Cessar-fogo entra em vigor; Colômbia terá que 'engolir sapos' para ter paz, diz Ingrid Betancourt

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30 Agosto 2016

Ex-refém das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt afirmou que o cessar-fogo entre a guerrilha e o governo será um "grande sapo" que todos os envolvidos em mais de 50 anos de confronto terão que engolir.

"Teremos que ser nobres e grandiosos se quisermos que isso funcione. Se continuarmos a agir como baratas, não irá funcionar", disse a ex-senadora, prisioneira das Farc de fevereiro de 2002 a julho de 2008, à BBC.

A reportagem é publicada por BBC Brasil, 29-08-2016.

Betancourt disse que o acordo de paz permitirá "reforçar as instituições democráticas" na Colômbia, mas ainda será preciso julgar eventuais responsáveis por crimes de guerra.

"Esperamos que a justiça venha num segundo estágio. Agora é como um adiantamento, no que esperamos que seja uma garantia para novas gerações não testemunharem e não serem submetidas à violência que vimos na Colômbia até agora".

Após quatro anos de negociações públicas, entrou em vigor nesta segunda-feira, 29 de agosto, o cessar-fogo bilateral e definitivo que, na prática, encerra a insurgência do grupo guerrilheiro de inspiração marxista, iniciada em 1964.

Fecha-se assim um capítulo fundamental de um conflito armado de mais de 52 anos, em que mais de 260 mil pessoas morrerem, quase sete milhões foram desalojadas e dezenas de milhares desapareceram.

A medida converteu em permanente o cessar-fogo unilateral que a guerrilha mantinha desde julho de 2015 - desde então o governo suspendeu bombardeios e reduziu ofensivas contra os rebeldes.

Ainda falta, porém, um passo crucial para selar o acordo de paz definitivo anunciado pelo governo e pelas Farc em Havana, em Cuba, na semana passada: o voto dos colombianos em plebiscito convocado para 2 de outubro.

E o governo da Colômbia ainda negocia com outro grupo guerrilheiro: o Exército de Libertação Nacional (ELN), fundado pouco depois do nascimento das Farc.

Para Betancourt, trata-se de "um bom começo", muito embora ela diga que ainda luta para tentar perdoar os responsáveis por seu sequestro.

"Estou tentando. A vontade está lá. Sei que é importante perdoar, porque é o meu caminho para a liberdade. Se não perdoar estarei acorrentada à minha sede de vingança. Acho também que perdoar é o caminho para a Colômbia. Precisamos deixar a guerra e o ódio para trás".

Sim ou não?

Pesquisas de opinião feitas até agora não revelaram tendência clara a favor ou contra o acordo de paz.

Muitos colombianos respaldam os termos do cessar-fogo, mas outros veem o acordo com desconfiança.

Ainda há muita desinformação e falta de conhecimento sobre os acordos, e também tensão política entre o ex-presidente e atual senador Álvaro Uribe, opositor do acordo e ainda popular entre setores da população, e o atual presidente, Juan Manuel Santos, principal patrocinador do acordo e cuja gestão hoje tem níveis baixos de aprovação.

Há quem veja nos acordos um nível de impunidade considerado inaceitável, porque guerrilheiros e demais cidadãos que tenham cometido crimes graves poderiam evitar a prisão cumprindo penas alternativas de reparação a comunidades afetadas pelo confronto.

O governo diz considerar a crítica injusta.

Betancourt disse concordar com a anistia a adolescentes e jovens que foram praticamente obrigados a se juntar às Farc. "O que a Colômbia está tentando é não usar a justiça como instrumento de vingança, mas para construir oportunidade para encontrarmos um novo jeito de ser colombiano".

A opinião da população sobre o acordo deverá começar a ficar mais nítida quando os colombianos souberem a pergunta exata do plebiscito, que ainda não foi formulada.

O que vem depois

Enquanto isso, as Farc já anunciaram que sua décima conferência, em que os acordos serão aprovados internamente e haverá decisão pela conversão a uma organização não-armada, ocorrerá de 13 a 19 de setembro.

Poucos dias depois, governo e Farc farão um ato oficial de assinatura dos acordos, cerimônia que deverá ser acompanhada por líderes mundiais como o presidente dos EUA, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro.

Se os colombianos aprovarem os acordos no plebiscito, as Farc deverão entregar todas suas armas à ONU em cerca de seis meses, para serem destruídas. E seus integrantes poderão se reintegrar à vida civil.

Se os acordos forem rejeitados pela população, o cenário seguinte será difícil de prever.

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