“O capitalismo monopolizou a tecnologia e a utiliza para precarizar a sociedade”

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21 Outubro 2020

Pablo Stancanelli (Lima, Argentina, 45 anos) calcula que 98% da população é “absolutamente analfabeta” em relação ao que acontece por trás das telas e se inclui nessa porcentagem. A revolução digital não é nada nova. Estuda-se e se comenta, desde ao menos os anos 1980 - ainda que as origens da Internet remontem aos anos 1960 -, mas agora, em plena pandemia de coronavírus, é um momento perfeito para analisar as questões e as mudanças com uma visão comum e global. “A tecnologia se tornou central. É preciso tratar os temas não tanto de maneira desmembrada, mas, ao contrário, como um conjunto e se dirigir para uma nova alfabetização da sociedade”, propõe o jornalista argentino de nascimento e editor no Le Monde Diplomatique.

A reportagem é de Agathe Cortes, publicada por Retina-El País, 20-10-2020. A tradução é do Cepat.

Para buscar alcançar esse objetivo, Stancanelli coordenou “El Atlas de la revolución digital. Del sueño libertario al capitalismo de vigilancia”, com quatro capítulos (geopolítica, economia, sociedade e cultura), e construído com mais de 30 artigos, animados, em cada página, com gráficos e dados. Os diferentes autores contam cronologicamente a transformação digital oferecendo uma perspectiva global onde demonstram que tudo está conectado.

O projeto deveria ser publicado em março, por ocasião da Feira do Livro da Argentina, mas a crise sanitária paralisou tudo e, paradoxalmente, o resultado foi ainda mais interessante para a equipe. O conteúdo dessas cem páginas, com a pandemia, havia ficado para trás. A covid o havia superado: “Tudo havia ficado velho. Com o confinamento, o alcance da tecnologia e sua importância na vida havia sido demonstrado. Tivemos que atualizar”.

Um olhar para o passado

O jornalista lembra que a Internet, quando se popularizou, era vista como um movimento utópico e libertário que permitiria romper com as hierarquias. Dizia-se que iria acabar com as desigualdades, pois todos iríamos ter acesso a uma informação gratuita, era possível se comunicar com todas as partes do mundo e, em suma, iria permitir construir um mundo mais igualitário e mais livre. Mas “o que está sendo visto brutalmente neste processo é como o capitalismo monopolizou estas ferramentas e, em certa medida, são utilizadas para precarizar ainda mais a sociedade, para criar maior desigualdade e mais métodos de vigilância”.

Em definitivo, o mundo comum, gratuito e com acesso a tudo, tomou outro caminho. Ficou preso. “A Internet não conseguiu escapar da lógica comercial e financeira que domina nossas sociedades, nem tampouco dos estados mais autoritários ou ditatoriais. O Atlas busca refletir este percurso da tecnologia e ensinar o que acontece do outro lado desta tela que olhamos todos os dias, mais ainda nestes tempos de pandemia. “É o momento de os cidadãos saberem realmente o que é e que façamos todos um uso melhor da Internet”.

Presos na rede

“Presos na rede”. Estas são as primeiras palavras que são lidas no início da obra. Uma das razões é que, do ponto de vista de Stancanelli, não há uma consciência real por parte da sociedade do alcance destas ferramentas e do mau uso que se faz delas. “Agora, parece que é a Internet que tem acesso a nós. O preço dessa gratuidade se torna cada vez mais sério”, alerta o coordenador do projeto.

Ainda que o Atlas não tenha como objetivo demonizar a tecnologia e se reconheça que as ferramentas digitais são “fantásticas”, também revela que há monopólios, censuras e abusos e que não é a Internet a culpada, mas o ser humano. “A rede multiplica as tensões. A Internet está influenciando muito na degradação do mundo e a pandemia evidenciou isto ainda mais”, opina o organizador, em videochamada da Argentina.

Uma das maiores preocupações do editor do Le Monde Diplomatique é a manipulação da informação, as “fake News”, que aumentaram com a crise sanitária. “De repente, parece que todos podemos ser jornalistas, que todos podemos divulgar uma informação. Há uma circulação e uma manipulação que significa um problema grave para a democracia, mas, ao mesmo tempo, há uma grande negação dos perigos do uso dessas ferramentas”, lamenta Stancanelli.

Pensar nos direitos digitais

Apesar do medo e o desconhecimento, as pessoas não vivem esta revolução digital sem se fazer perguntas. Ainda que Stancanelli não vislumbre que já exista um movimento forte o suficiente por parte da sociedade civil para defender seus direitos digitais – um dos temas abordados pelo Atlas no último capítulo –, os cidadãos percebem a sua necessidade.

Um bom começo para resolver estas dúvidas seria pensar em como oferecer a informação, sobretudo para os mais jovens que veem este ambiente digital como algo natural. “Direcionam toda a sua vida e seus movimentos para as redes e por isso é necessário educar mais sobre as ferramentas no colégio”, propõe o jornalista.

Para ele, seria interessante que os próprios estados e organizações governamentais fomentem o uso de dispositivos e aplicativos em que haja um controle e transparência maiores para que seja possível entender melhor os segredos das comunicações. “Por exemplo, agora utilizamos muito o Zoom, mas qual é o alcance da privacidade? Talvez agora não estejam escutando. Não sabemos quase nada sobre isso”, exemplifica. “É possível tomar como uma advertência. O uso que se está dando à tecnologia se converte em algo muito nocivo, caso não se coloquem alguns limites”, conclui.

 

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