“Devemos incluir na opção pelos pobres o Grande Pobre, a Mãe Terra”. Entrevista especial com Leonardo Boff

Teólogo, que nesta semana participa de evento em São Leopoldo, atualiza suas percepções da Teologia da Libertação e diz que, hoje, precisamos compreender que a degradação do planeta é a grande expropriação que vivemos

Foto: Pixabay

Por: João Vitor Santos | 04 Julho 2022

 

Há bastante tempo, Leonardo Boff vem chamando atenção para as questões ambientais através do que ele mesmo nomina como uma ecoteologia. No começo, eram percepções de que as coisas teriam de mudar. Hoje, ele já percebe que passamos do ponto de reversão e mudar não é mais uma questão de opção, mas sim de sobrevivência. “Precisamos, já agora, mais de uma Terra e meia (1,7). Se não mudarmos de paradigma de exploração e de consumo, a Terra pode colapsar e levar junto milhões de pessoas”, observa na entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “Nem por isso devemos desistir na luta pela diminuição de emissões de gases poluentes, pois sempre pode ocorrer o inesperado e a Terra encontrar um equilíbrio climático suportável pelo sistema-vida”, acrescenta.

 

Numa retrospectiva, Leonardo recorda que muita coisa mudou desde que começou a olhar com mais atenção para o tema. Só não mudou a resistência em concebermos outras lógicas na relação com o planeta. No entanto, reconhece que os frequentes eventos extremos têm feito com que até expropriadores da Terra percebam que algo não anda bem. “Muitos agricultores e até os barões do agronegócio estão se dando conta da frustração de suas colheitas e começam a fazer a relação entre tais danos como consequência das mudanças climáticas. Isso os leva a pensar na mudança de mentalidade e de outro paradigma de produção e forma de habitar a Terra. É o sofrimento que faz as pessoas pensarem e mudarem de vida. E ele está aí e de forma crescente”, analisa.

 

Em alguma medida, trata-se de uma transformação pela qual todos devemos passar. A natureza, como bem frisa o teólogo, vem dando sinais há tempos. Foram esses sinais que fizeram com que ele, um dos pensadores da Teologia da Libertação, que tem muito clara a opção pelos pobres, ajustasse seu foco e pensasse também a Terra como um deles. “Entendi que o eixo principal da teologia da libertação era e continua sendo a opção pelos pobres contra a pobreza e a favor de sua libertação. Quem é o maior e mais explorado dos pobres? É o planeta Terra”, revela. Assim, defende que devamos “incluir na opção pelos pobres o Grande Pobre, a Mãe Terra”. E, obviamente, além da Terra como Casa Comum, todas as formas de vida que nela habitam. “A questão não pode ficar apenas nesse dado científico. Devemos, como consequência, estabelecer um laço afetivo com todos estes seres e tratá-los realmente como irmãos e irmãs”, finaliza.

 

Leonardo Boff (Foto: Reprodução do Facebook)

 

Leonardo Boff é doutor em Teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha. Foi professor de teologia sistemática e ecumênica com os Franciscanos em Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Entre os livros publicados, destacamos Ecologia: grito da Terra, grito do pobre (Petrópolis: Vozes, 1995), Evangelho do Cristo cósmico (Rio de Janeiro: Record, 2008) e Saber cuidar (Ed. 20. Petrópolis: Vozes, 2014), além de Reflexões de um velho teólogo e pensador (Petrópolis: Vozes, 2018). Mais recentemente, sobre a temática ambiental, publicou O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social (Petrópolis: Vozes, 2021)

 

Nessa semana, Boff proferirá a palestra magna do 1º Seminário Internacional de Mudanças Climáticas e I Encontro Regional Sul do ICLEI, entre os dias 5 e 7 de julho. O encontro ocorre no Auditório Pe. Werner, no campus da Unisinos em São Leopoldo, com transmissão pelo Youtube.

 

Confira a entrevista.

 

IHU – Vivemos um risco de destituição de nosso futuro? Em que medida esse risco está associado à crise climática ambiental?

 

Leonardo Boff – Há várias ameaças que podem extinguir a vida na Terra: uma guerra nuclear que poderá destruir, por várias vezes, toda a vida. E, ainda, o aquecimento acelerado do clima produzindo eventos extremos; se não limitarmos o clima a 1,5 grau Celsius até 2030, grande parte da vida não conseguirá se adaptar e pode desaparecer, bem como milhões de seres humanos.

 

Ocorre que de forma surpreendente o aquecimento disparou e pode trazer para os próximos anos danos fatais para a humanidade. Assim advertiu o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, que acompanha os níveis do aquecimento.

 

 

A terceira ameaça é a sobrecarga da Terra (Earth Overshoot). Isso significa que os bens e serviços naturais não renováveis que sustentam a vida estão se esgotando. Para atender a demanda do consumismo humano, em especial das classes opulentas, precisamos, já agora, mais de uma Terra e meia (1,7). Se não mudarmos de paradigma de exploração e de consumo, a Terra pode colapsar e levar junto milhões de pessoas.

 

 

IHU – O que devemos pensar para concebermos saída para essa crise climática?

 

Leonardo Boff – Pouco podemos fazer. Com o acumulado na atmosfera de gases de efeito estufa que permanecem por mais de cem anos, acrescido ainda o fato da entrada maciça de metano, 28 vezes mais danoso que o CO [monóxido de carbono] (permanece na atmosfera por uns 10 anos), os efeitos danosos serão inevitáveis. Por isso, há muitos climatólogos e cosmólogos céticos e fatalistas, pois dizem: chegamos atrasados demais e temos que enfrentar crescentes eventos extremos.

 

No entanto, como temos ciência e tecnologia, podemos apenas mitigar os efeitos negativos, mas não os evitar. Nem por isso devemos desistir na luta pela diminuição de emissões de gases poluentes, pois sempre pode ocorrer o inesperado e a Terra encontrar um equilíbrio climático suportável pelo sistema-vida.

 

 

IHU – Em meio à luta pela preservação da floresta e proteção de povos originários, ficamos em choque com o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips. O que esse episódio revela sobre os tempos que temos vivido?

 

Leonardo Boff – Esse fato revela o total descaso criminoso do atual governo, que desmantelou todos os serviços que se ocupavam com o ambiente e a preservação das terras dos povos originários. Só em 2021, foram desmatados mil quilômetros quadrados de florestas.

 

 

A floresta amazônica é responsável, em grande parte, pelo equilíbrio das chuvas. Cada copa de árvore de mais de 10 ou 12 metros emite entre 800 e 1000 litros de umidade por dia; são os rios volantes que garantem o regime de chuvas no sul do país, especialmente no Cerrado, até a Argentina.

 

 

Este Cerrado é uma floresta amazônica ao inverso: em vez de crescer para cima, suas árvores retorcidas crescem para baixo e lançam suas raízes a 15 ou mais metros debaixo da terra. Alimentam os rios, pois o Cerrado é a caixa-d’água de nossos principais rios, como o São Francisco, o Paraguai e outros. Ao serem derrubadas tais plantas para o plantio de soja ou de girassóis, que possuem raízes curtas, impedem que as chuvas vindas da Amazônia alimentem o nível freático e os rios. Todos eles estão diminuindo sua vazão.

 

 

IHU – Por que parecemos ensurdecidos pelos clamores da Terra? Como superar essa surdez?

 

Leonardo Boff – Não há, nos chefes de estado e nos dirigentes das grandes corporações mundiais, a consciência dos riscos que corre o planeta. Esses riscos são ignorados porque são antissistêmicos. Obrigaria todos eles a mudar o modo de produção e assim renunciar à lógica da acumulação cada vez mais crescente. Meu temor é que continuem explorando a natureza até a Terra se tornar inabitável. Pois essa é a lógica férrea do capital. Ele é suicidário.

 

 

IHU – No cenário brasileiro, acompanhamos nos últimos meses verdadeiros ataques à “Mãe Terra” e destituições de políticas públicas de proteção ao meio ambiente. Como o senhor analisa esse cenário e por onde deve passar uma reconstrução a esse processo de desmontes?

 

Leonardo Boff – O atual governo possui um projeto de desmonte de tudo o que foi feito até agora em todos os campos da realidade brasileira. Não possui nenhum projeto de nação. Tal propósito é criminoso e fruto de uma maldade visceral, contra a vida, a civilização, o povo e a nação. Isso só é possível porque a atual administração é apoiada pela elite do atraso composta por menos de 2 mil famílias de milhardários e bilhardários que sempre tiveram um projeto só para si e de costas do povo.

 

Com a epidemia, multiplicaram enormemente suas fortunas. Eles sempre apoiaram ditaduras, golpes e governos autoritários com os quais se aliam e garantem suas fortunas. A nossa democracia nunca foi forte, mas de baixa intensidade, incapaz de enfrentar os poderes tradicionais, não raro fazendo-se cúmplices ou omissos face aos crimes cometidos.

 

 

IHU – Mesmo setores nacionais mais à esquerda parecem não ter clareza sobre as questões ambientais. Que respostas o senhor compreende que a esquerda nacional tem às crises climáticas e ambientais que temos vivido?

 

Leonardo Boff – Nossa tarefa maior é criar uma consciência ecológica inexistente em quase todas as esferas. O caminho mais curto é mostrar a conexão existente entre os grandes eventos extremos, como as enchentes no sul da Bahia, no norte de Minas Gerais e no Rio Amazonas e os desastres ambientais em Petrópolis e Angra dos Reis. Eles ocorriam sempre, mas agora de forma mais frequente e mais violenta. São os efeitos das mudanças climáticas.

 

Muitos agricultores e até os barões do agronegócio estão se dando conta da frustração de suas colheitas e começam a fazer a relação entre tais danos como consequência das mudanças climáticas. Isso os leva a pensar na mudança de mentalidade e de outro paradigma de produção e forma de habitar a Terra. É o sofrimento que faz as pessoas pensarem e mudarem de vida. E ele está aí e de forma crescente. E isso tudo sem falar das novas epidemias, de bactérias e vírus, alguns letais, pois, na medida em que ocorrem o desmatamento e a agressão aos ecossistemas, podem se multiplicar e causar grandes perdas de vidas humanas.

 

 

Há cientistas que anunciam o que virá a seguir se for mantida a forma como devastamos a natureza; a chegada do Next Big One: o grande vírus ou terrível bactéria. Não haveria antibióticos e vacinas que os pudesse enfrentar. A humanidade correria grande risco de, em grande parte, desaparecer. Os sobreviventes teriam condições miseráveis de vida e até invejariam os que partiram antes. São advertências de mentes sérias e preocupadas com futuro de nossa espécie.

 

 

IHU – Ainda sobre reconstruções diante de retrocesso, há espaço no Brasil para outras concepções de desenvolvimento que levem em conta as questões ambientais e sejam menos atreladas a lógicas desenvolvimentistas de megaempreendimentos, como Belo Monte, por exemplo?

 

Leonardo Boff – O Brasil é um dos poucos países do mundo que poderia ensaiar um novo modo de produção em harmonia com a natureza e aproveitando tudo o que sua imensa biodiversidade oferece. Mas não há consciência desta oportunidade nem vontade política de abrir esse caminho promissor para nós e para toda a humanidade.

 

 

Nossos empresários mimetizam o capital mundial, se articulam com ele como sócios menores e dependentes. Vivem neocolonizados com a síndrome de vira-latas. O desafio feito pelo grande cientista Carlos Nobre ao futuro governo é fazer do Brasil uma potência de bens biotecnológicos, instalando na região amazônica centros de pesquisa e de produção para o nosso povo e para as fomes do mundo inteiro. Isso é possível e exequível.

 

 

IHU – No IHU, temos trabalhado com a perspectiva da zooliteratura com sua proposta de virada animal, incitando para que contemplemos e desfrutemos do planeta desde a perspectiva dos animais e, também, das plantas. Nós, humanos, criadores do humanismo, temos realmente o que aprender com bichos e plantas acerca da vida e das relações no planeta?

 

Leonardo Boff – Hoje, temos razões de ordem científica que fundam essa nova relação para com os seres vivos (até com as plantas, que falam pelos odores, pelas comunicações químicas entre elas). Desde 1953, quando Watson e Crick decifraram o código genético da vida, foi comprovado que todos os seres vivos, desde a célula mais originária (de 3,8 bilhões de anos atrás), passando pelas grandes florestas, animais, pássaros e chegando a nós humanos, possuem o mesmo código genético de base: os 20 aminoácidos e as 4 bases nitrogenadas.

 

Desta verificação, a Carta da Terra, assumida pela ONU em 2003, e as duas encíclicas do Papa Francisco, especialmente a última, Fratelli tutti, tiraram a seguinte conclusão: há um elo de profunda irmandade entre todos os seres vivos. Somos de fato e não metaforicamente, primos, irmãos e irmãs. Entre um chimpanzé e nós há apenas 2 genes de diferença e, com a minhoca, uma dezena de genes iguais.

 

 

A questão não pode ficar apenas nesse dado científico. Devemos, como consequência, estabelecer um laço afetivo com todos estes seres e tratá-los realmente como irmãos e irmãs. Eles possuem valor intrínseco e não apenas utilitário para os seres humanos. Há comportamentos exemplares, especialmente a afetividade dos primatas superiores, coisa que em nossa cultura está desaparecendo especialmente diante dos pobres e desvalidos.

 

 

IHU – O senhor foi um dos primeiros a chamar atenção para as questões ambientais. O que lhe fez despertar para o tema? E o que mudou desde quando entrou nessa luta até hoje?

Leonardo Boff – Já nos anos de 1980, tive um insight ecológico. A ecologia não como uma técnica de manejo dos bens naturais, mas como uma arte, uma nova forma de relação para com a natureza. Entendi que o eixo principal da teologia da libertação era e continua sendo a opção pelos pobres contra a pobreza e a favor de sua libertação. Quem é o maior e mais explorado dos pobres? É o planeta Terra.

 

Então, devemos incluir na opção pelos pobres o Grande Pobre, a Mãe Terra. Daí nasceu uma ecoteologia da libertação com propósito de ouvir simultaneamente o grito do pobre e o grito da Terra. Logicamente, para que fosse bem fundada e aceita na comunidade científica e entre nós teólogos e teólogas, tive que me apropriar dos dados das ciências da vida e da Terra.

 

Daí minha preocupação de incorporar o novo paradigma cosmogênico e pensar a partir dele a questão da natureza e da Terra. Desta diligência resultou um alentado estudo feito em parceria com um cosmólogo norte-americano, Mark Hathaway, “O Tao da Libertação: investigação sobre uma ecologia da transformação”, publicado em 2010 depois de 13 anos de pesquisa e diálogo. Foi bem aceito pela comunidade científica mundial a ponto de ser galardoado com a medalha de ouro em nova ciência e cosmologia.

 

 

IHU – Como reconstruir esse caminho de construção de políticas públicas, proteções sociais e igualdades de gênero no Brasil?

 

Leonardo Boff – Creio na vitória de um candidato capaz de ser uma pessoa-síntese que saiba somar forças para resgatar o que foi destruído. E depois refazer, dentro de outros valores, evitando erros passados, um país renovado, criativo e aberto ao mundo no sentido de aportar grande contribuição à crise sistêmica e reforçar a construção de um novo paradigma, amigo da vida, dentro da única Casa Comum, a natureza incluída.



IHU – Ao mesmo tempo que tem se perfilado como uma das vozes mais sóbrias acerca do conflito na Ucrânia, entre outros temas, o Papa Francisco revela sua fragilidade em problemas de saúde. Qual sua leitura desse quadro, em específico? E, em geral e num sentido mais amplo, como analisa os movimentos recentes do pontificado de Francisco?

 

Leonardo Boff – O Papa Francisco se mostrou um verdadeiro pastor universal, uma das lideranças mais importantes da humanidade. Resgatou em parte a credibilidade da Igreja, ferida pelos escândalos da pedofilia e do dinheiro do Banco do Vaticano. Mostrou-se o líder mais importante nas questões ecológicas, consciente dos riscos que a humanidade está correndo a ponto de dizer na Fratelli tutti: “estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. E seu grito pelos pobres, imigrantes e refugiados é ouvido todos os dias.

 

 

Sofre por causa do joelho. Mas, com humor, diz: “penso com a cabeça e não com o joelho, por isso continuo na minha missão; sequer passa pela minha cabeça renunciar ao papado”.

 

 

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