01 Março 2021
Desestressando
Foto: Reprodução Facebook
Idelber Avelar
Quatro meses e meio atrás, no dia 13 de outubro, a jornalista Anna Beatriz Anjos publicou uma reportagem fulminante na Agência Pública sobre como a prefeitura de Natal socava ivermectina e cloroquina goela abaixo dos potiguares. É o print que acompanha o post. O link vai nos comentários.
Qual era a grande novidade de Natal em relação aos outros lugares? Bem, a cidade é comandada por um tucano, ou seja, um cabra filiado a uma força do centro democrático, e que além de tudo é médico! O prefeito Álvaro Dias não apenas receitou, recomendou e apoiou a ivermectina como "tratamento" para a Covid-19. Ele montou centros de distribuição e dopagem pesada da população.
Reitero: o prefeito de Natal, que é médico, está há oito meses "combatendo" a Covid-19 com remédio para piolhos. O irresponsável simplesmente captou "o clamor por um remédio" e tascou o seu bate-bumbo alinhado ao negacionismo bolsonarista, porque rendia e ainda rende.
A orla de Natal será trancada a partir de hoje, porque o sistema de saúde está em colapso. Muita gente com Covid, muita gente com hepatite medicamentosa por uso excessivo de ivermectina.
É um pesadelo, em suma, em uma das cidades mais bonitas do universo.
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Cesar Benjamin
Vi de relance o vídeo em que bolsonaro reclama de que o Congresso não o deixa governar. Fica no limite da incitação contra o Parlamento.
Lá pelas tantas ele diz que dará um exemplo. Eu pensei que diria coisas como “meu projeto para colocar o Brasil na vanguarda mundial em inteligência artificial está parado na Câmara” ou “preciso de ajuda do Congresso para desbloquear a expansão da energia solar em todo o território brasileiro” ou “tenho um programa revolucionário para a educação básica, mas os trâmites parlamentares são muito lentos” ou "encontrei uma nova maneira de financiar a saúde pública no Brasil, mas dependo da aprovação dos deputados"...
Nada disso. O exemplo do presidente, para mostrar que não pode governar com este Congresso, mesmo à custa de uma crise institucional muito grave, foi o seguinte: “quero mudar a maneira de emitir carteirinhas de estudante, mas não estou conseguindo”.
Temos um débil mental na Presidência da República.
Christian Edward Cyril Lynch
O negacionismo estrutural aplicado à pandemia: modo de operação
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O comportamento do presidente Bolsonaro ao longo da pandemia pode ser compreendido pelo conceito de negacionismo estrutural. Base do trumpismo, ele funciona como uma estratégia informacional de enraizamento da cultura política autoritária e fidelização do eleitorado reacionário.
As teorias conspiratórias que propagam a mentira, explorando medos e ódio aos "inimigos do povo", objetivam encapsular o público reacionário em uma realidade paralela e imunizar o demagogo contra as más notícias produzidas pela imprensa, pela ciência e pela academia. Isolando o público reacionário do circuito informacional racional-legal, o negacionismo estrutural pretende blindar a popularidade do populista ("o bem"), eximindo-o da responsabilidade por seu péssimo desempenho e atribuí-los a outros agentes, identificados com "o mal".
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No campo específico da saúde pública, o negacionismo serve para negar que a pandemia seja algo de grave ou que tenha alguma coisa a ver com a morte de 250 mil pessoas. É "necropolítica", porque para ele salvar vidas com medidas sanitárias responsáveis importa menos do que sua própria sobrevivência política à pandemia. Por isso Bolsonaro aposta no individualismo antissocial da população para que siga a vida como se nada acontecesse e se enfurece, sempre que prefeitos e governadores decretam medidas sanitárias restritivas. Porque essas decretações assinalam a gravidade do que está ocorrendo e põem a nu sua inação homicida.
Bolsonaro adota então uma estratégia dupla para deslocar o foco de seu comportamento culposo. Primeiro, ele se exime de qualquer responsabilidade sobre a coordenação do combate à pandemia, ou diz que está fazendo sua parte, ou que é vítima de um complô da mídia e de seus outros inimigos. Depois ele contra-ataca, acusando prefeitos e governadores de restringirem ilegalmente liberdades civis e incitando a desobediência civil. É nesse sentido que ele favorece a distribuição de armas, que é para alimentar a esperança de que o "povo" reacionário possa sempre, quando precisar, resistir à "opressão".
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É assim que funciona. Agora é preciso ver como deve ser combatido.
Andréia Assunção
Desse jeito!
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Edu Oliveira
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Roberto Romano
Riso e democracia
Roberto Romano
"As pessoas têm medo do riso porque ele corta, exclui, agride. Elas precisam do riso porque ele distende, desarma, une."
Claude Roy
A democracia fortalecida por Sólon agonizou em 322 a.C. Mas viveu 200 anos. O regime se tornou viável porque destinado a 42 mil cidadãos. Outra vantagem do modelo ateniense - paradigma do Ocidente político - reside nos seus prudentes estadistas, contra os demagogos. Os líderes ponderados praticam um imperativo categórico: "nada em demasia". Desse modo, a dosagem dos elementos constitucionais permitiu que o Estado não fosse conduzido segundo princípios vagos (alimento para os demagogos) nem retomasse a tradição inquestionada (alimento dos aristocratas).
A democracia ateniense, elaborada lentamente, experimentou modificações sucessivas. Nenhum setor social teve preponderância absoluta no jogo político nem aniquilou os demais. Cada instância de poder era corrigida por outra, de modo que todas contribuíssem para a boa ordem constitucional. Entre os direitos garantidos na democrática Atenas, o mais elevado é o de opinião, unido à crítica e ao riso. Os inimigos daquele regime se beneficiaram da sua moderação. Apesar de algumas tragédias, como o processo de Sócrates, a tolerância imperou na cidade e, nela, foi possível criticar com máxima crueza as instituições e os seus chefes. Mesmo Sócrates, durante um terço de século, falou com toda liberdade contra a ordem democrática.
"A comédia, a tragédia, o panfleto, os textos de propaganda hostis ao regime, às inúmeras leis e aos órgãos diretivos ou contra os seus defensores não foram perseguidos. Logo, um grande liberalismo, uma verdadeira liberdade de imprensa duplicada pela tribuna livre, onde se combatiam concepções e paixões variadas: a "oposição" política intelectual não foi proibida" (P. Cloché, "La Democratie Athénienne"). "A República" de Platão é um requisitório violento contra a democracia em nome da justiça. As peças de Aristófanes (sobretudo "As Vespas") caçoam dos sagrados valores democráticos justamente no ponto dolorido e atacado por Platão: a justiça. Aristófanes pinta os juízes democráticos como venais. O riso das plateias consagra o seu gênio, mas evidenciam seu erro político e ideológico. Sem riso, não existe democracia. É por tal motivo que as democracias ocidentais são hoje atacadas -na guerra das sátiras caricatas- pelas massas que se curvam, sérias e silentes, sob as piores ditaduras.
Na ordem cristã, apesar dos muitos tiranos sérios, há abertura ao riso. Ainda agora pode-se ler na prestigiosa revista "Concilium" artigos como o de Karl-Joseph Kuschel sobre o poder liberador da gargalhada. Nenhum católico verdadeiro ignora os conselhos de Pascal na 11ª "Carta a um Provincial": "Há muita diferença entre rir da religião e rir de quem a profana por opiniões extravagantes (...) seria impiedade deixar de impor o desprezo pelas falsificações que o espírito do homem opõe à religião".
O Éden prometido é um lugar onde a liberdade e o riso se realizam ao máximo: "Os justos rirão e tremerão ao mesmo tempo". Pascal evidencia o castigo do pecado pelo riso divino: "Nas primeiras palavras ditas por Deus ao homem após a queda se encontra uma caçoada e uma ironia picante (...) pois, seguindo-se à desobediência de Adão, Deus, como castigo, tornou-o sujeito à morte e, após tê-lo reduzido à condição miserável devida ao pecado, riu dele com palavras de brincadeira. Eis que o homem se tornou um de nós. Isso é uma ironia cruel e sensível pela qual Deus o espetou vivamente".
Quando se proíbe o direito humano ao riso, a inteligência, a fina percepção e a crítica são torturadas. Não por acaso, Kant diz que a religião, com a sua santidade, e os governos, com a sua majestade, não têm a prerrogativa de fugir à crítica. O autor dos "Sonhos de um Visionário" sabia manipular a risada, algo aprendido com Voltaire, outro que ajudou a destruir o reino da pretensa santidade que mantinha fogueiras e autos da fé. Na ordem laica, a religião deve ser vista oficialmente nos limites da simples razão. Sem mais.
Os brasileiros aprenderam a valorizar o riso contra as duas ditaduras do século 20. Sem Stanislaw Ponte Preta e o "Febeapá", muito sangue a mais correria no solo brasileiro. O mesmo vale para o "Pasquim" e todos os nossos cartunistas, vítimas preferidas da censura. Após tanta luta, é covardia aceitar o ultimato dos que se pretendem sérios quando se trata da sua religião ou ideologia, mas se sentem à vontade para pregar o ódio, silenciar sobre homens-bomba quando estes se proclamam fiéis a sua crença. Não é hora de fazermos mea-culpa, renegando o sangue dos nossos mártires, como Vladimir Herzog e milhares de outros. É tempo de ampla defesa da democracia. E do nosso direito sagrado de rir neste vale de lágrimas onde pontificam os que defendem o terror e a censura.
Roberto Romano, 59, filósofo, é professor titular de ética e filosofia política na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor de, entre outras obras, "Moral e Ciência - A Monstruosidade no Século XVIII" (ed. Senac/São Paulo).
São Paulo, domingo, 19 de fevereiro de 2006, Tendências e Debates, Folha.
Carlos Linhares
Depoimento de um médico exausto em SSA @nandoodiaz
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"O pior dia da pandemia - Mais um plantão na UTC, a unidade que recebe os pacientes no hospital e os direciona para as escassas vagas ainda existentes de UTI. As ambulâncias chegam de todos os lugares da Bahia, com suas sirenes cortando o trânsito, correndo contra o tempo.
Mas o vírus parece andar mais rápido, voando através do ar! Após acolher os doentes, compulsoriamente abandonados pelas famílias, proibidas de acompanhá-los pelo risco de contaminação, começa um estranho jogo. De um lado, nós, médicos; do outro, a morte. Ela, muito mais antiga e hábil nas jogadas, a própria criadora das regras. Resta-nos apenas, a todo custo trapacear a cada partida, mantendo os doentes desacordados, fazendo com que pareçam sem vida, enquanto máquinas respiram e vivem por estes.
Se perdemos, não temos chance de revanche; se ganhamos, distribuem-se novas cartas, e tudo o que fazemos é manter a morte ocupada, distraindo-a, vencendo-a pelo cansaço, até que os pulmões voltem a ser a delicada espuma que carrega o sopro de vida, e não mais a casa de um inimigo invisível que se espalha. A vacina ainda não chegou por completo, mas a população parece imune ao cuidado e ao bom senso. Já não há mais vagas de UTI, e se esgotam medicamentos no mercado.
No início da semana, em um hospital, o atracúrio, que adaptava à ventilação mecânica; ontem, em outro, sedativos que mantinham os pacientes adormecidos. Mas nesse momento, após mais de um ano de pandemia, começa a faltar algo mais precioso, cuja escassez é o mais arriscado: a nossa vontade de continuar na luta. Na saída do hospital, que fica na beira da praia, vejo exausto as pessoas se aglomerarem, agindo como se não existisse uma pandemia, fazendo-nos acreditar que a doença não é o desfecho fatal do contato com o vírus, mas o resultado da irresponsabilidade de cada um.
Nasce então a vontade de fazer o que deveria estar sendo feito por todos. Abaixar as cartas, levantar da mesa e voltar para a segurança de nossas casas, isolados, deixando que cada um pague o preço de suas próprias apostas de que não adoeceriam, mesmo aglomerados, sem máscaras e sem cuidados."
Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães
Nem mais, nem menos. Exato!
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Tonny Cálces
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Palavras de Pedro
Eu gosto de recordar o grito de resistência daqueles monárquicos carlistas espanhóis: “Somos soldados derrotados de uma causa invencível”.
Devemos seguir andando, como Abraão, na escura firmeza da esperança, mas “como se víssemos o Invisível”.
Quanto mais revolucionária queira ser uma postura, neste mundo do diabo neoliberal supostamente vencedor, mais mística deverá ser. Nunca foi mais forte a tentação da desistência ou do conformismo — passadas as revoluções e supostamente desacreditadas as utopias — como nessa situação de exclusão generalizada e de predomínio do sistema único.
Não seremos capazes de aguentar acesa a esperança se não vivermos a espiritualidade com coerência profunda e prática.
Pedro Casaldáliga, Vida Pastoral, Jan/Fev 1995.
#Pedro Casaldáliga Presente!
Marta Gustave Coubert Bellini
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