O papa estaria disposto a suprimir seu "vigário"?

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08 Fevereiro 2017

O Papa Francisco parece disposto – a fim de tornar cada vez mais evidente que a raiz da sua autoridade é ser “bispo de Roma” – a abolir o cargo de vigário da Urbe, o cardeal que, na prática, é bispo da cidade de Roma. Isto é, ele gostaria de governar em primeira pessoa a sua diocese, embora assistido por um colégio de bispos, em que ele “supervisiona” todas as Igrejas.

A reportagem é de Luigi Sandri, publicada no jornal Trentino, 06-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na noite do dia 13 de março de 2013, o recém-eleito, à multidão que aguardava a sua primeira saudação, tinha se apresentado assim: “Vocês sabem que o dever do conclave era de dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase no fim do mundo... Mas estamos aqui... E agora comecemos este caminho: bispo e povo. Este caminho da Igreja de Roma, que é a que preside na caridade todas as Igrejas”.

A insistência de Francisco no fato de ter se tornado “bispo de Roma” representava uma novidade, porque, nos últimos séculos, todos os eleitos tinham se apresentado como “papas”. O seu anúncio, portanto, era cheio de significado histórico, teológico e ecumênico: de fato, todas as Igrejas cristãs reconhecem ao papa essa qualificação original, embora não a outra – “sumo pontífice da Igreja universal” –, mesmo que decisiva, para os católicos.

Foi como bispo da “primeira Roma” (a “segunda” se tornaria Constantinopla) que o bispo da cidade teve um papel que foi crescendo exponencialmente; e, tendo-se tornado “papas”, os seus titulares regeram pessoalmente a diocese. No segundo milênio, porém, eles – muitas vezes fora da sede – quiseram ser ajudados cada vez mais por um prelado que, no fim, por decisão de Paulo IV, em 1558, tornou-se formalmente o cardeal vigário.

Três séculos e meio depois, em 1912, Pio X reformou o Vicariato de Roma, dando-lhe um aspecto mais pastoral. Outras mudanças seriam feitas, depois, pelo Concílio Vaticano II e pelos vários pontífices; no essencial, no entanto, a estruturação teórica da figura do “cardeal vigário” permaneceria idêntica, embora os bispos de Roma reuniriam uma vez por ano o seu clero e começariam a visitar as paróquias.

E agora? O atual “vigário”, o cardeal Agostino Vallini, em abril, completa 77 anos, e certamente o papa vai aceitar a sua renúncia. E depois? Francisco – presume-se – estaria pensando em abolir esse cargo. Ele certamente terá um colégio de seis a sete bispos que o ajudarão no governo da Urbe, porque – hoje em dia – seria impossível para o papa dirigir a Igreja universal e, ao mesmo tempo, ocupar-se em tempo integral da sua diocese; mas não haverá um “vigário”.

E tal cancelamento seria um forte sinal de descontinuidade com o passado e tornaria mais evidente, também aos cristãos não católicos, que a Igreja de Roma é a que preside na caridade todas as Igrejas. Sinal reforçado se, ao menos um dia por semana, o bispo de Roma morasse no Palácio de Latrão, para se ocupar da sua diocese na atual sede do vicariato onde, por mais de um milênio, os papas viveram.

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