19 Junho 2026
A pregação de Jeremias o leva a enfrentar tempos difíceis, durante os quais o profeta lamenta a Deus. Mas — como frequentemente acontece — seu lamento não é desprovido de uma clara confiança de que Deus intervirá em seu favor.
Em nítido contraste entre duas figuras únicas, Adão e Cristo, e suas ações distintas, esta obra teve repercussões — certamente também contrastantes — para “todos”. Pecado e graça, morte e vida são apresentados tanto como consequências quanto como a realidade presente através da qual os crentes em Cristo venceram todo o pecado e suas consequências.
Mateus diz à sua comunidade que eles sofrerão perseguições violentas, mas os convida a "não temer", pois o próprio Deus os acompanhará e eles serão capazes – com a ajuda dele – de pregar as Boas Novas de Deus a todos.
O comentário é de Eduardo de la Serna, comentando o evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de Mateus 10,26-33, publicado por Religión Digital, 15-06-2026.
Eduardo de la Serna é padre argentino e membro do Grupo de Padres na Opção pelos Pobres.
Eis o comentário.
A fidelidade ao plano de Deus tem Ele mesmo como garantidor
Leitura do profeta Jeremias 20,10-13
Resumo: A pregação de Jeremias o leva a enfrentar tempos difíceis, durante os quais o profeta lamenta a Deus. Mas — como frequentemente acontece — seu lamento não é desprovido de uma clara confiança de que Deus intervirá em seu favor.
O texto litúrgico corresponde a um fragmento do que alguns chamam de “Confissões de Jeremias”, título inspirado em Santo Agostinho e frequentemente reinterpretado sob essa perspectiva. Examinemos brevemente essa série de textos antes de nos aprofundarmos naquele que a liturgia nos oferece hoje, o qual, por sua vez, nos permite reler a leitura do Evangelho do dia.
O profeta Jeremias recebe um chamado em um momento muito turbulento da história de Israel. O poderoso exército babilônico se aproxima, e a pergunta "Onde está Deus?" é primordial para o povo. Falsos profetas surgem, alegando que Deus não abandonará seu povo e que os babilônios "não passarão". Mas Jeremias se coloca "do outro lado" e afirma que o exército inimigo é um "castigo" de Deus por tê-lo abandonado, que eles são enviados por Deus, e esse fato deve ser reconhecido. Obviamente, ele será acusado por muitos — e esta é a leitura de hoje — de ser um "traidor da nação", um "herege", um falso profeta, porque Deus não permitirá que nada de ruim aconteça ao seu povo; afinal, eles são o "povo escolhido".
Uma breve nota sobre “falsos profetas”. Visto que um profeta é alguém que fala em nome de Deus a um grupo específico em um momento específico, declarando: “Assim diz Deus”, é praticamente impossível discernir se alguém é um profeta verdadeiro ou falso. Dizer que “o tempo dirá” é quase sádico quando morte ou destruição estão envolvidas. Sem dúvida, muitos escolhem acreditar no que lhes agrada, ou no que preferem aceitar a partir de uma perspectiva de teologia limitada. Neste caso, a crença é que “Deus não permitirá” a destruição de Jerusalém. No caso específico de Jeremias, o critério que ele propõe para distinguir um profeta verdadeiro de um falso é se ele anuncia ou não a “paz” (14,13-16). Ressaltamos que, neste caso específico (e por essa razão — certamente —, não é válido em outros casos ou para outros profetas), se ele anuncia paz, é um “falso profeta”, visto que não foi isso que Deus o enviou para dizer, mas sim, ao contrário, para anunciar “fúria” e “devastação” (20,8). O conflito específico de Jeremias com os “falsos profetas” será um dos temas centrais do livro. O povo, os líderes e a corte escolherão acreditar nesses profetas, levando Jeremias a ser questionado, atacado e perseguido, chegando a sofrer uma tentativa de assassinato. Essa é a estrutura das “Confissões”.
As notas autobiográficas (as “Confissões”) revelam um “crescendo” que vai de uma simples queixa (11,18-12,6), uma crise em seu relacionamento com Deus (15,10-21) que piora (20,7-9) a um lamento desesperado (20,14-18)... Nosso texto, como se pode ver, está entre os dois últimos.
Aqueles que antes eram amigos do profeta, com quem ele vivia em paz (v. 10), agora buscam sua humilhação. Aguardam seu tropeço para poderem insultá-lo (o verbo “pth” pode ter conotações sexuais; refere-se a uma “sedução” com abuso, a mesma encontrada em Êxodo 20,5; veja Êxodo 22,15, embora geralmente seja lido como “engano”). A verdade é que aqueles que antes o “saudavam” (Shalom) agora buscam sua queda para se vingarem dele. Obviamente, essa mudança se refere à pregação do profeta.
No entanto, Jeremias sabe que, se falou, foi em nome de Deus, e por isso sabe — desde o início de seu chamado — que Deus está com ele (1,8). O problema é que essa presença divina é sentida cada vez menos por causa da crescente hostilidade que enfrenta. Mas ele sabe que eles não prevalecerão contra Deus, o “valente guerreiro”, e que experimentarão — ele acredita — uma série significativa de tribulações: tropeçarão, não vencerão, serão envergonhados, fracassarão com uma “vergonha eterna e inesquecível”.
Essa confiança no profeta se transforma em oração, agora dirigida a ele em forma de lamentações ou súplicas.
Ele se dirige (repetindo o que foi dito na primeira “confissão”, 11,20) a “Yahweh Tsarvah”, Deus “dos exércitos”, a quem chama de “justo examinador”, que examina cuidadosamente “o coração e a mente”, isto é, os sentimentos e as razões. O uso de atributos divinos antes de pedir o que a situação difícil justifica é comum em lamentações; neste caso, ele pede para ver como Deus “se vinga” deles, “porque” (em hebraico, kî, muito comum em lamentações) ele confiou, “revelou” a Ele a disputa (a causa; um termo que também encontramos em outra “confissão”, 15,10).
Como é comum em lamentos ou súplicas, esta termina com um cântico de esperança confiante; o autor “sabe” que Deus fará algo e celebra isso antecipadamente: neste caso, ele convida os “ouvintes”/leitores, em um paralelismo sinônimo, a “cantar”/“louvar” a Deus (v. 13a). A razão? Porque (kî) “ele salvou”. Ele “libertou” (o verbo nzl pode ser traduzido como “salvar”, “libertar”) a “vida” (nefesh) dos “pobres” (ebîôn) das mãos dos ímpios (isto é, daqueles que procuram o mal do profeta).
Leitura da carta de São Paulo aos cristãos de Roma 5,12-15
Resumo: Em nítido contraste entre duas figuras únicas, Adão e Cristo, e suas ações distintas, esta obra teve repercussões — certamente também contrastantes — para “todos”. Pecado e graça, morte e vida são apresentados tanto como consequências quanto como a realidade presente através da qual os crentes em Cristo venceram todo o pecado e suas consequências.
É muito provável que o texto que a liturgia nos oferece inicie a segunda parte da seção "teológica" da Carta aos Romanos. Paulo dedicou a primeira parte a mostrar que "todos" (gentios e judeus) pecaram. E, como todos pecaram, Deus tem motivos suficientes para derramar sua ira sobre "todos", mas, mesmo assim, escolheu manifestar sua "justiça" (= compaixão, sua proximidade e misericórdia), e "todos" são justificados pela fé em Cristo. Após destacar isso, a carta começa a mostrar os efeitos que essa "justiça pela fé" tem sobre a humanidade. A primeira dessas consequências é que o crente é libertado do pecado, e ele explica isso.
O texto apresenta claramente um contraste antitético entre “um homem” e outro “homem”, e os efeitos das ações de cada um sobre “todos”. Vejamos isso esquematicamente:
“um homem”
Adão
Cristo
A ação daquele homem
Pecado | crime | desobediência
Graça | obediência
Efeitos em “todos”
Morte | danação | pecadores
Justificativa | apenas
O texto, como podemos ver, é marcado por um duplo contraste: por um lado, entre Adão e Jesus (apresentado aqui como uma espécie de “anti-Adão”), e por outro, entre “um” e “todos”. Visto que Adão foi o “primeiro”, suas ações afetam “todos”; visto que Cristo foi “o primeiro ressuscitado”, sua “graça/obediência” também afeta “todos”. As ações do primeiro homem são marcadas por três termos sinônimos: pecado, crime ou desobediência, enquanto as ações de Cristo são marcadas por seus opostos: graça e obediência. Obviamente, o mesmo se aplica aos efeitos sobre “todos”. Morte e vida são as antíteses fundamentais: “a morte reinou”, “eles reinarão na vida” (v. 17), “o pecado reinou” (tempo agorista, um fato específico e concreto), “a graça reinará” (subjuntivo agorista, também se referindo a um momento específico; v. 21).
O texto tem como objetivo fundamental destacar a realidade da vitória em Cristo; o pecado já foi derrotado, perdeu sua capacidade de reinar.
No versículo 12, o texto é frequentemente interpretado como “já que todos pecaram”, “porque todos pecaram”, etc. O grego usa uma contração, “ef 'hô”, que pode ser traduzida de diferentes maneiras. A Igreja Católica Romana extraiu daí o tema do chamado “pecado original”, especialmente de Santo Agostinho, que lê Paulo dessa forma, sendo Paulo, por sua vez, uma releitura do Gênesis.
Esse contraste entre dois “um só homem” não é, contudo, um mero “positivo – negativo”, visto que o fato de Cristo supera absolutamente o fato de Adão, algo expresso na frase do versículo 20: “onde o pecado abundou, superabundou a graça”.
Toda a humanidade (“todos”) pecou, mas através da “fé em Cristo”, agora “todos” são justificados por Deus, todos têm vida, reino, e o pecado agora e definitivamente perdeu todo o seu poder sobre “todos”.
+ Evangelho segundo São Mateus 10,26-33
Resumo: Mateus diz à sua comunidade que eles sofrerão perseguição violenta, mas os convida a "não temer", pois o próprio Deus os acompanhará e eles serão capazes – com a ajuda dele – de pregar as Boas Novas de Deus a todos.
Nas cinco seções narrativas e discursivas dos capítulos 8 e 9, Mateus destaca o poder inerente do Reino, manifestado em uma série de milagres (narrativa). Em seguida, ele se dirige aos discípulos, convidando-os a pregar e praticar o mesmo (discurso). Contudo, o capítulo 10 começa de forma simples, deixando os discípulos na expectativa de aceitação ou rejeição. A partir do versículo 16, a situação e o conflito se intensificam (ovelhas versus lobos, traição, açoites, execução, perseguição, etc.). Tudo indica que ele está se referindo à situação atual na comunidade de Mateus, onde o conflito se agrava.
Nesta seção, o texto litúrgico é apresentado como um fragmento. Este fragmento possui duas partes bem definidas:
- O primeiro começa e termina com “não tenham medo deles” (10,26.31); também no v.28.
- O segundo apresenta um provérbio antitético conclusivo (10,32-33).
Obviamente, o medo que leva à falta refere-se ao conflito desencadeado na comunidade.
Uma breve nota sobre o conflito no Evangelho de Mateus: certamente parece importante distinguir — como nos outros Evangelhos — o que o texto afirma que Jesus disse aos seus ouvintes do que o evangelista diz aos seus. O conflito não parece fazer parte do que Jesus diz aos enviados para pregar; contudo, parece ser característico da época de Mateus. Na época do evangelista, quando uma certa unidade em torno do farisaísmo rabínico estava sendo reforçada em muitos círculos judaicos, todos aqueles que, se autodenominando judeus, não eram considerados como tal por eles (como os "nazarenos" = cristãos) eram rejeitados. É interessante notar o fragmento que, após a queda de Jerusalém no ano 70, foi adicionado à oração tradicional das 18 Bênçãos, ou Shemoneh Esrei:
Que não haja esperança para os apóstatas. E destrói rapidamente o reinado da tirania em nossos dias, e que os nazarenos e os hereges pereçam num instante. Que sejam apagados do livro da vida e não sejam inscritos com os justos. (12)
Esse é o contexto do conflito da comunidade de Mateus com os "fariseus", que os "espancarão nas sinagogas" (10,17).
O primeiro “não temais” (v. 26) alude expressamente ao fato de que Deus não abandona aqueles a quem chamou; aqueles que não devem ser temidos — aqueles que não foram marcados — certamente se referem aos perseguidores. O Servo de Deus, em Isaías, também ouviu “não temais”: 35,3-4; 41,9-10. O que estava oculto deve ser revelado, apresentado em um contraste quádruplo:
- Encoberto ----> manifesto
- Oculto ----> para saber
- Escuridão ----> Luz
- No ouvido ----> nos telhados
Essa “descoberta/conhecimento” na “luz/telhados” refere-se às boas novas de Jesus. Na próxima unidade — aqui prenunciada — Mateus contrastará o oculto e o revelado (assim como Marcos contrastou o interior e o exterior), veja 13,10-17. Os discípulos são aqueles que sabem algo que Jesus lhes revelou em certa privacidade, mas para que possam proclamá-lo em todos os lugares sem medo.
O segundo “não tenham medo” (v. 28) enfatiza a violência desenfreada: “vocês podem matar”, mas não podem tirar a “vida” (psique). “Geena” é um termo estranho. Aparece apenas 12 vezes na Bíblia, somente no Novo Testamento e, com exceção de Tiago 3,6, somente nos Evangelhos Sinópticos: 3 vezes em Marcos [na mesma passagem], uma vez em Lucas [um texto semelhante ao que estamos discutindo] e 7 vezes em Mateus! Parece ser um lugar, às vezes associado ao fogo, para onde alguém é lançado como punição. Algumas traduções usaram “inferno” aqui. Fora desses textos, o termo é encontrado apenas em um escrito apócrifo.
“As nações terão inveja de você, mas não prevalecerão contra você, diz o Senhor. Minhas mãos o protegerão, para que seus filhos não vejam o inferno.” (2 Esdras 2,29)
É muito provável que o termo se refira ao Vale de Hinom, onde crianças eram sacrificadas na antiguidade (Jeremias 7,31; 19,4-5; 32,35; veja 2 Reis 16,3; 21,6; 2 Crônicas 28,3; 33,6). O que é certo é que se trata de um lugar abominável. Quando, no período posterior ao Antigo Testamento, começaram a ser usadas imagens de terrível julgamento para os adversários de Deus, imagens do abismo, das águas ou do fogo serviram para ilustrar a punição. Assim, chegamos a "Geena", um espaço preexistente de fogo inextinguível. Contudo, não há menção aos "tormentos" da Geena, nem a Satanás em relação a ela. Essas serão reflexões posteriores que "enriquecerão" a metáfora.
O texto então apresenta a imagem de um pequeno pássaro. Nesse caso, dois pássaros podem ser vendidos por dois jumentos, enquanto em Lucas 12,6, cinco pássaros são vendidos por dois jumentos. Um "jumento" corresponde a um dezesseis avos de um denário (equivalente ao salário de um dia). Deixando de lado a inflação ou a possibilidade de preços diferentes dependendo do local, a ênfase está no baixo valor desses pequenos pássaros, e ainda assim Deus cuida deles.
O texto grego é incomum; diz literalmente que nenhum pardal cairá no chão “sem a permissão de teu pai” (áneu toû patròs hymôn). Isso aparentemente alude ao controle de Deus sobre os eventos, mesmo os menores. Já em 6,26 havia sido dito que “vocês” valem mais do que “os pássaros” (veja Salmo 84,4).
A imagem dos pássaros muda para a dos cabelos na cabeça, um motivo comum na literatura bíblica (1 Samuel 14,45; 2 Samuel 14,11; 1 Reis 1,52; Lucas 21,18; Atos 27,34), embora não seja dito que eles não cairão, mas sim que “estão contados”. A conclusão remete ao que é dito aqui no terceiro “não tenham medo” (v. 31).
O terceiro “não tenham medo” (v. 31) é expresso através do contraste de “quanto mais”, que já mencionamos. Precisamente por essa razão, o medo é algo que não tem razão de existir. Esse contraste entre algo menor e algo maior é frequente no contexto bíblico (é chamado de kal wa homer; do menor para o maior): “se… quanto mais!”
Matthew conclui, como já mencionado, com um ditado antitético:
- Quem me confessar diante dos homens... eu também o confessarei diante do meu Pai que está nos céus (v.32)
- Quem me negar diante dos homens... eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus (v.33)
Esta não é a primeira vez que Jesus traça um paralelo em Mateus entre o que acontece “diante dos homens” e o que acontecerá “diante de Deus”; o exemplo do perdão é claro (6,12; 16,19; 18,18, 35; veja 5,16). A preferência de Mateus por se referir a Deus como o Pai “no céu” já foi observada frequentemente.
Contudo, nesta conclusão, a imagem não parece definitiva: a “negação” de Pedro (a única outra vez que Mateus usa o verbo “negar”; 26,70, 72) deixa isso claro. Nesse caso, então, a confissão ou negação não parece aludir à imagem do juízo final que se evidencia na ideia da Geena e nas três declarações de “não tenhais medo” (especialmente as duas últimas). A confissão ou negação refere-se à fidelidade da comunidade diante das dificuldades que os “homens” possam causar e ao convite para encarar, sob a perspectiva do Deus do Reino, a vida de discipulado para a qual fomos chamados.
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