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Por: André | 03 Novembro 2014

A falta da maioria dos dois terços dos votos em relação ao parágrafo 52 da Relatio Synodi (ou seja, no qual se fala sobre os divorciados recasados) representa uma decisão “em certo sentido anômala, porque é como se 74 dos 183 padres quisessem negar inclusive que se registrasse a discussão que efetivamente se viveu”. Escreve-o o diretor da revista La Civiltà Cattolica, o padre Antonio Spadaro em um longo artigo que resume os trabalhos do Sínodo Extraordinário sobre a Família, do qual o jesuíta participou.

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada no sítio Vatican Insider, 30-10-2014. A tradução é de André Langer.

“Justamente para que o debate fosse verdadeiramente tal, o Santo Padre – escreve Spadaro – nomeou membros para o Sínodo, alguns dos quais, de maneira contrária e divergente, expressaram seus pareceres sobre os temas tratados”. No Sínodo surgiram “modelos diferentes de Igreja, mas também enfoques culturais diferentes, às vezes opostos, considerando o país ou o continente de proveniência dos padres”. Na aula sinodal, segundo a La Civiltà Cattolica, “respirou-se verdadeiramente um clima ‘conciliar’. A serenidade e a franqueza (que fique claro) não produziram uma discussão suavizada, mas permitiram viver uma dinâmica real que não é, de maneira alguma, ‘confusão’, mas ‘liberdade’: dois termos que nunca se deve confundir, sob pena de não viver corajosamente uma plena maturidade adulta”.

O próprio Pontífice “confirmou que o procedimento sinodal estava correto, e que não havia que esperar uma convergência total, fruto de um equilíbrio estático, moderado, falso”. O padre Spadaro citou a respeito o clima do chamado “Concílio de Jerusalém”, sobre o qual os Atos dos Apóstolos não deixam de registrar uma “grande discussão”.

“E este cara a cara – lê-se na La Civiltà Cattolica – era o que o Santo Padre havia pedido que os padres sinodais não temessem, consciente de que o que nortearia a discussão de todos seria ‘o bem da Igreja, das famílias e a suprema lex, a salus animarum’. E tudo isso, pois, ‘sem nunca colocar em discussão as verdades fundamentais do Sacramento do Matrimônio: a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a procriação, ou seja, a abertura à vida’”.

Quanto à falta da maioria dos dois terços dos votos em relação ao parágrafo sobre os divorciados recasados, que contém as duas posturas que surgiram no debate para certificar que “se falou disso no Sínodo”, após ter definido a decisão “anômala”, Spadaro recorda que a discussão foi reconhecida e certificada pela mensagem final, aprovada por ampla maioria (158 votos de 174), que oferece “inclusive um indício de fundamento teológico: ‘O encontro que reúne e engloba todos os fios da comunhão com Deus e com o próximo é a Eucaristia dominical, quando com toda a Igreja a família se senta à mesa do Senhor... Por isso, na primeira etapa de nosso caminho sinodal, refletimos sobre o acompanhamento pastoral e sobre o acesso aos sacramentos dos divorciados recasados’”.

Com a decisão de publicar tudo, inclusive o número dos votos obtidos por cada um dos parágrafos na votação final, “Francisco fez que o processo fosse transparente, deixando aos fiéis a leitura e o juízo dos fatos, inclusive os de mais difícil interpretação”. E “graças à decisão do Pontífice, todos os pontos em disputa seguem sendo ‘quaestiones disputandae’, mas iluminadas por todo o debate sinodal. O processo, pois, fica em aberto e exige que o povo de Deus se envolva durante todo um ano”.

"No final do Sínodo Extraordinário – escreve ainda o diretor da La Civiltà Cattolica –, acreditamos que é necessário que a Igreja reflita, em todos os seus níveis, não somente sobre esta ou aquela questão específica, mas graças a estas, também sobre o modelo eclesiológico que ela encarna. Isso nos permite compreender o papel da Igreja no mundo e sua relação com a história”.

Finalmente, o Pe. Spadaro oferece como chave de leitura e como aproximação a imagem da Igreja como um “hospital de campanha após uma batalha”, proposta por Francisco: “tanta gente ferida que pede de nós proximidade, que pede a nós apoio, a mesma coisa que eles pediram a Jesus: proximidade”. Uma imagem que é “o contrário da fortaleza sitiada. Não se trata de uma simples e bela metáfora poética: dela pode derivar um entendimento da missão da Igreja e também do significado dos sacramentos da salvação”.

O campo de batalha agora, segundo Spadaro, são alguns dos desafios relacionados à família: “a diminuição dos nascimentos e o envelhecimento da população inverteram as relações entre os jovens e os anciãos; os anticoncepcionais permitem a separação entre a sexualidade e a generatividade; a procriação assistida rompe a identidade entre gerar e ser pais; as famílias reconstituídas oferecem à existência vínculos e papéis parentais com geografias relacionais muito complexas; os casais de fato colocam a questão da institucionalização social de suas relações; as pessoas homossexuais se perguntam por que não podem viver uma vida de relação afetiva estável como crentes praticantes. Mas, na realidade, o verdadeiro problema – continua o padre Spadaro –, a verdadeira ferida mortal da humanidade de hoje é que as pessoas têm cada vez mais dificuldades para sair de si mesmas e estabelecer pactos de fidelidade com outra pessoa, inclusive com a pessoa amada. É esta humanidade individualista que a Igreja vê diante de si. E a primeira preocupação da Igreja deve ser a de não fechar as portas, mas abri-las, oferecer a luz que habita nela, sair para ir ao encontro de um ser humano que, embora acredite não necessitar de uma mensagem de salvação, se descobre muitas vezes atemorizado e machucado pela vida”.

Se a Igreja é verdadeiramente uma mãe, trata os seus filhos de acordo com suas “entranhas de misericórdia”. A seguinte pergunta foi feita por alguns padres sinodais: pode haver “uma economia sacramental que preveja situações irrecuperáveis, que excluam permanentemente a possibilidade de aceder ao sacramento da reconciliação?”

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