A reflexão é de Luísa de Luca, snd. Religiosa da Congregação de Notre Dame - ND, ela possui graduação em Pedagogia na UNIP – Brasília, Mestrado ( 2021) e doutorado (2026) em Teologia pela Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul - PUCRS, onde atualmente é doutoranda em Teologia. É professora de teologia na Faculdade de Teologia e Ciências Humanas – Itepa Faculdades, em Passo Fundo/RS.
1ª leitura: At 6,1-7
Salmo: Sl 32(33),1-2.4-5.18-19 (R. 22)
2ª leitura: 1Pd 2,4-9
Evangelho: Jo 14,1-12
Estamos no quinto domingo da Páscoa. Continuamos a caminhar à luz do Cristo Ressuscitado, que venceu a morte e permanece vivo no meio de nós. A Palavra de Deus deste domingo nos situa nesse momento de transição e confiança: Jesus prepara os seus para a sua partida, mas ao mesmo tempo os fortalece com a promessa de que não os abandonará. Também nós, em meio às incertezas e perguntas da vida, somos convidados a confiar naquele que é o caminho, a verdade e a vida, e a renovar nossa esperança na comunhão com o Pai.
Uma história simples pode nos ajudar a entrar no coração deste Evangelho. Conta-se que uma criança, ao perder a mãe, perguntava todos os dias: “Onde ela está agora?” O pai, com delicadeza, não tentou explicar o mistério com teorias, mas dizia: “Ela está na casa de Deus, e o amor que ela viveu conosco continua aqui.” Aos poucos, a criança compreendeu que a ausência não era um fim, mas uma transformação da presença. Essa experiência humana ilumina o discurso de despedida de Jesus em João 14, 1-12. Ele fala a discípulos angustiados diante da sua partida iminente, preparando-os para a sua morte, não como derrota, mas como retorno à “casa do Pai”.
O Evangelho de João é escrito no final do século I, para uma comunidade que já experimentava a ausência física de Jesus e também perseguições e incertezas. Por isso, as palavras “não se perturbe o vosso coração” não são uma frase devocional qualquer, mas um consolo concreto. Quando Jesus diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”, Ele utiliza uma imagem profundamente enraizada na cultura judaica: a casa patriarcal, onde havia espaço para todos os membros da família. Não se trata de um lugar físico no sentido material, mas de comunhão plena com Deus. O “céu”, portanto, não é um espaço geográfico, mas a participação na vida do próprio Deus.
Essa compreensão ajuda também a responder perguntas muito humanas, frequentemente evocadas em velórios: Jesus virá nos buscar? Como será o céu? Existe o inferno? O Evangelho não descreve detalhes geográficos do além, mas afirma algo essencial: o destino final do ser humano é relacional. Estar com Deus ou fechar-se a Ele. A promessa de Jesus — “voltarei e vos levarei comigo” — não deve ser entendida como um deslocamento físico, mas como a certeza de que a comunhão iniciada aqui não será interrompida. Assim como os vínculos de amor não morrem quando alguém parte, mas se transformam, também a relação com Cristo permanece e se plenifica.
No centro do texto está uma das afirmações mais densas de todo o Novo Testamento: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” No contexto bíblico, como recorda Johan Konings, “caminho” não é apenas direção, mas modo de viver. A Torá já era chamada de caminho, pois orientava a vida do povo. Ao dizer “Eu sou o caminho”, Jesus não oferece apenas ensinamentos; Ele próprio se torna a norma viva. Não basta conhecê-lo intelectualmente — é preciso segui-lo concretamente, assumir seus gestos, suas escolhas, seu amor preferencial pelos pequenos e sua fidelidade ao Pai.
Jesus é também “a verdade”, não no sentido abstrato, mas como revelação fiel de Deus. Em Jesus, Deus se mostra como amor, proximidade, misericórdia. E Ele é “a vida”, isto é, a plenitude da existência que começa já agora e não termina com a morte. Por isso, Filipe pede: “Mostra-nos o Pai”, e Jesus responde: “Quem me viu, viu o Pai.” Aqui há uma chave fundamental: não precisamos imaginar Deus de forma distante ou inacessível; basta contemplar a vida de Jesus, seus encontros, suas atitudes, sua entrega.
A referência de que Jesus “vai e depois volta” (Jo 14,3) também evoca, como você recordou, a figura de um “Moisés escatológico”. Assim como Moisés conduziu o povo pelo deserto rumo à terra prometida, Jesus conduz seus discípulos na travessia definitiva. Ele não abandona o seu povo, mas garante unidade e continuidade. Essa promessa sustenta a Igreja nascente, que vemos na primeira leitura (At 6,1-7), organizando-se em meio a conflitos concretos. A fé no Cristo ressuscitado não afasta dos problemas, mas impulsiona a criar novas formas de serviço, como o diaconato, para que ninguém fique desamparado.
Por fim, a segunda leitura (1Pd 2,4-9) recorda que somos “pedras vivas” na construção de um edifício espiritual. Se há muitas moradas na casa do Pai, também aqui estamos sendo edificados como comunidade. A vida eterna começa já, quando vivemos no amor, na justiça e na fidelidade ao Evangelho. Seguir o caminho que é Cristo significa transformar o mundo segundo esse amor. E assim, quando chegar a hora da travessia final, não será um salto no vazio, mas a entrada na plenitude de uma relação que já começou — porque onde Ele está, estaremos também nós.
Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Reflexão de Anréia Gripp.
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