11 Novembro 2013
Mark Twain atribuía a famosa frase sobre os perigos das "mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas" a Benjamin Disraeli, embora ela não seja encontrada em nenhuma das obras do ex-primeiro-ministro britânico – ilustrando, talvez, que os números não são a única coisa que escritores talentosos às vezes empregam para passar a perna em alguém.
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 08-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Não importando quem a disse, a frase capta algo real. Pelo fato de os números carregarem uma aura de objetividade, as pessoas os invocam para defender todos os tipos de argumentos, muitas vezes sem verificar a sua confiabilidade. Essa é a missão do programa de rádio More or Less, da BBC, que analisa criticamente as estatísticas utilizadas no jornalismo e nos debates públicos.
Recentemente, o programa concentrou-se sobre estatísticas utilizadas nos meus textos sobre a perseguição anticristã – não tanto no meu livro mais recente, The Global War on Christians, mas sim em uma reportagem de capa que eu fiz para a revista The Spectator no início de outubro. A essência é que três das estatísticas que eu citei nesse trabalho são exageradas ou, ao menos, questões em aberto.
Essas estatísticas são:
• Uma estimativa de 2009 do presidente da Sociedade Internacional para os Direitos Humanos, com sede em Frankfurt, Alemanha, no sentido de que 80% dos atos de discriminação religiosa hoje são dirigidos contra cristãos. Um representante da Sociedade disse ao More or Less que eles não usam mais essa estimativa porque é impossível saber com precisão quantos dos atos de discriminação são dirigidos contra populações específicas.
• Um relatório do Pew Forum de setembro de 2012, que indica que, entre 2006 e 2010, os cristãos enfrentaram algum tipo de assédio em 139 nações, quase três quartos de todas as sociedades da Terra. Aqui, o More or Less me criticou por deixar de fora um contexto importante, porque o relatório do Pew também constatou que os muçulmanos enfrentaram dificuldades em quase tantos países quanto os cristãos, e que outros grupos religiosos também estão sob ameaça.
• A estimativa do Centro para o Estudo do Cristianismo Global, de que a cada ano, durante a última década, uma média de 100 mil cristãos foram mortos por ano "em uma situação de testemunho". O programa denunciou que essa estimativa inclui muitas situações, como a República Democrática do Congo, em que os cristãos estão sendo mortos, mas não por razões de fé. Além disso, muitos desses assassinatos acontecem entre cristãos.
Essas são preocupações legítimas, e você não precisa negar a violência anticristã para levantá-las. Eu tentei responder na minha entrevista com a BBC e vou dar uma versão mais completa aqui.
Meu argumento básico é de que praticamente todos os números usados para falar sobre a violência religiosa, seja dirigida contra cristãos ou contra qualquer outro grupo, são estimados. Obter dados concretos é notoriamente difícil, em parte porque as vítimas muitas vezes não fazem relatórios por medo de represálias e em parte porque os bairros onde a atividade mais letal está ocorrendo não acolhem investigadores independentes bisbilhotando por aí.
Todos desejariam que os dados fossem mais confiáveis, embora eles também percebam que, no grande esquema das coisas, esse é um detalhe. O quadro geral é que, não importando quão exatos venham a ser os números, os cristãos estão cada vez mais em risco.
80 por cento
Quando Martin Lessenthin, presidente da Sociedade Internacional para os Direitos Humanos, ofereceu o número de 80% em 2009, ele deixou claro que era uma estimativa com base em conversas com colegas e no levantamento dos resultados de outros observatórios de direitos humanos. Pelo fato de não há nenhum catálogo preciso de todas as violações à liberdade religiosa ao redor do mundo, é impossível saber com certeza que ação é realmente dirigida contra os cristãos ou contra qualquer outro grupo.
Com efeito, Lessenthin estava tentando fazer uma observação bastante simples com a sua estimativa. Pelo fato de o cristianismo ser a maior religião do mundo, com 2,3 bilhões de adeptos, e pelo fato de o seu crescimento ser maior em regiões com um relatório misto sobre os direitos humanos, o número bruto de ataques contra cristãos é obrigatoriamente maior do que o de qualquer outro grupo.
Se é difícil para alguns acreditar nisso, provavelmente pode-se falar de um problema com as narrativas. No Ocidente, a narrativa habitual sobre o cristianismo é de que ele é grande, rico e politicamente poderoso, o que torna difícil para algumas pessoas colocar em suas mentes o fato de que os cristãos podem realmente sofrer perseguição.
No entanto, essa visão das coisas está muito desatualizada. Dois terços dos cristãos do planeta vivem agora em países em desenvolvimento, e essa parcela está projetada a atingir três quartos em meados do século. A maioria é pobre, e eles são muitas vezes membros de minorias étnicas, linguísticas e culturais, de modo que estão dupla ou triplamente em risco. A fé está crescendo em locais difíceis como a África subsariana, Ásia, América Latina e Oriente Médio, onde os cristãos locais muitas vezes são cegamente (e erroneamente) identificados com "o Ocidente".
A alegação de que esses cristãos sofrem 80% de todos os atos de discriminação religiosa pode não ser mais do que um palpite, mas mesmo assim reflete melhor a realidade do que uma cosmovisão desatualizada dos cristãos como mais propensos a ser os opressores, em vez dos oprimidos.
139 países
O More or Less foi absolutamente correto ao observar que, de acordo com os dados do Pew, os cristãos são praticamente o único grupo a ser assediado. Na pesquisa de 2012 que eu citei, os totais para o número de países em que os seguidores de uma determinada religião encontram dificuldades foram os seguintes:
• Cristãos: 139
• Muçulmanos: 121
• Judeus: 85
• Outros: 72 (inclui os bahá'is , zoroastrianos etc.)
• Religiões folclóricas: 43
• Hindus: 30
• Budistas: 21
O estudo documenta o que chama de "maré alta" das restrições à religião em todo o mundo, em que os cristãos não são as únicas vítimas.
No livro, eu ressalto o risco no uso da retórica da "guerra contra os cristãos", quando outros grupos religiosos também estão na linha de fogo, escrevendo que isso "poderia fazer com que a defesa da liberdade religiosa pareça uma questão paroquial de autointeresse cristão, ao invés do suporte baseado em princípios dos direitos humanos de todas as pessoas".
Dito isso, a razão da atenção especial aos dados cristãos é porque ela desafia a narrativa. É muito mais fácil para a mente ocidental típica aceitar que os judeus ou budistas possam experimentar a perseguição do que os cristãos e, na verdade, em número muito maior, dada a maior dimensão global da população cristã.
Acordar para a realidade da guerra global contra os cristãos não significa que outros grupos não estejam sofrendo também. Ao mesmo tempo, não falar sobre o seu sofrimento não significa que a guerra global não esteja acontecendo.
Contando mártires
Eu destinei uma parte do primeiro capítulo do livro The Global War ao debate sobre a estimativa fornecida pelo Centro para o Estudo do Cristianismo Global, em que temos 100 mil novos mártires a cada ano. Os verificadores de fatos da BBC estão corretos ao afirmar que há um debate ardente sobre esse número, em que até mesmo alguns dos especialistas mais preocupados sobre a perseguição anticristã acreditam que ele esteja inflado porque inclui muitas vítimas cujas mortes não tinham nada a ver com motivos religiosos.
Eu cito Thomas Schirrmacher, da Aliança Evangélica Mundial, por exemplo, que disse em agosto de 2011 que ele considera um registro de 20 mortes de cristãos por dia, o que dá 7.300 mortes por ano, um número mais realista. Recentemente, o missionário cristão da organização Gospel for Asia lançou sua própria estimativa de 14 mil cristãos mortos por causa da fé a cada ano em todo o mundo, alegando que o número é baseado apenas em casos relatados.
O debate certamente vai continuar. Como Schirrmacher disse há dois anos, "estamos longe de ter um relatório confiável do número de mártires por ano".
Mesmo com a estimativa por baixo de Schirrmacher, no entanto, tem-se quase um novo mártir cristão a cada hora. Pode haver uma discussão sobre a contagem de corpos, mas não há disputa séria de que a "guerra global" é real.
No livro, eu alerto contra uma definição excessivamente restritiva do que conta como violência anticristã, sugerindo que o padrão clássico para o martírio de uma morte in odium fidei, ou seja, por ódio explícito à fé, deixa muitas coisas fora do quadro.
Aqui está o exercício de pensamento que eu costumo usar: considere-se uma devota catequista no Congo que foi morta por um grupo paramilitar por resistir à inscrição forçada de crianças-soldados. Alguém pode dizer que isso é trágico, mas não um martírio, porque esses bandidos não se importam com a fé dela. Eles só queriam manter suas mãos longe de seus novos recrutas. No entanto, mais profundamente, os motivos da catequista tinham tudo a ver com a sua fé. Ela colocou-se no caminho do perigo porque ela acreditava que estava seguindo o chamado de Deus para servir os mais vulneráveis. Assim, em um sentido muito real, ela morreu por causa do Evangelho da mesma forma quanto um antigo mártir assassinado por se recusar a sacrificar aos deuses pagãos.
Em uma frase de efeito, é um erro, ao se fazer o levantamento da guerra global contra os cristãos, concentrar-se exclusivamente nos motivos daqueles que puxam o gatilho. Em algum momento, nós também temos que considerar o que estava nos corações das pessoas que levaram o tiro.
Essa perspectiva não resolve o debate sobre os números, é claro, mas sugere um padrão mais amplo para decidir o que conta na tentativa de determinar a verdadeira escala de violência anticristã.