Novo missal italiano aponta para reformas de Francisco

Foto: Vatican Media

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03 Setembro 2020

Trata-se de apenas duas palavras, mas que dizem tudo sobre a direção das reformas na era Francisco.

A reportagem é de Christopher Lamb, publicada em The Tablet, 02-09-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

As palavras estão contidas na nova tradução italiana dos textos da missa, aprovada pelo Papa Francisco, e que será usada a partir do Domingo de Páscoa de 2021.

Nas orações proferidas sobre o pão e o vinho, o padre diz – como sempre - que o sangue de Jesus foi derramado “per tutti” (“por todos”) e não “per molti” (“por muitos”).

Na realidade, os bispos italianos não mudaram nada, mas simplesmente mantiveram a tradução da frase latina “pro multis” amplamente usada desde as reformas litúrgicas ordenadas pelo Concílio Vaticano II, ocorrido de 1962 a 1965.

Mas isso é o que há de tão significativo. A tradução de “pro multis” tem sido objeto de um intenso debate ao longo das últimas décadas.

Após o Concílio, muitos países usaram o equivalente ao “por todos” em suas traduções, embora isso tenha começado a mudar em 2001, depois que a instrução Liturgiam authenticam pediu uma tradução mais literal dos textos latinos.

Em 2006, Roma determinou que “pro multis” deveria ser traduzido como “por muitos”, e Bento XVI insistiu nesse ponto.

Nas traduções do Missal Romano usadas em países de língua inglesa, espanhola e francesa, usa-se o equivalente ao “por muitos”. No entanto, apesar da insistência de Roma, em 2011, os bispos italianos resistiram e votaram esmagadoramente para manter o “por todos”. E é assim que está traduzido nos missais italianos recém-impressos.

No cerne do debate está uma importante questão teológica.

“Por todos” reflete a verdade de que Cristo morreu por todos, enquanto “por muitos” reflete a verdade de que a salvação requer a participação dos indivíduos. Mateus 26,28 e Marcos 14,24 referem-se ao fato de que o sangue de Cristo foi derramado “por muitos”.

O tema central do pontificado de Francisco é que a misericórdia de Deus abraça a todos e todas, e a Igreja é um hospital de campanha que acolhe todos os pecadores e pecadoras. Ninguém está excluído. Embora seja uma tradução menos literal do latim, a expressão “por todos” reflete melhor o ensino de que o sacrifício de Cristo foi por toda a humanidade e está de acordo com o Vaticano II.

Como explica o antigo lema latino, “lex orandi, lex credendi”. A lei da oração é a lei da crença.

No dia 28 de agosto, na Biblioteca Apostólica do Vaticano, o papa foi apresentado a uma cópia da tradução do Missal Romano para o italiano por parte de uma delegação de especialistas litúrgicos, homens e mulheres, liderados pelo cardeal Gualtiero Bassetti, presidente da Conferência Episcopal Italiana.

O bispo Claudio Maniago, responsável pela liturgia na hierarquia italiana, disse que o papa afirmou à delegação que os livros litúrgicos devem demonstrar as reformas conciliares.

Desde o Concílio, que permitiu o uso das línguas vernáculas na liturgia, os bispos de todo o mundo foram encarregados de traduzir os textos latinos. E, ao longo dos anos, eles foram convidados a atualizar suas traduções. Nos papados de João Paulo II e de Bento XVI, Roma procurou centralizar o processo.

Isso nos leva à próxima grande mudança durante o pontificado de Francisco, que não tem a ver apenas com as palavras, mas também com a forma como as traduções são aprovadas.

Em 2017, o papa deu maiores poderes às Conferências Episcopais locais sobre como os textos litúrgicos latinos devem ser traduzidos em vernáculo.

O motu proprio Magnum Principium removeu a exigência de que Roma autorize todos os aspectos das traduções. Em vez disso, seu papel é revisar as traduções que foram encomendadas e aprovadas pela Conferência Episcopal. Crucialmente, isso alinhou mais a Igreja com a visão do Concílio Vaticano II, que abriu caminho para que os bispos locais tivessem mais autoridade. Uma descentralização saudável é o elemento-chave das reformas do papa.

“Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária”, escreveu Francisco em seu documento “manifesto”, a Evangelii gaudium. Em outras palavras: no que diz respeito às palavras das orações, são os bispos locais, e não os empregados da Cúria em Roma, os melhores juízes daquilo que vai ajudar mais efetivamente a evangelização.

O drama do missal italiano mostra que as reformas graduais do papado de Francisco dizem respeito à implementação do Vaticano II, o evento eclesial mais significativo dos últimos 60 anos, que lançou as pedras fundamentais da Igreja do Terceiro Milênio.

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