Ferros curtos no Vaticano. Artigo de Alberto Melloni

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07 Fevereiro 2020

Francisco não está desatento nem intimidado: quem o conhece não ficará surpreso com isso. Para os outros, é um aviso.

A opinião é de Alberto Melloni, historiador italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado por La Repubblica, 06-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Que haja duelos ou conflitos na corte pontifícia e na Cúria Romana é totalmente fisiológico. Mas mais de um sinal diz que, nesta fase, duela-se com ferros mais curtos do que de costume, por várias razões. Pesam as tensões em torno do Sínodo da Igreja alemã. Têm importância os atritos nas substituições feitas ou iminentes em grandes dioceses e em importantes Congregações da Cúria. E não se deve excluir que o contexto político internacional – por exemplo, com os milhões de votos católicos nas eleições presidenciais estadunidenses – tem um peso.

Mas o que aconteceu nessa quarta-feira, 5, demonstra que as tensões internas – que o New York Times definiu há alguns dias como “intrigas” – são fortes hoje. O jornal alemão Tagespost divulgou a notícia de que dom Georg Gänswein, secretário de Ratzinger e prefeito do cerimonial vaticano, havia sido colocado em repouso. Esclarecimentos subsequentes da Sala de Imprensa vaticana minimizaram, falando de uma mera “redistribuição” de tarefas, o que explicaria a ausência do prelado alemão nas audiências mais recentes do papa Francisco.

O site do Zeit resumiu assim: “O Vaticano encontra outras tarefas para Dom Gänswein”, liberando-o do “papel duplo”, para lhe dar “mais tempo” para ajudar Ratzinger.

O zigue-zague informativo será esclarecido, e o papel do prelado, que até agora foi prefeito de um papa e secretário do outro, em breve será conhecido.

Mas a história diz que não podiam ser ignorados os episódios com os quais algumas das opiniões de Bento XVI haviam sido recompostas em atos de polêmica antibergogliana. Atos entregues a meios de informação complacentes, na patética tentativa de alistar o conservadorismo de Ratzinger ao fervor mórbido daqueles que chamam de “doutrina” as suas próprias nostalgias e de “tradição” o seu próprio manual de seminário.

Seria injusto dar a Ratzinger a responsabilidade por essas operações. Desde sempre lúcido, frágil e polêmico, Bento XVI deve ser reconhecido por um duplo mérito histórico. O primeiro: ter inventado um código de conduta para o papa renunciante que permanecerá como um rastro para o futuro. Sair de Roma para o conclave, residir dentro dos muros vaticanos, conservar uma discrição obediente ao papa foram escolhas que têm um valor precedente para outros papas que quiserem fazer uso da liberdade de renunciar ao ministério petrino.

O fato de algum visitante ou amigo de Ratzinger ter dado a discursos ou anotações a veste de documentos de insatisfação ou de rebelião preventiva contra o papa reinante é a prova de que a sua renúncia em 2013 foi oportuna e clarividente.

Com aquela renúncia, Bento XVI impediu – eis o seu segundo mérito histórico – que outros usassem a autoridade do bispo de Roma, manipulando a sua velhice, as suas ansiedades, os seus humores.

Se foi a dom Gänswein, ou a quem seja em nome dele, que o Papa pediu para ajudar melhor Bento XVI, para que ninguém use o seu prestígio, portanto, é um sinal de que os ferros estão curtos. Mas também de que Francisco não está desatento nem intimidado: quem o conhece não ficará surpreso com isso. Para os outros, é um aviso.

 

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