03 Abril 2019
As falas indígenas demarcam posicionamentos valiosos neste momento da vida nacional. Deveríamos, diante do quadro desenhado, agir em nome da escuta mais profunda e ampliar a audiência em torno da pauta apresentada pelos indígenas. Não como ato de caridade aos povos indígenas e sim porque compreenderíamos a urgência de andarmos juntos e de percebermos o quanto a pauta é também a expressão daquilo que nos religa à busca do lugar onde habitam ideias do bem viver, da demonstração de outra significação da nossa existência na Terra.
O comentário é de Ivânia Vieira, professora da Universidade Federal do Amazonas, doutora em comunicação, articulista do Jornal A Crítica - Manaus e co-fundadora do Movimento de Mulheres solidárias do Amazonas (Musas) e do Fórum de Mulheres Afroamerindias e Caribenhas
Reféns de um modelo de vida depredador e educados para o consumo voraz, mergulhamos em crises de todas as ordens. Uma dela é a da banalização do humano. A corrida realizada todos os dias nos leva para onde? O dinheiro cobiçado e em nome do qual se topa qualquer negócio desfigurou pessoas e poderes institucionais e das entranhas deles exala na sala de acordos nefastos o cheiro da morte.
É contra a morte que indígenas permanecem em luta secular. Resilientes, são, nessa persistência, o convite para marcharmos com eles na batalha pela dignidade da vida. “A transformação é processo demorado, a gente tem que lutar todo dia”, indica Pe. Justino Rezende, do povo tuyuca, um dos expositores no seminário ‘Resistir para Existir – Terra, Educação e Saúde Indígena’, realizado no dia 27, no Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Na mesa 1, que abordou o tema “Desafios para uma Educação Intercultural, Crítica e Democrática”, Pe. Justino apresentou ao público universitário a noção de território para os indígenas, “uma interpretação a ser aprendida pelos não índios”, pois não é concebida no patamar da faixa de terra delimitada; envolve outros patamares e outros territórios para além da terra. “Os trovões são nossos avós. Nós circulamos no Cosmos”, a outra parte do território.
Ao contar à plenária sobre a forma de interpretação da porção territorial indígena, Justino dialoga com outros pensadores a respeito do Cosmos como universo de possibilidades e naquilo que o físico e astrônomo Marcelo Gleiser, ganhador do prêmio Templeton 2019, situa como necessidade de nos debruçarmos para pensar e agir, a ética cósmica, e com outros autores que se debruçam sobre os elementos de interpretação da dimensão andina da ética cósmica. Nas diferentes falas, o que sobressai é o convite para melhorar a forma de cuidar do Planeta Terra, das gentes e dos não humanos que nele habitam em conexão com esse universo.
Outras duas mesas trataram dos “Desafios da Saúde Indígena no Brasil”, uma questão que ganha importância exatamente quando a proposta de municipalização da saúde indígena é apresentada como forma, equivocada, de resolver os graves problemas nessa área. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) está em campanha de mobilização dos indígenas e da sociedade nacional contra a municipalização e a classifica como um “genocídio declarado”. Ao final da tarde, um painel abordou ‘As Novas e Velhas Lutas dos Povos Indígenas – Territórios Conquistados e Direitos Violados’.
O seminário Resistir para Existir é um exercício de construção conjunta entre o SARES, a Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), Ajuri Universitário, União da Juventude Socialista (UJS), Dabukuri, Foreeia e Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam).
Direitos humanos na Amazônia
As atividades articuladas pelos indígenas prosseguem nesta sexta-feira (29). Na Escola Normal Superior da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), indígenas e não indígenas reúnem-se, por todo o dia, para debater sobre os “Direitos Humanos na Amazônia”. O encontro é organizado pela Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDII), criada em dezembro de 2018, a partir do Fórum de Educação Escolar Indígena (FOREEIA), com adesão de 20 coletivos de movimentos sociais. Nos dias 2,3 e 4 de abril, no município de Autazes (AM), a Assembleia de lideranças indígenas e, no dia 5, em Manaus, a “III Marcha Foreeia – Resiliência pela vida plena”, no dia 5 de abril.
A FAMDII organiza para este ano a realização de uma série de atividades que têm a finalidade de envolver o maior número de brasileiros nos debates e nas manifestações públicas em defesa da terra indígena, do respeito às culturas, da educação escolar e da saúde indígenas.
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