Prepotentes com as vítimas e condescendentes com os prepotentes? A frágil resposta do cardeal Müller a Marie Collins. Artigo de Andrea Grillo

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Março 2017

“Uma Igreja que queira aprender a considerar o ponto de vista das vítimas precisa urgentemente não só de outros procedimentos, mas também de outro estilo para responder às perguntas.”

A opinião é do teólogo leigo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Sant'Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 06-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Como se observou com justiça, agora, da Comissão vaticana que se ocupa dos abusos de menores, demitiram-se ambos os membros que tinham uma característica marcante [Peter Saunders, em 2016, e Marie Collins, há poucos dias]: ambos tinham sido vítimas daquilo que a Comissão quer combater. Eu nunca deduziria disso que não se quer ouvir as vítimas. Não. O problema é, sim, que a linguagem curial não consegue ouvi-las e não é capaz de compreendê-las.

Uma prova bastante considerável dessa dificuldade nos é oferecida por uma resposta que o prefeito cardeal Müller deu nesse domingo ao jornal Corriere della Sera, às perguntas de Gian Guido Vecchi. Eis o texto:

Collins citou dois episódios: uma “mudança de procedimento” no cuidado das vítimas e um “pedido de colaboração”, ambos “rejeitados” pelo ex-Santo Ofício. O senhor está a par disso?

Não sei desses supostos episódios. A Comissão apenas transmitiu um pedido formal, pedindo-nos para escrever cartas às vítimas para mostrar a proximidade da Igreja ao seu sofrimento. Mas esse ato de cuidado pastoral é uma tarefa dos bispos nas suas Igrejas particulares e dos superiores-gerais dos institutos religiosos, que estão mais próximos. Se há uma decisão do papa ou a entrega de uma tarefa específica, não há resistências. A Congregação tem a tarefa de fazer um processo canônico. É bom que o contato pessoal com as vítimas seja feito pelos pastores do lugar. E, quando chega uma carta, sempre pedimos ao bispo que seja ele que tenha o cuidado pastoral da vítima, esclarecendo-lhe que a Congregação fará todo o possível para fazer justiça. É um mal-entendido que este dicastério, em Roma, possa se ocupar de todas as dioceses e ordens religiosas do mundo. Não se respeitaria o princípio legítimo da autonomia das dioceses e da sua subsidiariedade.

O que aparece com muito clareza é que, dessas palavras, emerge uma espécie de “surdez” às razões das vítimas, que não estão interessadas simplesmente na “instrução correta de um fascículo”, mas, acima de tudo, na consideração e no reconhecimento da sua condição de vítimas. Em particular, parece-me possível observar estas três coisas importantes:

a) a demanda de “comunicação direta” entre Congregação e vítimas não é principalmente a demanda de “violação de uma competência local”, mas sim a possibilidade de instituir um contato adequado para comunicar a violência, com um sujeito “terceiro”. Não são necessárias muitas explicações para entender que, se em uma diocese, ocorrem casos delicados como esses, deixar à própria diocese toda competência de relação com a vítima torna muito difícil a posição da própria vítima, acima de tudo. A “margem romana” não é aqui “violação de autonomia das dioceses”, mas sim possibilidade para que a vítima comunique com maior serenidade a violação do corpo. É preciso assumir uma ótica não apenas institucional, mas também pessoal, que, nas palavras do prefeito, infelizmente, estão ausentes.

b) parece-me igualmente frágil a objeção geral, sobre o fato de que a Congregação para a Doutrina da Fé não pode se ocupar de todas as dioceses. Basta pensar no exemplo da liturgia. Em caso de questões que digam respeito ao “uso do rito antigo”, a Congregação, através da Comissão “Ecclesia Dei”, passa por cima de todas as competências episcopais. Como é possível que essa seja considerada uma problemática “mais urgente” do que os casos de violência contra menores? Por que se deveria dar uma resposta direta central à demanda de um advogado de Boston que deseja a missa em vetus ordo ao lado de casa e negá-la, ao contrário, à menina de Brasília que um ministro ordenado abusou?

c) Enfim, mas seria preciso dizer “acima de tudo”, a resposta põe em dúvida a própria existência das dificuldades que levaram Marie Collins à renúncia. De fato, o prefeito, em primeiro lugar, diz: “Não sei desses supostos episódios”. O corpo violado de uma vítima, acima de tudo, deveria ser considerado confiável. A suspeita sobre as palavras de Collins corre o risco de valorizar uma ideia – simplista e distorcida – acerca de uma indiferença mais abrangente da Igreja em relação às vítimas. As palavras do cardeal Müller, que têm a justa intenção de excluir um clichê, são formuladas de tal forma e com tais prioridades que correm o risco apenas de confirmar aquilo que gostariam de excluir. Uma Igreja que queira aprender a considerar o ponto de vista das vítimas precisa urgentemente não só de outros procedimentos, mas também de outro estilo para responder às perguntas. E todos, precisamente todos, estamos empenhados a aprender esse estilo respeitoso e não burocrático, repleto de humanidade e de compaixão.

Leia mais: