“Os problemas econômicos da China poderiam marcar o fim de Xi e do PCC”

Foto: Foreign and Commonwealth Office | Flickr CC

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03 Junho 2019

Se os problemas econômicos mencionados se mantiverem ou se exacerbarem, isso definitivamente faria perder a Xi o “Mandado Celestial” - a economia chinesa está desacelerando e, consequentemente, também está sendo corroída a justificativa oferecida por Xi para manter o poder concentrado exclusivamente em suas mãos.

A reportagem é de Mattia Sisti, publicado por Business Insider Italy, 31-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

O Partido Comunista no governo da China é, com efeito, uma “dinastia vermelha”, como destaca Carl Minzner em The End of an Era (2018). À frente dessa dinastia está Xi Jinping - o novo "imperador" da China (como expliquei em um artigo anterior para a Business Insider Italy, Xi aboliu a prática da governança coletiva e o princípio da sucessão tornando-se um verdadeiro e próprio imperador).

Sua legitimidade para governar deriva da declinação moderna e economicista do "Mandato do Céu", que regulava o antigo Império Celestial. Os imperadores mantinham o poder através da contínua satisfação das necessidades das pessoas; Xi e o partido comunista que ele presidiu fazem isso aumentando constantemente a prosperidade econômica do país. Atualmente, o índice de prosperidade é medido em termos estatísticos. Assim: enquanto os salários reais, o preço dos imóveis, o valor das ações na bolsa e no PIB continuarem a aumentar, o governo de Xi e da dinastia vermelha sairão reforçados. O que significa que, em caso contrário, sua permanência no poder estará em risco.

No entanto, o ajuste das contas parece bater às portas para o regime de Pequim e seu líder absoluto Xi. Como George Magnus aponta em um livro recente (Red Flags. Why Xi’s China Is in Jeopardy, 2018 - “Sinal Vermelho. Porque a China de Xi está em perigo”, em tradução livre), já pode ser ouvido o disparo de numerosos "alarmes” relativos à economia chinesa. Tais problemas podem ser divididos em dois grupos.

Problemas estruturais:

- Um rápido envelhecimento da população. As estimativas mais recentes sugerem que, até 2030, cerca de 25% da população da China terá mais de 65 anos. Isso significa uma única coisa: problemas econômicos à vista. Na prática, o envelhecimento da população acarreta o esgotamento da força de trabalho, ou seja, um dos principais fatores que alavancaram o desenvolvimento do país desde a década de 1980. Gordon Chang, renomado especialista sobre a China e autor de The Coming Collapse of China (2001), mostra como “a China está se aproximando rapidamente de um ponto de declínio demográfico. A força de trabalho atingiu seu pico em 2011 e, muito em breve, a população total do país atingirá seu ponto mais alto. Quando atingir seu pico nos primeiros anos da próxima década - e talvez até nos próximos anos - a China está destinada a ver sua população encolher em 400 milhões até o final do século." A China, enfatiza Chang, será submetida a um dos piores perfis demográficos do mundo e não será mais alavancada por um dos melhores.

- A “armadilha da renda média” (ou middle income trap, como é mais conhecida) à qual a China provavelmente irá ao encontro. Isto é, uma situação de estagnação econômica que ocorre quando uma nação se encontra literalmente esmagada entre os países mais pobres, de um lado, e os mais ricos, pelo outro. Sob essas condições, será muito difícil para a China desenvolver a sua economia. Os países mais pobres podem oferecer custos de mão-de-obra mais baixos e mais atrativos para atrair investimentos estrangeiros, enquanto os países economicamente mais avançados são capazes de inovar com muito mais eficiência.

Problemas secundários:

- As tarifas impostas por Trump (que até o momento somam 25% de US $ 250 bilhões em produtos chineses) estão rapidamente colocando a economia chinesa de joelhos: a China prevê que em 2019 seu PIB anual cresça entre 6 e 6,5%, ou seja, a menor taxa já registrada em décadas. A esse respeito, Chang assinala: mesmo se fosse dado crédito aos relatórios inflados de Pequim sobre o crescimento do PIB, a China está, de qualquer maneira, criando 5 vezes mais dívida (5,5 para a precisão) do que seu PIB nominal. Um dado que, assinala Chang, é superior em 1,5 daquele do ano passado.

- O caso da Huawei. Trump assinou recentemente uma ordem executiva (que pode ser vista no site da Casa Branca) que permite o bloqueio de transações econômicas entre entidades estadunidenses e estrangeiras, se estas puserem em risco a segurança nacional dos Estados Unidos no campo das telecomunicações. A Huawei foi prontamente adicionada a essa "Entity List" do Departamento de Comércio dos EUA como uma ameaça potencial à segurança nacional. Este evento foi rapidamente seguido pela decisão da Google de revogar para a Huawei o uso do sistema operacional Android, uma manobra que poderia ter o efeito de paralisar as suas operações de vendas.

Se os problemas econômicos mencionados se mantiverem ou se exacerbarem, isso definitivamente faria perder a Xi o “Mandado Celestial” - a economia chinesa está desacelerando e, consequentemente, também está sendo corroída a justificativa oferecida por Xi para manter o poder concentrado exclusivamente em suas mãos.

A este respeito, Gordon Chang comenta: "Todos os dias, Xi Jinping, aquele que desinstitucionalizou o partido comunista através do desmantelamento do princípio da sucessão, é chamado a enfrentar um novo desafio; é possível que acabe perdendo algum muito em breve”.

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