, os cristãos não só esperam que os seus dias não sejam tudo o que a vida tem para oferecer; da Páscoa eles podem pretender quase tenazmente, sem falsa modéstia” (p. 14).

A primeira reflexão sobre a Páscoa em Início de glória enfoca o fato de que não é um evento passado, mas puro presente. Com a Páscoa, começou no mundo algo que o move irreversivelmente para o seu sentido pleno. O pavio foi aceso no passado, agora queima, mas mudará de forma ininterrupta o futuro no bom futuro de Deus. A ressurreição de Jesus é posta dentro da demanda de sentido do ser humano, à qual Deus dá uma resposta quase inacreditável.

A segunda meditação da Páscoa, intitulada Uma fé que ama a terra, reflete sobre o fato de que estamos a caminho rumo da nossa verdadeira morada, mas na terra não somos apenas hóspedes passageiros.

Devemos amar o céu ou a terra? Rahner responde refletindo sobre o otimismo cristão. A terra se desenvolve positivamente. Somos filhos desta terra e tais continuamos, mas desde a Páscoa a terra já não é o que era. Desde o momento da morte e ressurreição de Jesus, no mais íntimo da terra o fogo de Deus arde figurativamente. Ele transfigura progressivamente a terra em bem, para que o crente a ame, mesmo que o cristão pouco perceba esse processo de transformação, tanto quanto o ar que respira e em que se move. 

Nota

[1] RAHNER, Karl. Che cosa significa la Pasqua. Andreas R. Batlogg e Peter Suchla (Org.). Meditazioni 262, Queriniana, Brescia 2021 (original alemão de 2017). ISBN 9788839932624

Leia mais