'The Young Pope' Episódios 5 e 6: Tiaras & Autoridade Temporal

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19 Fevereiro 2017

Reproduzimos a seguir os comentários de Matthew Sitman, editor associado da Commonweal, e de Dominic Preziosi, editor digital, sobre a minissérie The Young Pope, da HBO, acerca dos episódios 5 e 6, publicados por Commonweal, 03-02-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

É possível ler a primeira discussão, dos episódios 1 a 4, aqui.

Eis os comentários.

Bem-vindo, Dominic!

Perdoe a expressão, mas, pelo amor de Deus, o que é isso? O episódio 5 foi brilhante, provavelmente o melhor da temporada até agora. O episódio 6, por outro lado, foi incrivelmente estranho. Está difícil entender para onde esta série está indo, embora eu continue achando profundamente envolvente, feita para assistir compulsivamente. A parte ruim de mergulhar na realidade excêntrica e praticamente alternativa de The Young Pope é que depois que se entra no mundo bizarro da série, todas as suas expectativas do que pode acontecer - qual seria uma reação lógica ou realista para este ou aquele cenário - tornam-se instáveis. Tendo isto combinado com personagens que não parecem plenamente realizados, ou que guardam segredos profundos, eu sinceramente não faço ideia do resultado dessas confusões.

No episódio 5, Voiello tenta chantagear Pio, fotografando o papa com a mão sob a camisa de Esther, que não pôde gerar um filho com seu marido suíço. Ele fotografa, mas acaba desistindo devido à ideia do papa de que a covardia e o medo podem estar por trás do celibato de um padre.

Sacerdotes têm medo do amor, dos seus riscos e vulnerabilidades, diz Pio. Quando Voiello fica sabendo - seu assistente, que faz leitura labial, conta a ele enquanto eles tiram fotos escondidos, com uma lente de longo alcance -, ele se convence e acaba dando os negativos a Irmã Mary. Será que o velho e cauteloso cardeal foi desarmado?

The Young Pope tem um tom peculiar, que por vezes soa como um sonho, ganha um grande efeito aqui: é essencial particularmente para as interações de Esther com Pio. Quando ela coloca a mão do papa em sua barriga - e a direciona para cima aos poucos enquanto desabotoa a blusa! -, ela reza uma Ave-Maria. Sabemos, também, o quanto Pio orou por ela - ou algo assim - quando a viu pela janela fazendo sexo com seu marido, ao sair para um passeio em um episódio anterior. Descobrimos, em um flashback, que Irmã Mary acredita que Pio - na época, Lenny - operou um milagre e ela parece sinceramente acreditar que ele é um santo. No final do episódio, em uma cena que parece quase mágica e um pouco irreal, Esther e Pio estão em um jardim e ela tenta se desculpar por tentar capturá-lo, mas ele a perdoa e, em seguida, em um momento de revelação, uma flor floresce, com um feixe de luz brilhando sobre ela. Claramente, ela está grávida.

O Episódio 5 também apresenta flashbacks importantes, expandindo o relacionamento entre Pio e Andrew, seu companheiro órfão que administra a Congregação para o Clero. Eles vagam ao redor de Roma durante a noite em roupas de treino - a de Pio é branca, lógico - para comprar cigarros. Eles brevemente compartilham uma mesa com uma dama da noite, que se encanta pelos olhos azuis do papa.

Ainda mais importante, finalmente o Papa Pio conversa com os cardeais. A cena em que o papa se angustia com quais vestes usar para isso, ao som da trilha sonora de Sexy and I Know It, do LMFAO, é excelente e perfeitamente absurda. Quanto mais extravagante a roupa, melhor. Pio, ao que parece, é uma espécie de Cardeal Burke mais sexy e mais jovem, também com um cuidado exacerbado para ficar belo para Deus.

A regalia do papa não é a única coisa que Cardeal Burke iria gostar. Pio aparece no meio dos cardeais em uma liteira e é colocado em um trono, com uma tiara papal, devolvida a Roma por um museu em Washington, D. C. Como a série trata até mesmo a história recente como real, isto certamente é para sinalizar a ambição e a autoimagem de Pio. A tiara remete mais a realeza e a exaltação e remonta à Igreja pré-Vaticano - e o tempo em que os papas tinham poder temporal (fica a dica). Quando ele fala, profere um discurso inflamado contra os conflitos e a favor do fanatismo. Chega de tolerância, chega de moderação!

Minha sensação é que os roteiristas e o diretor estão brincando um pouco conosco. No episódio 5, quase se acredita que a visão reacionária de Pio em relação à Igreja poderia ter sucesso. Uma aura sobrenatural paira sobre grande parte do episódio. Parece que descobrimos que o papa pode operar milagres. Ele ora a Deus e Deus o escuta. Os cardeais, depois de ouvir seu discurso, beijam seus pés. Voiello, que parece ter os meios necessários para impedi-lo, parece confuso, mesmo condescendente.

No episódio 6, que eu espero que você discuta mais, Dominic, a situação murcha um pouco. Mas eu acho que esse jogo de vai-não-vai, a sensação de que Pio pode ser um homem de Deus e depois de se questionar se ele realmente acredita em Deus (ou até é um pouco louco), capta algo essencial sobre a série e o que ela tenta explorar. The Young Pope engloba uma série de temas, e um deles é o destino de uma instituição como a Igreja Católica Romana no mundo moderno e o que pode sustentar a fé religiosa nestes tempos infames de capitalismo tardio. As vestes elaboradas do papa, propensas ao mistério e à inacessibilidade e dirigidas a uma fé firme e inabalável, são um caminho. É até possível ver os seus eventuais encantos.

Mas também é possível ver o quão tolo tudo isso pode ser e sentir o quanto é complicado. A fé não aparece, nem salvam-se instituições, por força ou vontade. As armadilhas de um mundo mais antigo podem retornar, mas a cultura que considerava-as convincentes não existe mais. Isso pode parecer clichê, mas soa como algo novo quando explorado através da rica textura dos episódios de The Young Pope. Pode-se entender de uma nova maneira, porque fica escancarado por que certos tipos de tradicionalismo são becos sem saída.

E falando em becos sem saída: Dominic, gostaria de saber de você sobre o episódio 6. Pio chegou ao seu beco sem saída?

– Matt

Obrigado, Matt. Permita-me começar minhas observações sobre o episódio 6 com uma breve história. O primeiro presente de Natal "real" que eu comprei para os meus pais foi um livro comemorativo à visita de João Paulo II aos Estados Unidos de alguns meses antes, em outubro de 1979. Custou-me US$ 12, valor bastante considerável na época. A reação deles na manhã de Natal foi de uma generosidade própria de pais, e o livro rapidamente encontrou o seu lugar na mesa de centro da sala de estar, onde permaneceu em repouso decorativo pelos próximos anos.

Esse livro me veio à mente enquanto eu estava assistindo o mais recente capítulo de The Young Pope. Eu poderia ter gasto US$ 12 em meias e uma vela perfumada (ou outro álbum do Billy Joel para mim), se naquela época eu tivesse imaginado um pontífice, real ou fictício, comentando sobre sua própria "boca macia e redonda". Porque é isso o que Pio XIII faz em um certo momento, na presença de nada mais nada menos que o primeiro-ministro italiano. Ele fala como se isso fosse apenas uma das coisas que inspirariam os cidadãos italianos - ainda 81 por cento "católicos"! - a abandonar a política secular e segui-lo, enquanto os Pactos Lateranenses se desmancham e o poder temporal retorna ao Vaticano. (Pactos Lateranenses: cite um programa que já tenha enfatizado-os a espectadores desavisados.) Os impulsos conservadores do jovem papa dos EUA são fortes, como sabemos, mas será que são fortes o suficiente para superar a pluralidade eleitoral de 41 por cento do primeiro-ministro, igualmente jovem e confiante? Não haverá uma resposta até o dia da votação. Mas quando Lenny joga a bomba do non expedit, o primeiro-ministro parece acordar para a fragilidade por natureza de uma pluralidade italiana, mesmo que não entenda perfeitamente o Latim do papa. Pelo menos Pio reconhece que as pessoas pesquisarão isto no Google.

Neste episódio, Pio também derruba um bebê.

A cena tem duas funções. Em primeiro lugar, estabelece que nove meses se passaram desde que a flor de Esther floresceu no episódio 5. É com o seu filho que as mãos geralmente firmes de Lenny cambaleiam. Felizmente, o garoto - chamado Pio, é claro! - cai em um berço, em segurança. Em segundo lugar, a cena reafirma o quanto The Young Pope revela em termos de comédia visual, a começar pela abertura com os créditos e, talvez, com um pico na cena das preparações elaboradas das vestes de Pio no episódio 5. Matt, você também menciona a cena da chantagem nesse episódio: a imagem de Voiello agachado atrás de um fotógrafo com uma longa lente de paparazzi e um cardeal fazendo a leitura labial com uma luneta antiga é simplesmente ótima. Além disso, há a situação dos pobres mendigos descalços que vão ao ornamentado salão de Lenny murmurando sua ameaça de cisma. E Voiello olhando uma coleção de livros sobre ele, em que a capa de um deles tem o secretário de Estado do Vaticano, apaixonado por futebol, com o uniforme do clube de sua cidade natal. E Tonino, o pastor estigmatizado e miserável, sendo entrevistado por um apresentador italiano almofadinha. E a estampa - já mostrada duas vezes - do pijama de Irmã Maria: "Eu sou virgem, mas esta camiseta é velha". Alguns desses momentos mostram também o talentoso tratamento cinematográfico do diretor Paolo Sorrentino: como na cena final do episódio 5, com Pio e sua turma da Cúria - de traje completo, perfilados como se estivessem em um tribunal - no apartamento escuro do pobre Tonino. Esta imagem também vem com uma fala ótima, uma ameaça digna de uma família criminosa de Nova Jersey: "Tonino", diz Lenny, "você torrou a nossa paciência". No final do episódio 6, descobre-se que Tonino - Quem? Tonino? Quem é? - está desaparecido.

E, no entanto, Matt, nada disso enfraquece o que você sabiamente observou sobre o jeito insistente como a série provoca uma reflexão mais profunda sobre a natureza da autoridade, o papel e o poder das instituições, bem como o lugar da fé atualmente. Apesar de eu não gostar de pensar que tudo agora deve ser analisado pela lente da presidência de Trump, é como você sugeriu na semana passada: como não pensar nisso ao assistir a The Young Pope, principalmente considerando o quão assustadoramente a série traça os acontecimentos dos últimos meses? O decreto geral e espontâneo de Pio proibindo homossexuais de entrar no seminário - e por qual avaliação deveria ser aplicado, de acordo com que critérios, com as informações e conselhos de quem? - tem consequências cruéis e imediatas no episódio 6. Não que ele se importe; sua posição é "não os queremos aqui". Se essas mensagens chegaram aos fiéis pelo mundo não se sabe: seu papado está sendo gerado por esses nove meses, ainda sem grande alcance de público. Fora dos muros do Vaticano, o rosto de Pio permanece desconhecido. Agora tenho a sensação de que, mesmo se ele se deparar com um beco sem saída, vai continuar insistindo que esse é o caminho, ainda que as evidências apontem o contrário. E por quê? Milagres, como você observou, aconteceram. E além disso - e talvez você já sabia disso, Matt, mas só ouvi falar em caráter oficial recentemente -, a segunda temporada The Young Pope foi confirmada, também com dez episódios. Quer dizer que nós vamos ter que fazer isso novamente no próximo ano? Em todo o caso, até semana que vem, com os episódios 7 e 8....

Assista ao trailer:

Nota da IHU On-Line: A série pode ser vista clicando aqui.

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