Com os ‘sem religião’ aumentando nos EUA, precisamos fazer perguntas diferentes

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25 Outubro 2019

"Se acharmos que os mais jovens estão se afastando da religião por causa dos escândalos e da hipocrisia, então talvez seja uma coisa boa, ou pelo menos justificada", escreve Jamie Manson. Publicado pela National Catholic Reporter, a tradução é de Isaque Gomes Correa, 19-10-2019.

Eis o artigo.


Nove anos atrás, cobri um simpósio na Universidade Fordham chamado “Perdidos? Jovens de 20 e poucos anos e a Igreja”, promovido pelo Centro para a Religião e Cultura, da citada universidade.

O evento focalizava principalmente três questões: Os jovens adultos católicos perderam-se no caminho? Igreja perdeu os jovens de 20 e poucos anos? Em caso positivo, como trazê-los de volta?

Estas indagações aparentemente eram tão urgentes que os organizadores precisaram abrir um segundo auditório e transmitir ao vivo o programa para acomodar um número surpreendente de inscritos.

O interesse foi estimulado por uma realidade dura: nos EUA, a Igreja Católica estava decaindo em números, com dois terços dos americanos criados católicos deixando de frequentar as missas.

Esta semana, o Centro para a Religião e Cultura, da Fordham, realizou um programa parecido, porém em menor escala, que lembrou o evento citado inicialmente: “A fé tem futuro? Um simpósio sobre Deus, religião e os ‘sem religião’”.

E embora, quase uma década depois, a falta de interesse na religião institucional continue a mesma, as perguntas que precisamos nos fazer mudaram. Ou, pelo menos, deveriam mudar, disse Kaya Oakes, painelista do evento de abertura e autora de um livro publicado em 2015 intitulado “The Nones Are Alright: A New Generation of Seekers, Believers, and Those In Between”.

“As perguntas que devemos nos fazer sobre como tê-los de volta é: onde os encontramos e o que eles precisam?”, disse Oakes.

A painelista criticou pontualmente o trabalho de Dom Robert Barron, bispo auxiliar da Arquidiocese de Los Angeles, cuja iniciativa “Word on Fire Catholic Ministries” procura trazer de volta ao rebanho os sem religião.

“Ele obviamente se preocupa muito” com os sem religião, explicou Oakes. No entanto, o uso que faz da catequese “sugere que ele nunca se encontrou com um desses jovens”.

“Ele não se pergunta por que estas pessoas deixaram a Igreja, mas só como podemos trazê-las de volta”, disse a palestrante, acrescentando que “não existem estatísticas que sugerem que os anúncios do citado programa podem vir a reter os jovens católicos na Igreja”.

Oakes diz que a retórica de Barron cria o perigo de transformar os sem religião no “outro”, o que gera a dinâmica problemática do “nós x eles”.

“Muito do que o bispo afirma é dito de um ponto de vista bastante clerical”, destacou Oakes. “Ele deveria passar um tempo com essas pessoas ao invés de dizê-las o que devem fazer”.

Oakes diz que recentemente estudou com os jesuítas para poder trabalhar como diretora espiritual, e quando disponibilizou um número de telefone para contatos, recebeu “uma resposta massiva de pessoas em religião”. Tanto que precisou dizer que não poderia atender muitas delas.

“As coisas que estavam seguras em gerações passadas não estão mais aí”, como moradia populares, trabalho integral estável e custos educacionais dentro do orçamento, disse. “Precisamos encontrar as pessoas onde elas estão”.

Oakes propositalmente evita empregar o termo “sem religião”, preferindo chamá-los “sem filiação religiosa”.

“É uma negação”, disse Oakes, que não se reflete nos anseios espirituais dessas pessoas.

Uma segunda painelista, Tara Isabella Burton, também se perguntou sobre se o termo “sem religião” deveria ser usado.

Autora do livro a ser publicado em breve, intitulado “Strange Rites: New Religions for a Godless World”, Burton falou que a nomenclatura “sem religião” está “profundamente incorreta”.

Segundo o seu estudo, “cerca de 72% dos que se identificam como não tendo filiação religiosa dizem acreditar em um poder superior de algum tipo, e cerca de 20% dizem crer no Deus judaico-cristão”.

Segundo ainda a painelista, “existe um número enorme de pessoas que se veem como pessoas espiritualizadas, com uma fome espiritual”.

Burton complementou que o seu livro a ser publicado questiona o significado de “identidade espiritual” e o que ele tem a ver com o futuro da fé.

“Podemos quem sabe falar não de uma religião formal, codificada, mas de cepas religiosas ou cepas ideológicas dentro do grupo?”, perguntou a painelista.

É exatamente o entrelaçamento da religião com a ideologia que é a fonte do declínio na afiliação religiosa, segundo Ryan Burge – em particular, a ideologia política republicana.

“A causa dos – e a solução para todos os – nossos problemas é a política”, disse Burge, pastor batista e professor assistente de ciência política na Eastern Illinois University.

Quando a Universidade Fordham realizou o citado congresso sobre os jovens e a Igreja, a eleição de Donald Trump era impensável. Mas nestes últimos anos, os protestantes convencionais e os católicos ficaram mais conservadores em termos políticos e religiosos. E isso teve um impacto profundo, postula Burge, no afastamento dos jovens da geração millennial para com a religião cristã organizada.

“Se participamos de uma igreja protestante branca em 2018, existia basicamente 93% de chance de que estávamos frequentando uma igreja onde Donald Trump era gostado mais do que o era entre o público geral”.

E o mesmo vale entre os católicos, de acordo com Burge, cuja pesquisa de 2018 sugere que 52% dos católicos brancos dizem que votariam em Trump de novo em 2020.

Os católicos brancos estão ficando mais conservadores também”, disse Burge a um público atento. “A única coisa que os mantêm na faixa dos 50% é que há muitos católicos latinos”.

“Se formos brancos com idade entre 20 e 22 anos e quisermos votar em alguém como Mayor Pete ou mesmo em Joe Biden”, explicou, “participaremos de uma igreja onde não vamos encontrar muitos irmãos que pensam de forma parecida nos bancos, ao nosso redor”.

Burge lançou mão do conceito sociológico de “espiral do silêncio” para explicar a situação.

“É a ideia de que se formamos uma minoria, descobrimos isso muito rapidamente. E, então, o que fazer? Fechamos a boca”, disse Burge. “E sabemos o que acontece quando as pessoas se calam? Acham que temos cumplicidade”.

Se não nos pronunciamos contra o grupo, as pessoas acham que concordamos com elas, e o espiral do silêncio piora cada vez mais, explicou o professor.

Embora haja muitos americanos que não são republicanos, acrescentou Burge, quando pensam sobre religião eles “pensam sobre a esquerda secular, ou a direita religiosa, e estas pessoas não se enquadram em nenhum desses campos. Portanto, é mais fácil ficar em casa no domingo, e não comparecer (às celebrações)”.

Mas os que exatamente não estão comparecendo à igreja é um grupo mais amplo do que podemos supor, afirmou Alan Cooperman, do Centro de Pesquisas Pew (Pew Research Center). Cooperman trouxe dados estatísticos que mostram que a desfiliação religiosa tem aumentado entre os protestantes convencionais, evangélicos e católicos.

Segundo dados apresentados no evento, 35% dos millennials e 23% dos membros da geração X identificam-se como sem filiação. Em 17 de outubro deste ano, o Centro de Pesquisas Pew divulgou uma atualização destes números, informando que, na última década, “o número de adultos sem filiação religiosa nos EUA cresceu em quase 30 milhões”.

E cresceu em todo o país, “não somente no litoral”, disse Cooperman na Fordham. E também não é algo que acontece só entre a população branca.

“A desfiliação tem também aumentado entre as pessoas de cor e entre outros grupos étnico-raciais nos Estados Unidos”, destacou Cooperman. “Temos dificuldade de encontrar uma parte da população americana em que isso não vem acontecendo”.

A sabedoria popular é a de que, na medida em que as pessoas envelhecem, têm filhos e começam a encarar a realidade da morte, elas se filiam a alguma religião. Mas a mais recente pesquisa do Centro Pew dá a entender que este padrão não é mais o caso.

“Nenhuma das últimas gerações se tornou mais religiosamente afiliada a religiões na medida em que envelheceu”, disse Cooperman, “e cada uma das gerações começou menos filiada do que a geração anterior”.

Os católicos, explicou ele, continuam sendo os que mais perdem em termos numéricos.

Somente 59% das pessoas nos EUA que foram criadas em lares católicos ainda se declaram católicos. E para cada pessoa que se une à Igreja Católica, outras 6,5 a abandonam. Eis um número contrastante com os protestantes convencionais, que têm 1,7 pessoas para cada uma que se junta ao grupo, e com os evangélicos, que ganham 1,2 pessoas para cada uma que os deixam.

O maior vencedor – o que não deve nos surpreender – são os sem filiação, que ganham 4,2 pessoas para cada pessoa que acaba se filiando a uma religião.
Cooperman conclui a apresentação das estatísticas propondo quatro teorias do porquê os sem religião continuam a crescer.

Como Burge, ele postula que o enredamento entre religião e política tem afastado as pessoas.

Uma outra teoria é que grupos religiosos têm sido impactados de modo adverso pelo declínio na taxa de casamentos. Cooperman observou que, embora a taxa de casamentos tenha permanecido a mesma, o número de americanos que nunca se casou aumento de 15% para 30% entre 1960 e 2015. “As famílias e a religião estão ligadas”, disse o palestrante, pois as tradições religiosas ajudam as famílias a marcar o tempo e os momentos importantes, e as famílias passam estes costumes adiante, para a geração seguinte.

Mas e se o aumento da desfiliação religiosa nada tem a ver com religião, e sim com um sintoma mais amplo, de uma mudança social?

Tendo presente o estudo sociológico clássico de Robert Putnam intitulado “Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community” (Jogando boliche sozinho: o colapso e o renascimento da comunidade americana, em tradução livre), Cooperman declarou que o declínio no envolvimento cívico e em organizações fraternais nos levou a ter “vidas mais atomizadas”.

Da mesma forma como um atomizador rompe um líquido em milhares de gotículas, esta mudança na cultura nos fez agir de forma cada vez mais individualista – realidade que só aumentou com o uso dos aparelhos celulares e mesmo dos nossos hábitos nas redes sociais, que são também, em grande parte, usadas de modo solitário.

A última teoria tem a ver com a riqueza e aquilo que Cooperman chamou de “insegurança existencial”.

“Existe um padrão geral evidente de que quanto mais rico for o país, menos religioso tende a ficar”, explicou ele, mostrando um gráfico que trazia uma pesquisa mundial sobre o assunto.

Qual o único país fora desse padrão? Os Estados Unidos, que é tão rico quanto o é religioso. (Cooperman observou que os números estatísticos podem soar familiares em países islâmicos ricos como a Arábia Saudita e o Kuwait, mas estes lugares não divulgam este tipo de dado.)

A China é o único país que é, ao mesmo tempo, pobre e não religioso, em grande parte devido à sua história comunista.

Se este declínio na afiliação religiosa é algo bom ou ruim, diz Cooperman, depende de qual é a razão.

Se acharmos que os mais jovens estão se afastando da religião por causa dos escândalos e da hipocrisia, então talvez seja uma coisa boa, ou pelo menos justificada.

“Em um mundo competitivo, eis um chamado a despertar”, continuou o palestrante. “Se for essa a causa, talvez chegou a hora de uma mudança. Se as religiões puderem dar algo melhor, talvez as gerações futuras retornem”.

Mas, ao mesmo tempo, se este fenômeno tiver relação com a teoria do “jogar boliche sozinho”, então estamos diante de uma má notícia.

Os trabalhos voluntários e caritativos têm diminuído, observou também Cooperman. E se o declínio na religião é só um sintoma de um afastamento mais amplo para com o nosso senso comunitário e de quem somos realmente enquanto sociedade, talvez estejamos enfrentando um problema maior do que podemos perceber.

Aquela para a qual ninguém parece ter uma resposta, concluiu Cooperman, é a seguinte pergunta: “Como sairemos disso?”

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