“O que está em jogo é o futuro da Europa, não o futuro da Grécia”

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Por: Jonas | 08 Julho 2015

O Não do eleitorado grego à austeridade incomodou mais a liderança europeia que não se caracterizou pela lucidez no momento mais crítico dos mais de 60 anos que tem esse projeto transnacional que é a União Europeia. Ontem, os dirigentes europeus procuraram negar o significado do referendo e a contundência do resultado. Em sua reunião em Paris, François Hollande procurou manter uma porta “aberta” para negociar com o governo de Alexis Tsipras, enquanto Angela Merkel dizia que as condições ainda não estavam dadas para realizá-la. Hoje, na reunião de ministros da Zona do Euro, espera-se mais do mesmo. Enquanto isso, o relógio não espera. O ministro da Economia da Grécia, Giorgos Sathakis, assinalou que os bancos gregos podem cobrir, nesta semana, a retirada de 60 euros diários, permitida pela atual restrição bancária. Não muito mais. O jornal Página/12 conversou com Mary Kaldor, professora da London School of Economics de Governança Global, autora de numerosos livros sobre a Europa e coeditora, com Joseph Stiglitz, da obra ‘The quest for security: protection without protectionism and the challenge for global governance’.

A entrevista é de Marcelo Justo, publicada por Página/12, 07-07-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O governo grego disse que o Não no referendo era uma maneira de negociar um melhor acordo com os credores europeus que são, em sua imensa maioria, os mesmos governos e instituições da Zona do Euro e do FMI. Acredita que isto é possível?

Tem que ser possível. Seria uma loucura se a Zona do Euro não quisesse negociar, pois o resultado seria mais desastroso para a própria Zona do Euro do que para a Grécia.

No momento, os sinais que chegam são confusos. A França disse que é precisa alcançar um acordo. A Alemanha se opõe terminantemente a uma nova negociação. Nesta segunda-feira, ouviu-se muitos disparates dos dirigentes europeus.

É muito preocupante e precipitada a visão que estão tomando. É muito preocupante porque o que está em jogo é todo o projeto europeu, não simplesmente a Zona do Euro ou a Grécia. A falta de solidariedade com a Grécia é francamente surpreendente.

Igualmente surpreendente é a incompetência. O primeiro resgate da Grécia foi em 2010. Em cinco anos, estamos no mesmo lugar, mas o iceberg está muito mais perto e no Titanic ninguém faz nada para evitá-lo.

O problema é a grande ascensão que as ideias neoliberais possuem sobre a mentalidade alemã e da Comissão Europeia. Não resta dúvida de que a Grécia precisa de uma reforma. O próprio governo grego disse isto. Existe acordo sobre este ponto. O que não se pode fazer é equiparar reforma com corte de gasto público e, lamentavelmente, nem os alemães e nem a Comissão Europeia parecem poder pensar em outro tipo de reforma a não ser a redução do gasto público. Em nenhum momento apresentaram uma proposta construtiva. O que propuseram, na semana passada, é quase igual ao que propuseram inicialmente. E caso se olhe para o resultado que este plano teve em termos de queda do Produto Interno Bruto, desemprego e aumento da dívida, o que fica muito claro é que esta fórmula não funcionou.

Nas semanas prévias ao referendo, o governo de Alexis Tsipras se aproximou daquilo que os credores lhe pediam. Há duas semanas, todos os meios de comunicação europeus falavam de um acordo com a proposta que seu governo havia feito e rapidamente, da noite para o dia, essa aproximação também não serviu.

O FMI interveio e disse que essas concessões também não serviam e que retornassem com outra proposta. Nesse ponto, o próprio governo grego não soube se poderia sustentar sua própria coalizão e decidiu fazer o referendo. Talvez o referendo tenha sido um erro porque dividiu muito as pessoas e a pergunta foi interpretada como a favor do euro ou contra o euro. Porém, por outro lado, é um direito democrático que é precisamente algo que está faltando na Europa: legitimidade democrática.

Uma das respostas ao referendo, nesta segunda-feira, era a de que não tinha validade. É o que disse o vice-ministro do euro, o letão Valdis Dombrovskis. Como se sabia, eles apostavam no Sim, mas como saiu o Não, procuram deslegitimá-lo. É brincar com fogo.

Angela Merkel acredita que a única maneira de manter a Europa unificada é sobre a base destas metas fiscais muito rigorosas. Porém, a realidade é que a Zona do Euro não pode sobreviver se o ajuste é colocado sobre os ombros dos devedores. O problema começou com a exposição dos bancos alemães e de outros países da Zona do Euro que haviam emprestado muito a Espanha, Grécia e outras nações. No caso dos Estados Unidos e do Reino Unido, os próprios governos resgataram seus bancos. No caso da Zona do Euro, são os governos dos países do sul europeu que resgataram os bancos alemães, que são os que acabaram recebendo os fundos que a troika oferecia para que a Grécia pagasse sua dívida com esses bancos. É um sistema demente. Caso não estejam dispostos a ser flexíveis e reestruturar uma boa parte da dívida, isto será o fim do euro, pois o que está acontecendo com a Grécia acontecerá com a Espanha ou com a República da Irlanda. O que está em jogo é o futuro da Europa, não o futuro da Grécia.

O que você pensa que acontecerá?

Acredito que se chegará a um acordo, porque tenho dificuldades para aceitar que sejam tão estúpidos que não consigam. Não deixa de ser paradoxal que a Alemanha lidere esta posição dura sobre a dívida, sendo que a mesma Alemanha nunca pagou suas dívidas após a guerra e se beneficiou com um forte alívio do que devia. Temos um gravíssimo problema de falta de liderança em nível europeu. Todos os líderes da Europa estão muito mais preocupados com sua audiência doméstica do que com o projeto europeu, de modo que ninguém está disposto a lidar com uma crise que requer visão, liderança, planejamento a longo prazo e transparência, com prestação de contas aos cidadãos.

Se o euro acabar afundando, o mundo ficará com duas moedas internacionais, o dólar e o yuan chinês. Isto terá também um forte impacto internacional.

Na minha avaliação, o grande problema é muito mais político do que econômico. A maioria dos europeus quer manter uma Europa que seja um projeto pacificador e solidário, mas o perigo é que caso a crise se aprofunde, muito rapidamente se torne xenófoba, algo que está se vendo com o crescimento dos movimentos de extrema direita. Acredito que isto seria extremamente perigoso. Ou seja, não é uma questão apenas de poder, que restem apenas o dólar e o yuan. A União Europeia é um exemplo de governança global em um mundo tão interconectado. Neste tipo de mundo, precisamos de instituições transnacionais que possam lidar com temas globais e com os problemas da globalização. A União Europeia é potencialmente este tipo de organização. Caso entre em colapso, não há ninguém no mundo capaz de fornecer este tipo de organização institucional.

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