10 Janeiro 2012
O ano começa com cerca de 700 novos desempregados no Rio Grande do Sul. Esse é o saldo do fechamento da empresa Doublexx, indústria de calçados de Estância Velha, no Vale do Sinos, e que mantinha filiais em Boa Vista do Buricá, Horizontina e Humaitá.
A reportagem é de Álisson Coelho e Roberto Witter e publicada pelo jornal Zero Hora, 10-01-2012.
Alegando dificuldades financeiras, a companhia deu férias coletivas aos trabalhadores no dia 20 de dezembro. A retomada estava marcada para ontem, mas as portas das quatro fábricas permaneceram fechadas.
Exportadora, a empresa concentrava a produção em calçados com maior valor agregado, com clientes na Europa, Ásia e América. O principal mercado da Doublexx eram os Estados Unidos. De acordo com a advogada da empresa, Adriana Müller, as dificuldades começaram em 2006, quando um problema em um componente fez com que um pedido fosse devolvido à companhia.
– De lá para cá se vinha tentando recuperar, mas no ano passado um pedido que não foi pago piorou a situação. As dificuldades financeiras já não permitiam que a Doublexx conseguisse arcar com os custos da folha de pagamento, dos acordos trabalhistas e da matéria-prima – afirma Adriana.
Todos os funcionários terão de recorrer à Justiça para receber os valores a que tem direito. A advogada acredita que as dívidas trabalhistas cheguem a R$ 1,5 milhão, valor que deve ser pago com a venda da sede em Estância Velha, avaliada em R$ 4 milhões.
Na família de Claudio Padilha Gomes, 34 anos, de Boa Vista do Buricá, o drama de estar desempregado por causa do fechamento de uma fábrica se repete pela terceira vez. Há sete anos ele e a mulher, também funcionária da Doublexx, saíram de Santo Antônio do Inhacorá para trabalhar em fábricas calçadistas.
– As duas primeiras empresas fecharam, mas não saí do ramo. Este era meu terceiro emprego no setor. Eu e a mulher trabalhamos lá. Os empregos é que garantiam o sustento dos nossos três filhos – conta Gomes.
O impacto
- Criada em 1997, a Doublexx mantinha 315 funcionários em Boa Vista do Buricá, 106 em Horizontina, 198 em Humaitá e cem em Estância Velha, dos quais pelo menos 70 já haviam sido demitidos em novembro e dezembro.
- O fechamento da empresa traz dificuldades econômicas aos municípios. Em Boa Vista do Buricá, por exemplo, a companhia respondia por 30% da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). E dos 315 empregados da fábrica, cerca de 250 são da cidade.
- Em Humaitá, a empresa respondia por 15% da arrecadação e mantinha 198 funcionários. O município estuda formas de ajudar os demitidos, principalmente na ação judicial para recebimento dos direitos trabalhistas.
- Em Horizontina, a preocupação não é com a arrecadação, que era pequena na cidade, mas com os 106 desempregados.
Perspectiva negativa para o setor no Estado
O fechamento de unidades destinadas à produção de calçados para exportação tem se tornado comum no Estado. Grandes indústrias, como a Vulcabras/Azaleia, de Parobé, e a Paquetá, de Sapiranga, optaram no ano passado por concentrar a fabricação de calçados para exportação em outros países. Para Maria Lucrécia Calandro, economista da Fundação de Economia e Estatística, a situação tende a se repetir.
– A concorrência de calçados produzidos em países onde o custo de produção é muito menor e a política de valorização do real frente ao dólar fizeram com que os exportadores gaúchos perdessem competitividade. Infelizmente outras empresas devem fechar ou se transferir – afirma.
Entre janeiro e outubro de 2011 as exportações gaúchas perderam 24% em volume, se comparado com o mesmo período do ano anterior. O Estado também teve 14% a menos em faturamento.
– Anteriormente, havia queda de volume, mas o calçado de maior valor agregado fazia com que não se perdesse em faturamento. Nos últimos dois anos, no entanto, a situação se complicou – lembra a economista.
Investir em calçados com alto valor agregado é o caminho apontado por Maria Lucrécia para que indústrias gaúchas continuem exportando.
– A Doublexx tinha como principal cliente os Estados Unidos, um mercado já dominado pela China. As empresas do Estado devem se preparar para vender um calçado melhor, que não entre na competição por preço com os asiáticos, e procurar clientes em outros países – ressalta a especialista.