Produção de fumo e o desafio de alimentar uma população crescente. Entrevista especial com Paula Johns

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14 Dezembro 2012

“A produção de cigarros em nível global aumentou 12% entre 2000 e 2010”, informa a socióloga.

Confira a entrevista.


“Não é o agricultor familiar que está ameaçado pela redução do consumo do tabaco; é a indústria do tabaco que vislumbra uma possível redução no seu negócio e utiliza os agricultores como escudo para defender seus próprios interesses”. A declaração é de Paula Johns, socióloga da Aliança de Controle do Tabagismo – ACT, que acompanha a discussão acerca das implicações do tabaco no país. Segundo ela, apenas no Brasil a produção de fumo dobrou nas duas últimas décadas. “A indústria encontrou no Brasil um terreno fértil para o aumento da produção através de uma cadeia produtiva organizada, mas que não deixa alternativas para os agricultores em função da ausência de políticas públicas que estruturem outras cadeias produtivas”, lamenta em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Segundo ela, as políticas nacionais de controle ao tabagismo “não estão diretamente relacionadas à demanda nacional por folha de fumo”, porque 85% da produção brasileira é exportada. Paula Johns também comenta a participação de parlamentares e representantes da indústria do tabaco na COP-5, que se aproveitaram da ocasião para “fazer palanque político. Levaram a assessoria de comunicação para enviar informações falaciosas para o Brasil, que davam a entender que eles foram para lá para ‘salvar’ os agricultores que produzem fumo”. E conclui: “Se essas pessoas se preocupassem de fato com os agricultores, não perderiam tempo brigando contra políticas públicas de saúde. Afinal, são políticas que beneficiam a todos nós”.

Paula Johns (foto abaixo) é socióloga e mestre em Estudos do Desenvolvimento Internacional pela Universidade de Roskilde, Dinamarca. Em 2006, criou a Aliança de Controle do Tabagismo – ACT em prol da promoção e implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco no Brasil – CQCT.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como entender que as medidas de controle do tabaco implementadas no Brasil não impactaram a produção no país, que cresceu 34% entre 2000 e 2010, enquanto o consumo aparente caiu 33%?

Paula Johns – As políticas nacionais de controle do tabagismo não estão diretamente relacionadas à demanda nacional por folha de fumo. A maior parte do fumo brasileiro é exportado (aproximadamente 85% da produção). A dinâmica global do mercado de folha de fumo é o que potencialmente impactará um aumento ou uma queda na produção nacional. Por exemplo, caso a indústria decida migrar a produção para África por algum fator que vá aumentar sua margem de lucro, ela seguramente o fará.

IHU On-Line – Quais os principais avanços da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco – CQCT, considerando que se trata do primeiro tratado internacional de saúde pública, negociado e aprovado pelos 192 países membros da Organização Mundial da Saúde – OMS?

Paula Johns
– A CQCT é um verdadeiro marco na saúde pública global totalmente baseado em evidências e com um potencial fantástico de reduzir o enorme número de mortes e doenças causadas pelo tabagismo. O instrumento está posto e os países estão se organizando para implementar as medidas propostas. Os avanços vêm sendo significativos. Para citar um exemplo, em 2001 havia apenas um país no mundo adotando imagens de advertências nos maços. Em 2013 já serão 63 países. Há muitos avanços também nas leis restringindo o fumo em ambientes de uso coletivo, seja no Brasil ou no exterior. A publicidade também está sendo restringida ou completamente banida em vários países. Naqueles que adotam as políticas preconizadas pela Convenção-Quadro há uma redução na prevalência. Por outro lado, a produção de cigarros em nível global aumentou 12% entre 2000 e 2010. O aumento populacional e o aumento da prevalência em países que ainda não começaram a adotar as políticas explicam esse aumento.

IHU On-Line – A solução para o problema do cigarro está realmente na redução do consumo de tabaco?

Paula Johns
– Sem dúvida alguma. Não há nível seguro de consumo. A única forma de redução dos males causados pelo tabagismo é diminuindo seu uso.

IHU On-Line – Em que sentido os países produtores, como o Brasil, precisam se preparar para a redução da demanda global? Isso já está ocorrendo?

Paula Johns
– Numa visão de longo prazo, torna-se importante estruturar políticas rurais que permitam aos agricultores familiares produzirem mais alimentos. O que vem acontecendo é o aumento da produção no país: aproximadamente 20 anos atrás havia 100 mil famílias produtoras; esse número dobrou em duas décadas. A área plantada também aumentou muito. Portanto, num cenário global, onde se busca a redução de consumo, seria um contrassenso continuar aumentando a área plantada. A indústria encontrou no Brasil um terreno fértil para o aumento da produção através de uma cadeia produtiva organizada, mas que não deixa alternativas para os agricultores em função da ausência de políticas públicas que estruturem outras cadeias produtivas. O Brasil pode potencialmente se tornar um produtor de alimentos de qualidade se ele estruturar um sistema de produção agrícola que permita a diversificação na propriedade e o escoamento da produção de alimentos de base agroecológica. Temos o desafio de alimentar uma população crescente, e o que coloca comida no prato das pessoas não é a produção de commodities, e sim a agricultura familiar – isso sem falar nas questões ambientais associadas às monoculturas. Ou seja, o potencial de produção de alimentos de qualidade é imenso nas regiões produtoras de fumo. Precisamos encarar isso como uma oportunidade, e não como uma ameaça.

Não é o agricultor familiar que está ameaçado pela redução do consumo do tabaco; é a indústria do tabaco que vislumbra uma possível redução no seu negócio e utiliza os agricultores como escudo para defender seus próprios interesses.

IHU On-Line – Que políticas públicas podem ser pensadas na área de desenvolvimento rural sustentável em países produtores?

Paula Johns
– Políticas de produção de alimentos de base agroecológica. Também políticas públicas de desenvolvimento rural sustentável que viabilizem a produção de alimento limpo, que não prejudica a saúde do agricultor, preserva o meio ambiente e oferece alimento sem veneno para o consumidor final. Isso é possível e a demanda por alimentos orgânicos vem crescendo vertiginosamente; o crescimento só não é maior por falta de políticas estruturantes.

IHU On-Line – Como explicar que a quantidade de deputados, representantes da Souza Cruz e outros defensores dos interesses da indústria do tabaco presentes em Seul, na 5ª Conferência das Partes – COP-5, seja quase maior do que a delegação oficial do Brasil?

Paula Johns
– Boa pergunta. O que ficou evidente foi que os representantes dos interesses da indústria presentes na COP-5 (inclusive deputados estaduais) foram para Seul para se aproveitar da ocasião e fazer palanque político. Levaram a assessoria de comunicação para enviar informações falaciosas para o Brasil, as quais davam a entender que eles foram para lá para “salvar” os agricultores que produzem fumo. Para quem estava acompanhando as notícias veiculadas nos jornais locais na região produtora de fumo e nas reuniões da COP, parecia que estávamos em planetas diferentes. Se essas pessoas se preocupassem de fato com os agricultores, não perderiam tempo brigando contra políticas públicas de saúde. Afinal, são políticas que beneficiam a todos nós.

IHU On-Line – Quais têm sido os principais avanços e desafios da Aliança de Controle do Tabagismo?

Paula Johns
– Gastamos bastante energia enfrentando os obstáculos criados pelos defensores dos interesses da indústria na adoção de políticas públicas comprovadamente eficazes. Por exemplo, os aliados da indústria no Congresso nacional, que fizeram um grande estardalhaço por ocasião das consultas públicas da Anvisa, que tratava da proibição de aditivos nos cigarros, com o apoio daquele mesmo pessoal que estava acompanhando a COP-5, continuam atuando ferozmente para derrubar a resolução aprovada em março de 2012. Na ocasião alegava-se que a proibição de adição de açúcares prejudicaria os produtores de tabaco tipo burley no Brasil. Por si só esse argumento é contestável, mas não precisamos entrar nesse mérito agora, uma vez que os açúcares ficaram como exceção no texto final da resolução. O que chama atenção é que continuam contestando a resolução no que diz respeito à adição de mentol e cravo, ou seja, isso prova que esse pessoal está a serviço da indústria, e não do agricultor. A Associação dos Fumicultores do Brasil – Afubra e outros deveriam vir a público dizer que apoiam medidas de prevenção de consumo entre adolescentes incluindo a proibição de aditivos, uma vez que 60% destes iniciam-se no tabagismo com cigarros mentolados.

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