Capitalismo antropofágico. Artigo de Alexandre Francisco

Portuguese: O desembarque dos portuguezes no Brazil ao ser descoberto por Pedro Alvares Cabral em 1500 | Fonte: Roque Gameiro (1864–1935)/National Library of Portugal

07 Julho 2026

"Aquele que, devora o inimigo mostra-se de fato mais 'forte', 'potente' e 'corajoso'. Indubitavelmente, como um ato de potência, há o reconhecimento da força em oposição."

O artigo é de Alexandre Francisco, advogado, mestre em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

Ao nos convidarmos a pensarmos os fenômenos humanos desprovidos do filtro moral de julgamento da realidade estaremos dando um passo importante para lidarmos de forma prática com os problemas que nos cercam. Em Nietzsche o conceito de potência está sempre presente. Nesse sentido, as categoria de "força" e "fraqueza", "covardia" e "coragem", de "potência" e "impotência", se fazem muito mais precisos do que as categorias morais de bem e mal para o julgamento da realidade. 

A prática antropofágica brasileira, amplamente documentada por viajantes como Hans Staden, chocou os colonizadores europeus, que a viam como ato de selvageria. No século XX, o conceito foi ressignificado pelo Movimento Antropofágico (como no Manifesto Antropófago), transformando o "devorar" o outro em um símbolo de deglutição e assimilação da cultura estrangeira para criar uma identidade genuinamente brasileira. Ou seja, aquele que devora o inimigo mostra-se de fato mais "forte", "potente" e "corajoso". Indubitavelmente, como um ato de potência, há o reconhecimento da força em oposição.

Gravura retratando as práticas de canibalismo no Brasil. Obras com esse tema ilustram o livro de De Bry, impresso na Alemanha em 1593 | Foto: Wikimedia Commons

Proponho portanto pensar o capitalismo nesse sentido como um fenômeno antropofágico. Imaginemos, portanto, que ele devora tudo aquilo aquilo que está em oposição à sua lógica de funcionamento, transmutando o significado da coisa em si. Em um exemplo prático, é o efeito que transmuta a luta revolucionária em mercadoria de consumo, um lifestyle. Por exemplo, a venda de camisetas estampadas com o rosto de figuras políticas importantes como Marx e Che Guevara; há ai um "enfraquecimento" simbólico a partir do rebaixamento de figuras políticas líderes de movimento sociais que visam a superação revolucionária do sistema posto. 

Nesse mesmo sentido, ao observarmos a história humana o capitalismo ao longo dos séculos ganha uma espécie de fome voraz a cada nova época, atingindo o seu grau máximo com a virada do milênio, junto a universalização do acesso à internet, a invenção dos smartphones, o advento das redes sociais e a disseminação do uso doméstico da inteligência artificial. Não é difícil concluir que o avanço da técnica capitalista visa na prática dois grandes movimentos: o esvaziamento do espaço público e do protagonismo político do ser humano, gerando uma zona política estéril, para que em um momento posterior o grande monopólio tecnológico possa inutilizar o efeito prático da luta política, principalmente o movimento das ruas.

Olhe ao redor, hoje em dia é muito difícil vermos grandes mobilizações sociais em prol de reinvindicações de direitos, o Twitter, por exemplo, cumpre esse papel confortavelmente, ninguém precisa expor seu corpo à violência de grupos políticos opostos. Ao mencionar essa ausência de presença física do espaço público, me pergunto se seria possível imaginar o capitalismo também como fenômeno físico? Assim como Thomas Hobbes manifestou sua teoria do estado absolutista como um leviatã, imagino o capitalismo como uma grande fumaça tóxica, que vem a devorar todo que está em seu caminho. Diferentemente de uma estrutura física ou representação política fixa na figura de um rei, vivemos hoje a pulverização da toxicidade neoliberal.

Não por acaso, as empresas de tecnologia atingiram o máximo grau antropofágico de sofisticação: ao devorar a capacidade intelectual humana, consequentemente inoperalizando qualquer possibilidade de surgimento de pensamento crítico das novas gerações que já nascem imersas e dependentes da IA, estamos gerando uma leva de humanos que agem sem capacidade reflexiva independente. A inteligência artificial está transformando a forma como o cérebro processa informações, há um esvaziamento da capacidade de raciocínio biológico, substituído pela cognição artificializada. As funções cognitivas tornam-se também um capital de luxo. Ter possibilidade de pensamento independente exige esforço, tempo, distanciamento consciente, recursos cada vez mais raros em nossa sociedade.

É essa intoxicação da busca pelo lucro a qualquer custo que devora o tempo de vida de trabalhadores e trabalhadores, devora a sua força e vitalidade de vida, devora ainda a ideia de fraternidade e amor. Não há nenhum outro fenômeno social que destrua mais as relações humanas. Aliás, como erroneamente pensa a extrema direita, não há nenhum outro sistema capaz de destruir mais a chamada "família tradicional" do que o sistema capitalista, pelo simples fato de que a maior parte da sociedade não consegue atingir um determinado grau de estabilidade econômica diante da desigualdade cada vez mais profunda da sociedade moderna, impossibilitando por exemplo, os sonhos da classe média de gerar filhos, comprar um imóvel, etc. O abismo entre os ricos e os pobres é cada vez mais vulgar. Essa vulgaridade se explicita de forma nua diante do efeito doentio das bets no Brasil. A destruição de lares e famílias, levando indivíduos a prática do suicídio por não conseguirem sair do buraco que cavaram com o acúmulo de dívidas em apostas. Mais do que efeito limitado à experiência individual, a prática do gambling tem a capacidade de devorar uma sociedade inteira.

O caminho está aberto, o terreno foi limpo pelas big techs, agora o neoliberalismo pode devorar nossa capacidade de pensar. Não há freios. Nos tornamos vítimas de nossa própria técnica, meros instrumentos consumíveis e de consumo para a sociedade de mercado. Ainda somos humanos? Ainda pensamos de forma independente da lógica algorítimica? Me parece que a única possibilidade de emancipação está na capacidade de rebelar-se contra o pensamento mecânico derivado. O espírito crítico ainda habita o coração humano. Abra um livro. Devore o inimigo. 

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