O Natal que se anuncia. Músicas de Natal

(Foto: Reprodução)

20 Dezembro 2022

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz… Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

(Natal Africano, poema de João Cabral do Nascimento 1897-1978)

Tal qual em Natal Africano, de Cabral do Nascimento, aqui, onde vivemos, não é a neve que anuncia o Natal. Tampouco as luzes, que não chegam para todos. Por aqui, onde o Natal é sempre quente e abafado, o espírito natalino nos atinge de formas distintas, podendo ser, uma delas, a música.

O comentário é de Stephany Chagas Oreli, estudante de Jornalismo e membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos IHU.

Com o objetivo de listar músicas que transmitem o Espírito de Natal, perguntei aos colegas do IHU sobre quais canções os faziam sentir o Natal, dando significado a essa data que muito injustamente se mistura ao consumismo capitalista. A seleção a seguir não engloba todas as contribuições dadas, não por falta de qualidade das não selecionadas, mas por opção minha em dar ênfase ao caráter social do Natal. E, antes de tudo, quero agradecer especialmente aos colegas que, carinhosamente, me responderam e deram subsídio para que esse texto existisse.

Eis a seleção. 

O Natal que se anuncia

Começando a sequência musical, trago a bela Anunciação, de Alceu Valença. Sendo a inspiração do título deste texto, esta canção traz significado quando esperançosamente clama por aquilo de bom que há de vir. Pelo alegre, pelo belo, pelo amoroso. Ainda que não natalina e tampouco religiosa, Anunciação embala o Natal Iluminado das famílias que moram nas Ocupações, acompanhadas pela colega Marilene Maia, e que ano a ano lutam por luz, água, alimento e, principalmente, direito à moradia. O Natal é, portanto, a esperança de dias melhores.

 

 

Todo mundo deveria ser filho de Papai Noel

Tradicional entre as músicas natalinas, Boas Festas, de Assis Valente, lembra uma das maiores durezas da realidade humana: a desigualdade. Enquanto o Natal significa presentes, brinquedos e fartura para alguns, para outros é mais um dia em que a injustiça arde na pele pela negação do direito à vida feliz e digna. Conscientes da sociedade em que vivemos, devemos nos esforçar para desvincular o Natal da lógica do mercado, dos presentes caros e dos shoppings lotados. O Natal deve significar esperança, principalmente para aqueles que necessitam de dias melhores. Para quem tem o privilégio de não viver a miséria, o Natal deve significar luta. Luta social, política e democrática, porque a desigualdade social é uma escolha política. Portanto, devemos nos certificar de que os menosprezados não continuem esquecidos. De que as políticas públicas aconteçam. E de que nenhuma criança mais pense que o Papai Noel não existe.

 

 

Apesar de você, um novo governo há de iniciar

 

Após quatro anos de (des) governo Bolsonaro, a vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva traz um alento para quem assistiu com agonia o desmanche da educação brasileira, a abandono do SUS, o genocídio do negacionismo, o alavancar de uma extrema-direita antidemocrática, o avanço da fome, a entoação de um racismo escancarado, a vangloriação de uma homofobia criminosa, entre tantas outras manifestações desumanas que ganharam voz durante nesse período. Cantamos Apesar de Você com a esperança de assistir a reconstrução do país, que não será em quatro anos, mas que deve iniciar nos próximos quatro anos. O Natal é a representação da paz pela luta que ainda não cessou, mas que, por hora, foi vencida. 

O amor que destrói o ódio

"Porque eu descobri o segredo que me faz humano
Já não está mais perdido o elo
O amor é o segredo de tudo
E eu pinto tudo em amarelo"

(Principia, canção de Emicida, 2019)

 

Parte do álbum AmarElo, que virou filme pela Netflix, do rapper Emicida, Principia começa com uma confissão do cantor, que diz:

"A primeira vez que eu fui na África, meu amigo Chapa me levou num museu que tem em Angola, que eles chamam de Museu da Escravidão. E naquele lugar tinha uma pia, que tinha escrito um texto na parede que era, mais ou menos, assim:

Foi nessa pia que os negros foram batizados. E através de uma ideia distorcida do Cristianismo, foram levados a acreditar que não tinham alma.

Eu olhei pro meu parceiro e naquele dia eu entendi qual era a minha missão: a minha missão, cada vez que eu pegar uma caneta ou um microfone, é devolver a alma de cada um dos meus irmãos e das minhas irmãs que um dia sentiu que não tem uma."

Leandro Roque de Oliveira, conhecido como Emicida, é rapper, cantor, compositor e apresentador brasileiro. Versando sobre pobreza, fome, favela, dor e vida, Emicida compõe o Rap Brasileiro, que há tempo ocupou um espaço político no espectro musical do Brasil, lutando pela emancipação da população negra e pelo fim da desigualdade brasileira. Como exemplo de fraternidade e união, Principia canta por amor àqueles que desde o princípio desse país são explorados e excluídos por uma minoria branca. A Escravidão encerrou em 1888 no Brasil, mas o negro não ganhou alforria. Está escravizado na exclusão social, na violência policial, no racismo do branco, na falta de acesso à educação, de acesso à saúde, de moradia. Na data que representa o Nascimento de Jesus, o menino dado por Deus ao mundo para ensinar a amar ao próximo, devemos lembrar que para haver reparação histórica no Brasil "não basta não ser racista. É preciso ser antirracista", conforme apresentado por Angela Davis. Que o espírito natalino signifique, então, na alma de cada um de nós, esperança contra o fim do racismo.

 

Não há nós sem o Outro

 

"Senhor,
Fazei de mim um instrumento de vossa Paz.
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!

Ó Mestre,
fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna!

Amém"

(Oração de São Francisco de Assis)

Embora o Natal não precise estar vinculado ao cristianismo, tal qual ele é para mim, a Oração de São Francisco versa sobre o amor como bondade genuína. Sobre dar a si apenas pelo bem do outro, de maneira desprendida. Para compreendermos a importância de se viver o amor como bondade genuína, não precisamos viver o cristianismo como religião, mas compreender que:

"Não há como viver tendo a gente como fim em nós mesmos, somos pontes de uma estrada muito maior, raízes de uma árvore cósmica, mediadores e mediados por diferentes vidas, canais de energia e ação. Somos constituídos por muitas coisas e pessoas. Não estamos sozinhos e tudo o que fazemos impacta muitas coisas e situações. Somos, em suma, interconexão."

Guilherme Tenher, graduado em Ciências Econômicas na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), mestrando no Programa de Pós-Graduação em Geografia (POSGEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Instituto Humanitas Unisinos (IHU).

No dia a dia, somos atravessados por violências e injustiças que podem, e merecem, receber uma intervenção que atue na contracorrente das suas existências. Como cidadãos, podemos ser atores na mudança de realidades e vidas, na ressignificação de existências. Que o Natal acenda a vela da empatia e nos permita superar o vírus da indiferença, que nos afasta como seres humanos e nos cega para os males que fazemos uns contra os outros, contra os animais, contra a terra, contra o mar e contra o céu. Que tenhamos a coragem de sermos exceção para que possamos caminhar para longe da autoextinção que atualmente nos ameaça. 

O Ano Novo que se aproxima

"Marcas do que se foi
Sonhos que vamos ter
Como todo dia nasce
Novo em cada amanhecer"

(Marcas do que se foi, de Os Incríveis)

Sem esquecer do espírito nostálgico que o Natal traz, Marcas do que se foi nos convida a pensar nos dias que vivemos nesse ano que está perto de findar. Olhando para o passado, projetamos o futuro. A esperança natalina nos dá força para continuar a corrida tortuosa que caracteriza a vida, que muito nos exige e continuará exigindo, se assim o universo permitir, enquanto não nos tornamos suspiro na história da humanidade.

Que a vida continue!

 

Com carinho,

Feliz Natal!

 

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