WikiLeaks: a armadilha da opinião pública

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02 Fevereiro 2011

No último número da edição italiana do Le Monde Diplomatique, está presente um longo artigo do estudioso e midiativista Felix Stalder sobre os efeitos do Wikileaks não só na rede, mas também naquele milieu cultural que muitas vezes acompanha o segredo de Estado ou industrial.

A reportagem é de Benedetto Vecchi, publicada no jornal Il Manifesto, 19-01-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Para Stalder, a decisão de Julian Assange e dos seus colaboradores de divulgar muitas informações "reservadas" ou secretas é, sim, expressão daquela atitude hacker desde sempre considerada fundamental para o desenvolvimento da rede, mas também um papel de tornassol sobre o estado de saúde da democracia.

Se para o primeiro aspecto assistimos a um salutar retorno às origens da Internet, para os efeitos da democracia real o que está em jogo é decidir se a discussão pública assumiu as implicações radicais da operação do Wikileaks.

O aspecto mais interessante da reflexão de Stalder está, de fato, quando coloca entre parênteses a rede, é ver o fenômeno Wikileaks como um forte antídoto àquela involução da democracia que leva, sim, a um crescimento exponencial da difusão de informações que não têm uma validade marginal nas decisões de escolha por parte dos indivíduos e que tornam, paradoxalmente, sempre mais opaca a operação dos governos. Em outros termos, quanto mais cresce o rumor de fundo informativo, mais as informações sensíveis podem ser envolvidas no mistério.

Com a sua atividade, o Wikileaks indubitavelmente desfez as névoas que envolvem e cobrem os comportamentos de governos, empresas e bancos, mas não é óbvio que tudo isso pode permitir que os "cidadãos" possam controlar tais comportamentos uma vez que o mistério que os acompanha é revelado, isto é, tornado público.

Com o ensaio de Felix Stalder, estamos na reproposição de uma visão libertária da relação entre mídia e poder, com base na qual existe uma tensão conflitiva entre livre circulação das informações e instituições políticas ou econômicas. Mas, ao contrário, é essa visão inocentemente libertária que paralisa a atitude crítica, porque cancela as práticas sociais pertinentes tanto à produção quanto à circulação das informações.

Tomemos como exemplo o eco que teve o episódio Wikileaks na rede. Durante muitos dias, e ainda agora, nas redes sociais e nos sites "pesados", isto é, aqueles consultados por milhões de pessoas, o episódio de Assange dominou a cena, com centenas de milhões de pessoas que saudavam o Wikileaks como um paladino da liberdade de informação.

Mas quanto mais crescia o consenso, mais as informações tornadas públicas eram relegadas ao fundo, quase como se a sua simples publicação impedisse a reprodução daquela cultura do segredo contra a qual Assange muitas vezes se pronunciou contra. Em outros termos, a opinião pública saudou positivamente o Wikileaks, enquanto os conteúdos tornados públicos alimentaram aquele mesmo rumor de fundo que Felix Stalder considera, justamente, como uma limitação da democracia.

Em outros termos, afirma-se aquela concepção liberal que considera a opinião pública como o único controlador do soberano, anulando assim todas as experiências de produção independente de informação e conteúdos que foi o verdadeiro elemento conflitivo que impediu uma domesticação da rede por parte justamente daquelas redes sociais que reduzem a informação produzida pela comunicação social a mercadoria precificada sobre a qual é possível desenvolver seu próprio "modelo de negócio".

Certamente, não é imputável a Julian Assange e ao Wikileaks tal ocultamento do poder devastador das informações por eles divulgadas, mas sim àquela prática empresarial que faz lucro com as informações produzidas pela comunicação na rede. Não é, de fato, um acaso que o Departamento de Estado tenha feito pressão no Facebook e no Twitter para instituir formas de limitação dos grupos em favor do Wikileaks: pressões que os diretos interessados não desmentiram, declarando terem permanecido fiéis aos princípios de respeito da privacidade para os participantes de suas redes sociais. Tudo isso, obviamente, com base naquele princípio caro aos liberais, e libertistas, de que "business is business".

Como, então, sair do quadro de compatibilidade que o êxito ou, melhor, as relações de força resultantes da discussão pública impõe? Um retorno àquele princípio materialístico que convida a olhar para as práticas sociais. Se permanecermos limitados ao episódio Wikileaks, é preciso voltar o olhar ao que foi prospectado por Julian Assange, isto é, para aquele "pacto" entre mídias tradicionais e as formas de difusão das informações dentro da rede.

Dito em termos mais acessíveis, o Wikileaks prospectou uma "aliança" contingente sua com as mídias tradicionais, propedêutica para fazer crescer a atenção sobre as suas ações. Aliança que provocou um desmoronamento na difusão das informações, porque a presença de respeitados jornais, como o The Guardian, legitimou a ação do Wikileaks, graças justamente ao prestígio do jornal inglês.

Mais realisticamente, por outro lado, um dos efeitos colaterais da ação do Wikileaks é o crescimento da autoridade moral das fontes informativas independentes. Como se defende na entrevista de Richard Stallman, o buraco da agulha por onde se deve passar é justamente as práticas sociais dentro e fora da rede. Isto é, aquela reapropriação dos conteúdos que a retórica da opinião pública, ao contrário, gostaria de relegar a "ornamento" da comunicação pública.

 

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