Bergoglismo. O léxico do Papa que surpreende a todos

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Por: André | 18 Dezembro 2013

“Primeirear, assistir da sacada, desprezar, ‘pasarse de rosca’, pescar uma ideia, arrumar confusão, misericordear, cara de pepino no vinagre” são algumas das tantas palavras utilizadas pelo Papa Francisco que dão dor de cabeça nos tradutores.

 
Fonte: http://bit.ly/1kdpST9  

A reportagem está publicada no sítio argentino Valores Religiosos, 01-12-2013. A tradução é de André Langer.

“Quem poderia me dizer, há 50 anos, que o mais rebelde dos meus alunos escreveria no L’Osservatore Romano? Se tivesse sabido disso, numa dessas não te mandava fazer exame...”, disse Jorge Bergoglio a Jorge Milia, de Santa Fe, Argentina. “Quem poderia me dizer, há 50 anos, que seria recebido por um papa neologista, que reinventa o latim, o espanhol, o italiano...?”, retrucou a Francisco o seu ex-aluno.

A conversa aconteceu durante um encontro que os dois amigos tiveram no Vaticano há pouco mais de dois meses. Ali o Papa Francisco elogiou os comentários de Milia, publicados no L’Osservatore Romano, sobre seus argentinismos e neologismos. Desde que assumiu o pontificado, Francisco surpreendeu com seus gestos e também com suas palavras. Não somente convidou bispos e sacerdotes para “serem pastores com cheiro de ovelha”, mas também começou a usar termos quase próprios do jargão, da linguagem popular portenha e de neologismos inventados a propósito de algo que queria acentuar. Quando Francisco falou em “primeirear”, sobretudo no Vaticano muitos se perguntaram o que isso queria dizer. Então, Milia escreveu o primeiro dos seus artigos para o blog Terre d’America, coordenado por Alver Metalli. “Teve tanta repercussão que me pediram que continuasse escrevendo sobre o que chamaram de bergoglismo e depois começou a publicá-los no L’Osservatore Romano”, conta Milia, autor do livro Da idade feliz, publicado em 2006, com prólogo de Bergoglio.

À lista de termos comentados por ele – que inclui as expressões “primeirear”, “balconear” [assistir da sacada], “desprezar”, “pasarse de rosca” [passar dos limites], “pescar uma ideia”, “arrumar confusão”, “empanturrar-se” e “misericordear” – se poderia acrescentar muitos outros, como “rosquear”, “tirar o couro”, ter “cara de pepino no vinagre”, “sair da cova” ou ter cuidado com os “mercadores”. Consideradas como “jargão de Bergoglio” ou como bergoglismos, as expressões do Papa provocam dores de cabeça nos tradutores e assombram a todos, exceto aqueles que já as conhecem.

Foram repetidas as vezes em que Bergoglio pediu desculpas por pronunciar um termo de tom vulgar ou popular. Um exemplo: na homilia da missa pela educação, que celebrou em abril de 2009 e na qual denunciou que a droga era vendida nas portas das escolas, disse: “(...) Temos que defender a cria, perdoem-me a palavra, e às vezes este mundo das trevas nos faz esquecer desse instinto de defender a cria”. Por isso, o padre Javier Klajner, responsável pela Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Buenos Aires, afirmou: “Muito do que o Papa diz, suas expressões e seus modos, nós vivíamos como uma realidade”. E recordou que o ex-arcebispo portenho descrevia a Virgem como uma mulher da rua. “Vocês têm que ser como ela, uma mulher da rua e estar na rua”, dizia aos sacerdotes.

“Os bergoglismos são como que a síntese de uma catequese 100% argentina que o Papa está exportando, está levando para o mundo, e não por fervor localista, mas por fervor missionário", disse Virginia Bonard, compiladora de Nossa fé é revolucionária, um livro com homilias e mensagens de Bergoglio do tempo em que era arcebispo portenho. Bonard, que também participou do acompanhamento que a Igreja fez aos familiares das vítimas do incêndio da danceteria Cromagnon, no qual morreram 194 jovens, recordou: “Em uma missa pelo aniversário dessa tragédia, Bergoglio chamou a Cromagnon de santuário. Isso é muito mais que um neologismo. É considerar que uma porção da cidade se santuarizou pela dor vivida pelos citadinos, como ele às vezes dizia, em vez de cidadãos”. E acrescentou: “O Papa diz que prefere uma Igreja acidentada em vez de uma Igreja doente. E ele também. É evidente que prefere acidentar-se no uso da palavra e dos gestos do que ficar com algo preso na garganta”.

Aqui publicamos algumas das expressões que despertaram curiosidade no mundo e às quais, em breve, se somarão outras, segundo antecipou Milia:

Primeirear. “O Senhor nos primeireia, está nos esperando. Pecas e está te esperando para te perdoar”.

Quando em Buenos Aires alguém o escutava falar de “primeirear” e o perguntava sobre a origem da palavra, Jorge Bergoglio explicava que provinha da linguagem futebolística portenha. Expressa a ação de chegar antes, adiantar-se ao outro ou tomar a iniciativa, e foi incorporada por Francisco em sua primeira Exortação Apostólica, que foi publicada na semana passada.

‘Balconear’ [assistir da sacada]. “Não contemplem a vida da sacada, metam-se nela, como fez Jesus”.

Em um dos seus artigos, Milia explica que no jargão portenho “balconear” quer dizer olhar da sacada como um espectador, sem participar do que acontece. O ex-aluno de Bergoglio lembra que, em sua adolescência, participavam de uma procissão de Corpus Christi no centro da cidade. “Era típico ver muitos ‘balconeros’. Pessoas que se dedicavam a saudar a procissão e fazer comentários entre si”, narra. E acrescenta: “E Bergoglio nos assinalava a situação e nos convidava a não ‘balconear’ a fé. O cristão é um protagonista, não um espectador”.

'Pasarse de rosca' [Passar dos limites]. “Esta civilização mundial passou dos limites! (...) porque é tal o culto que fez ao deus dinheiro que estamos presenciando uma filosofia e uma práxis de exclusão dos dois pólos da vida, que são as promessas dos povos: os jovens e os anciãos”.

A alusão a “pasarse de rosca” encontra sua explicação na mecânica, quando uma porca se ajusta além do devido, rompe-se e gira em falso. E também é usada para dizer que alguém transgrediu um limite ou é vencido pela ansiedade. “Pouco importa se a expressão é usada para falar da droga ou do álcool, que não é muito diferente de abusar do poder, do dinheiro ou das influências. O resultado é o mesmo: já não vê a realidade, já não a ‘agarra’ assim como é, distorce-a exagerando-a ou a avilta mortificando-a”, disse Milia.

Arrumar confusão. “O que espero da Jornada da Juventude: Espero confusão (...) quero confusão nas dioceses, quero que se saia, quero que a Igreja saia às ruas (...)”.

Para os argentinos “arrumar confusão” implica em provocar alvoroço, desordem, interrupções, gritos e, como o próprio Francisco disse, sair do preestabelecido. Milia interpreta que nem sempre a expressão é usada para algo positivo, como faz o Papa. Por isso, “assombra a todos, além da inevitável instrumentalização política, estão seguros de ter compreendido, precisamente pela força e pela expressividade da frase, seu significado positivo. Foi o Papa quem disse, acrescentam. E, portanto, está claro. Por isso, a expressão está mudando de sentido. Já mudou. Mais que mudar, podemos dizer que o Papa Francisco a transfigurou”.

'Ningunear' [Desprezar]. “Não desprezem quem sofre, quem não consegue trabalho ou não tem dinheiro”.

“Despreza-se” quando se subestima alguém, ignora. O Papa pediu aos jovens para que “não se deixem desprezar, vivam a fé”, e também que “não desprezem quem sofre”. Ao comemorar o seu passado compartilhado com Bergoglio, Milia comenta: “Naqueles dias de colégio não importava se essa recomendação apontava a outro professor, a alguns companheiros que se achavam melhores que os outros, ou a um desesperado amor juvenil que, dando-nos um fora, nos mergulhou no desespero”.

Pescar uma ideia. “Para que vá pescando o que pensam os bispos”.

Usar o verbo pescar como sinônimo de compreender é próprio do jargão portenho. O Papa usou esta expressão em sua conversa com a presidente Cristina Fernández de Kirchner, quando a presenteou com o documento produzido pela Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe em Aparecida, Brasil, em 2007.

Misericordiando. “Deixa-te misericordiar”.

O Papa permitiu-se inventar um verbo depois de constatar as dificuldades apresentadas para traduzir o seu lema: “Miserando atque eligendo”. O lema refere-se ao chamado que Jesus fez a Mateus, um cobrador de impostos, e que se traduz como “olhou para ele com misericórdia e o escolheu” ou “amando-o o escolheu”. Ao ser perguntado por Milia sobre isto, Francisco explicou: “O gerúndio latino miserando é intraduzível em italiano e em espanhol. Ocorreu-me traduzi-lo com outro gerúndio que não existe: Misericordiando”. Mons. Víctor Manuel Fernández, ao comentar o convite de Bergoglio para se deixar “misericordiar”, explica: “Convida as pessoas cheias de culpas e escrúpulos para que se deixem perdoar e envolver pela ternura do Pai Deus”.

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