"Comer juntos é confraternizar, dialogar, fortalecer a amizade e compartilhar o dom da vida."
O comentário é de José Antonio Pagola, teólogo espanhol, ao Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 14,13-21, que corresponde ao 18º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, publicado por Religión Digital, 27-07-2026.
Quase sem nos darmos conta, e impulsionados por diversos fatores, temos gradualmente desumanizado aquele gesto afetuoso e humano de sentar à mesa para comer juntos.
Para muitos, a alimentação se tornou uma tarefa puramente funcional que precisa ser organizada de forma rápida e precisa durante o expediente. Aquele momento especial de reunião familiar em torno da mesa está se tornando cada vez mais raro. Em muitos lares, a mesa, que antes era um lugar para reunir pessoas, não serve mais como um espaço para pais e filhos se encontrarem, compartilharem suas vidas, conversarem e relaxarem juntos.
Outros se acostumam a "alimentar seus corpos" em refeições impessoais em restaurantes ou no canto da cafeteria local. Muitos são forçados a participar de almoços formais ou de negócios, onde o gesto amigável de comer juntos é substituído por interesse próprio, pragmatismo ou ostentação.
O gesto de Jesus de convidar as pessoas a sentarem-se e compartilharem uma refeição simples, agradecendo a Deus pelo pão que recebemos, pode ser um chamado para nós. Como Xabier Basurko explica tão eloquentemente em seu estudo "Compartilhando o Pão", comer é muito mais do que "introduzir uma certa quantidade de calorias no corpo".
A necessidade de comer é, antes de tudo, um sinal de nossa necessidade fundamental. Nós, humanos, percebemos vagamente que não somos autossuficientes. Na realidade, vivemos de receber, nutridos por uma vida que, através da terra, é dada a cada um de nós diariamente. É por isso que é um gesto profundamente humano parar antes de comer para agradecer a Deus por esse alimento, fruto do esforço e trabalho humanos, mas, ao mesmo tempo, um dom original do Deus Criador que sustenta a vida.
Mas comer não é apenas um ato individualista e biológico. Os seres humanos foram feitos para comer com os outros, compartilhando a mesa com familiares e amigos. Comer juntos tmea ver com convívio, diálogo, fortalecimento da amizade e partilha do dom da vida.
Por isso é tão difícil agradecer a Deus quando temos mais comida do que precisamos enquanto outros sofrem com a miséria e a fome. Sentimo-nos acusados pelas palavras de Gandhi: "Tudo o que você come desnecessariamente, está roubando dos estômagos dos pobres".
Talvez nos países ricos devamos aprender a abençoar a mesa de uma maneira diferente: agradecendo a Deus, mas ao mesmo tempo, pedindo perdão pela nossa falta de solidariedade e tomando consciência da nossa responsabilidade para com os famintos da Terra.