Agroecologia: incomodando a sociedade dos alimentos enlatados, por Ruy Sposati

Indígenas Apinajé, Krahô, Xerente, Canela e Avá Canoeiro no encontro. Foto: Edson Prudencio/APA-TO

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12 Janeiro 2018

Práticas agroecológicas revaloram comunidades que produzem e têm tempo de descanso, que cooperam e não competem, turbinando o pensamento sobre mudar o mundo.

A reportagem é de Ruy Sposati, elaborada a partir do 3º Encontro Tocantinense de Agroeocologia/TI Apinajé, publicada por Conselho Indigenista Missionário – CIMI, 10-01-2018.

O Estado e o mercado ignoram – quando não combatem – as múltiplas formas de se alimentar, produzir, falar e viver de pescadores, camponeses, indígenas, quilombolas e quebradeiras de coco. É preciso reagir – afirmaram os participantes do 3o Encontro Tocantinense de Agroeologia.

Um pescador propôs que se lutasse pela inclusão da farinha de mandioca no cardápio das escolas públicas. Quer dizer, o item mais básico da alimentação de qualquer ser humano do Cerrado até hoje não está nos pratos dos estudantes. Todo mundo ali produz farinha – o Estado poderia comprá-la diretamente destas mesmas comunidades!

E não é só o cardápio que desagrada. Tudo vem de cima para baixo: “nós recebemos um pacote que é feito lá no Ministério da Educação, que vem pra secretaria estadual, depois pro município. Nesse caminho, não muda quase nada – e o professor simplesmente tem que reproduzir goela abaixo dos alunos”, expôs uma professora de uma Escola Família Agrícola (EFA).

Para ela, a educação tem sido historicamente negada aos povos do campo. “Os camponeses não tinham terra. Os quilombolas eram os escravos, e os índios os donos das terras. A educação, então, nunca foi para nenhum de nós”, continuou.

Mesmo com as experiências de educação do campo – cursos de alternância, EFAs, escolas em aldeias e comunidades, licenciaturas e até cursos de pós-graduação específicos -, é preciso ficar atento: “A educação do campo é um espaço que nós estamos sim ocupando, mas continua sendo um espaço de disputa”, explicou.

O problema, segundo uma agente pastoral, é que “a gente aprendeu que o jeito que a gente vive é atrasado”. Na lógica do colonizador, viver bem, em harmonia com a terra, não funciona.

“Trocar de celular de três em três meses… Deixar a TV ligada o dia inteiro… Isso foi ensinado pelo mercado. Por causa disso, é preciso produzir muito mais energia, porque está aumentando cada vez mais o consumo. Agora, a pergunta é: eu preciso? Pro meu bem viver, eu preciso disso?“, perguntou.

As práticas agroecológicas tornam-se uma ferramenta para revalorar a vida feliz, das comunidades que produzem e têm tempo de descanso – grupos sociais que cooperam, e não competem. A agroecologia funciona, então, como uma teoria que sistematiza práticas tradicionais de produção de alimentos, e turbina o pensamento sobre mudar o mundo.

É uma “alternativa para sair do caos: precisamos construir redes, construir territórios de agroecologia”, propôs. “Nós somos um povo que vive diferente. E essa outra sociedade, industrial, do alimento enlatado – nós ainda incomodamos eles!”

Mulher Apinajé dá banho em neto. Foto: Edson Prudencio/APA-TO

“É a primeira vez que ouvi essa palavra”, disse uma mulher Kraho, num português truncado, referindo-se a “agroecologia”. Isto é: ainda há um caminho pela frente, para se fazerem entender as articulações e conversas interétnicas em torno da agroecologia. Mas, porque ela “parece o nosso jeito de viver, que parece com o jeito da natureza de viver”, como falou um homem Apinajé, são caminhos possíveis de se caminhar juntos.

Carta Final

Enquanto o agronegócio seguir sua “busca de lucros sem limites”, as comunidades do campo seguirão “insurgindo contra a violência e a tirania do latifúndio”, afirmam os participantes do 3o. Encontro Tocantinense de Agroecologia.

Na carta final do encontro, quilombolas, pescadores, agricultores, camponeses, quebradeiras de coco e indígenas Apinajé, Krahô, Xerente, Canela e Avá Canoeiro, reafirmaram sua luta em defesa do território e do Bem Viver.

Sob o título de “Território e agroecologia em rede: a base para o Bem Viver”, a reunião promoveu uma rica troca de experiências agroecológicas, e também de formas de lutar e resistir contra o avanço da fronteira agrícola nos territórios do campo do Tocantins.

Foram dias de se conhecer – de aceitar o corpo do outro. Indígenas Apinajé fizeram dúzias de pinturas de jenipapo nos visitantes; quilombolas ensinavam o trançado da palha, e jovens quebradeiras de coco ensinavam como cortar o babaçu para as bijouterias, ornando-os com sementinhas coloridas. Todos trocaram sementes de plantio, e venderam entre si produções trazidas de seus territórios – azeite, mel, colares, arcos, queijos, cestos, bolsas, farinha, remédios.

Agricultora preparando almoço durante encontro de agroecologia. Foto: Edson Prudencio/APA-TO

Segundo o documento final da conferência, as comunidades irão seguir criando seus territórios de agroecologia, regidos pela “prática da produção sustentável de alimentos”, fortalecendo a segurança alimentar das comunidades. Defenderão “a recuperação de áreas degradadas e proteção dos mananciais de águas”, e lutando contra “os projetos de hidrelétricas planejados nas bacias dos rios Tocantins e Araguaia, que afetam e ameaçam povos indígenas, ribeirinhos e camponeses”.

O encontro, “sustentado e alimentado pelas experiências de nossos anciãos, a força de nossa juventude e a esperança de nossas crianças”, foi realizado pela Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA), e contou com a participação de quase 400 pessoas.

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