A visita de Francisco aos EUA pode impulsionar a aliança entre sindicatos e a Igreja, avalia sindicalista americano

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17 Junho 2015

É fácil levar o mais poderoso líder trabalhista dos EUA à euforia. Basta dizer: “Papa Francisco”. Richard Trumka abre um enorme sorriso: “O meu coração se enche só de falar sobre ele”, diz o presidente da AFL-CIO [1], cujo escritório tem vista para a Casa Branca. “Isso me faz sentir bem, porque é uma esperança que se abre. Ele trouxe esperança às pessoas que, há muito, estavam sem esperança alguma”.

O texto é de Tom Roberts, publicado por National Catholic Reporter, 12-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa

A aliança entre trabalho e religião, particularmente a Igreja Católica, não é nenhuma novidade. Desde a promulgação da encíclica Rerum Novarum, em 1891, de Leão XIII até a Evangelii Gaudium, de Francisco, os papas têm se pronunciado em termos inflexíveis quando se trata dos direitos de os trabalhadores se organizar, avançar e protegerem-se em seus próprios interesses, de serem compensados justamente e ter condições de trabalho humanas e seguras.

Esta aliança se desgastou nas últimas décadas, mas nos últimos tempos os dois lados vêm mostrando sinais de uma volta àquela relação estreita de antes, encontrando novas possibilidades para trabalharem em conjunto. No ano passado, Trumka participou de um workshop – intitulado “Autonomia Errônea: O caso católico contra o libertarianismo” – organizado pelo Instituto de Pesquisa sobre Políticas e Estudos Católicos, da Universidade Católica da América. Trumka apresentou o Cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa, Honduras, e o presidente do Conselho dos Cardeais. O debatedor de Maradiaga foi o então bispo de Spokane (Washington), Dom Blase Cupich – que posteriormente seria nomeado arcebispo de Chicago.

Na segunda-feira, uma segunda conferência organizada pelo mesmo Instituto sobre o este mesmo tema – “Autonomia Errônea: Uma conversa sobre Fé e Solidariedade” – será realizada na sede da AFL-CIO. A palestra principal será dada pelo Cardeal Donald Wuerl, arcebispo de Washington. O debatedor vai ser o Pe. Clete Kiley, sacerdote de Chicago e diretor de política imigratória para o UNITE HERE, sindicato dos trabalhadores hoteleiros e de restaurantes.

Um dos poucos sacerdotes em nível nacional a seguir os passos do Mons. George Higgins – último “sacerdote do trabalho” de grande visibilidade nos EUA –, Kiley fundou a Priest-Labor Initiative, em 2012. Desde então, a entidade cresceu para ser uma rede de sacerdotes ligados ao trabalho em todo o país com a missão de “defender os trabalhadores, especialmente os trabalhadores imigrantes, de acordo com os princípios da doutrina social da Igreja”.

Em abril de 2014, Trumka e Kiley escreveram um artigo de opinião publicado no Courier-Journal, de Louisville, Kentucky. No texto intitulado “Uma contribuição católica por um salário mais alto”, eles sustentam que as tradições católicas e trabalhistas são parceiras e que aumentar os salários dos trabalhadores em luta “é um imperativo moral”.

Na semana passada, um grupo de cerca de 20 agentes comunitários e líderes sindicais realizou reuniões com autoridades vaticanas, em um esforço para influenciar a mensagem do Papa Francisco quando ele visitar os EUA em setembro.

O que está acontecendo?

“Acho que nós estamos indo de volta para o futuro”, disse Trumka, fiel católico que recorda que, na pequena cidade mineira de Nemacolin no oeste da Pensilvânia, onde ele cresceu, “as duas entidades que ficavam ao lado do povo trabalhador eram a Igreja Católica e o sindicato United Mine Workers. Estes eram inseparáveis”.

Trumka têm certas lembranças deste seu passado com ele ainda hoje, incluindo as lâmpadas de segurança que tanto ele como o seu pai utilizaram nas minas de carvão. (Trumka trabalhou nas minas antes de terminar a faculdade e se formar em Direito pela Villanova University.) Ele mostra a um visitante as pequenas etiquetas de metal com números, dele e de seu pai, que os mineiros penduravam em murais ao entrar e sair das minas para manter o controle de quem estava dentro e quem estava fora.

Se, por um lado, a Igreja acabou “ficando morna”, como disse Trumka, em questões trabalhistas e de justiça, o próprio movimento sindical acabou se retraindo sobre si mesmo. “Nós meio que nos isolamos. Quando começaram a atacar os trabalhadores, nós nos encolhemos, ficamos olhando somente para nós mesmos”. Esses ataques, disse ele, assumiram uma nova ordem de grandeza durante o governo de Ronald Reagan, que ficou famoso por demitir controladores de tráfego aéreo grevistas, que estavam proibidos por lei de fazerem greve.

Os sindicatos, disse Trumka, não estavam mais “falando em nome de todos. Acabamos vendo que esta era uma estratégia muito ruim. Então, alguns anos atrás paramos e fizemos uma análise criteriosa em nós mesmos. Chamamos todos os nossos amigos e aliados, e dissemos: ‘Olhem, temos de fazer as coisas de forma diferente’”.

O resultado das consultas foi um trabalho social renovado de divulgação junto as comunidades, disse ele.

“Parte do que fazemos todos os dias agora é voltar às comunidades e descobrir o que elas precisam, quais os problemas que enfrentam. E estes problemas se tornam os nossos problemas, e os nossos problemas se tornam os deles”.

Essa “comunidade” mudou desde os dias em que, por exemplo, as cidades pedregosas da Pensilvânia foram invadidas por indústrias metalúrgicas que se mantinham com o trabalho sindicalizado e que, consequentemente, ajudou a construir uma classe média bem-sucedida.

A cidade de Nemacolin é um bom exemplo disso que aconteceu. A mina de carvão fechou em meados da década de 1980. Se pesquisarmos no Google o nome da cidade hoje, aparecerão no topo da página os nomes dos resorts, dos campos de golfe e do Cassino Lady Luck. E, como no resto do país, os que preenchem as vagas de trabalho em restaurantes e hotéis são pessoas da classe trabalhadora e imigrantes, documentados e indocumentados.

A força de trabalho, acrescentou Trumka, mudou as suas táticas. “É realmente emocionante, porque o que estamos vendo na base é todas estas diferentes entidades voltando à ativa novamente”. O movimento trabalhista, disse ele, não está trabalhando somente para aqueles que estão organizados, mas para todas as pessoas à margem, “seja na luta por 15 dólares [por hora de salário mínimo] ou na luta dos lavadores de carro, seja apoiando os motoristas de táxi ou imigrantes unidos”.

“As pessoas estão começando a se levantar e dizer: ‘Esta economia não está funcionando, e precisamos nos unir”. Então começamos a voltar às nossas raízes, indo de volta às comunidades”. Quando a força de trabalho organizado, cujos números caíram vertiginosamente nas últimas três décadas, estava no seu auge “nós fazíamos parte da comunidade, e a comunidade fazia parte de nós: éramos inseparáveis”.

Trumka disse acreditar que os salários, as condições de trabalho e a desigualdade de renda vão ser uma questão fundamental na próxima eleição presidencial, mas que já será um tema ainda mais dominante nas eleições intercalares.

“A diferença que vejo agora em comparação a cinco anos atrás”, continua, “é que há cinco anos as pessoas compraram a ideia de que a economia era como o clima: não havia nada que se pudesse fazer. Paciência, há que se contentar com ele. Mas agora elas não mais estão aceitando tal noção. As pessoas entendem que a economia não é o melhor conjunto de regras. Estas regras são definidas por homens e mulheres eleitas pelo povo; tais regras decidem quem são os vencedores e quem são os perdedores, e nós podemos mudá-las”.

Trumka disse também esperar que os recentes esforços conjuntos entre o trabalho e a religião enviem a mensagem de que “os cem anos de quando o trabalho e a religião lutaram juntos por solidariedade estão vivos e bem, e que assim estarão por mais cem anos”.

Admitindo receber avaliações negativas de certos setores trabalhistas devido a este seu estreito alinhamento com a Igreja, Trumka dá de ombros e responde dizendo: “‘É o que eu acredito, são os valores que ambos trazem para a mesa de debate. Os nossos valores são inseparáveis. Se são inseparáveis, por que não deveríamos ser inseparáveis?’ É meio difícil responder a essa pergunta, pelo menos para aqueles que criticam. Mas não o é para mim porque é nisso que eu acredito”.

Ele falou ainda que a visita do papa, em setembro, vai facilitar para que esta conexão seja compreendida. “Ó, Deus, eu acho que esta visita vai energizar as pessoas. Quando o papa fala sobre o trabalho como sendo um dom e um dever, elas se levantam e sorriem. As pessoas se sentem orgulhosas novamente”.

Ele disse que ouve constantemente de pessoas não católicas que “este papa é incrível, eu gosto muito desse cara, gosto das coisas que ele representa. Então, tudo fica bem mais fácil quando temos um papa que estende os braços para abraçar as pessoas trabalhadoras. Ele está falando em nome das pessoas que trabalham. É muito mais fácil para as pessoas dizerem: ‘Sejamos recíprocos’”.

Nota:
[1] A Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais – AFL-CIO (na sigla em inglês) é a maior central sindical dos Estados Unidos e Canadá.

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