Um jesuíta na periferia. A viagem de Francisco à Albânia.

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26 Setembro 2014

"The Guardian, como diversos outros jornais, pôs em evidência o alcance simbólico da viagem de Francisco, que escolheu como meta da primeira viagem européia não “uma das grandes potências católicas do continente”, mas um país “minúsculo” e fortemente golpeado pelo problema da indigência", escreve Claudio Ferlan, pesquisador do FBK-ISIG, em artigo publicado pelo Mente Politica, 23-09-2014. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo. 

O domingo passado pelo Papa na Albânia muita coisa pode contar sobre as raízes históricas e as linhas características do pontificado em curso. Desde os momentos subseqüentes à própria eleição Bergoglio desejou estar na condução de uma Igreja pobre para os pobres, capaz de abrir-se à periferia. Suas atenções, seus gestos e suas palavras se direcionaram depois, com particular insistência, à Igreja do diálogo inter-religioso, da paz e do martírio: de fato, com frequência Francisco recordou o modo como hoje o número de pessoas que perdem a vida pela própria fé seja superior ao registrado pelo cristianismo das origens.

Missão e testemunho

A presença dos jesuítas na Albânia começou a consolidar-se na metade do século XIX, quando os missionários tentaram revitalizar uma desaparecida minoria cristã. Conseguiram organizar alguma pequena escola, mas o seu empenho se concentrava principalmente nas missões volantes destinadas a aldeias mais isoladas, onde os missionários administravam os sacramentos para os poucos fiéis: matrimônios (a legalizar a difundida prática do concubinato), confissões e comunhões. O seu esforço mirava principalmente superar a mentalidade da “lei do sangue”, a qual aceitava a vingança privada e a represália dos ofendidos contra os parentes de quem fora atingido por ultrajes ou delitos.

No segundo pós-guerra foi precisamente na Albânia que a Companhia de Jesus e a Igreja católica em geral vivenciaram as maiores dificuldades. Aqui, à proclamação do ateísmo de estado seguiu-se a dispersão, o encarceramento e a condenação a trabalhos forçados dos poucos religiosos que permaneceram no país. Não foram poucos os que perderam a vida, como o recordam as fotos expostas domingo passado na alameda principal de Tirana

Nova linfa das periferias

A atenção às periferias se concretiza na escolha das metas das viagens pontifícias. Um dos mestres espirituais de Bergoglio, o geral dos jesuítas Pedro Arrupe (1907-1991), fez da periferia o seu mundo. Nos vinte e sete anos passados no Japão, Arrupe compreendeu que os jesuítas deviam deixar-se evangelizar pelas periferias, redimensionar o centralismo romano e ir ao encontro das exigências emergentes nos lugares mais pobres e marginalizados.

Apenas eleito Geral (1965), em pleno Concílio Vaticano II, Arrupe escolheu como meta das primeiras viagens pastorais a Índia e a África.

De semelhantes realidades teriam podido chegar os exemplos necessários à renovação da Igreja. Um destes exemplos foi proclamado em alta voz pelo Papa Francisco que, do povo albanês elogiou a capacidade de viver não em tolerância, mas em fraternidade. Num país no qual a maioria islâmica (55-60% da população, segundo as estimativas) e as minorias, ortodoxa (15-20%) e católica (12-15%), colaboram em espírito de fraternidade que merece ser tomada como modelo, disse o Papa. Ao denunciar com força o sacrilégio dos homicídios em nome de Deus, recordou como nos anos da ditadura de Hoxha (1944-1985) os mártires pela fé não tenham sido somente católicos, mas também muçulmanos e ortodoxos: no compartilhamento das memórias sofridas, os religiosos podem, portanto, encontrar linfa para a convivência fraterna.

Encontro com os pobres

The Guardian, como diversos outros jornais, pôs em evidência o alcance simbólico da viagem de Francisco, que escolheu como meta da primeira viagem européia não “uma das grandes potências católicas do continente”, mas um país “minúsculo” e fortemente golpeado pelo problema da indigência. Tal preferência estaria indicando a vontade do papado de “dar prioridade aos pobres e aos marginalizados”. Nos discursos feitos domingo tal prioridade por certo não foi esquecida: Bergoglio recordou a urgência de fazer frente às necessidades dos pobres, e auspiciou que à globalização dos mercados corresponda uma globalização da solidariedade, convidou a escolher o bem que, ao contraio de um dinheiro que desilude, infinitamente apaga.

Parece poder dizer-se que as linhas programáticas deste pontificado tenham encontrado o favor do povo, e não só da maioria dos católicos, mas também daquela dos expoentes de outras religiões (muitos são, por exemplo, os muçulmanos albaneses que declararam publicamente rezarem pelo Chefe da Igreja católica) ou de quem em nenhuma fé se reconhece. É muito provável que tal apreciação deva ser coligada com a carga humana e carismática de Francisco, mas seria injusto não dar relevância também aos seu projeto de Igreja, um trabalho em curso que encontra as suas raízes na história e se abre a um futuro de renovação para o qual muitos esperam passos novos e, porque não, surpreendentes.

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