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17 Dezembro 2021

 

Exatamente cinquenta anos após a publicação do livro de Gustavo Gutiérrez que deu início à corrente teológica latino-americana, especialistas discutem sobre seu significado histórico e seu legado.

 

A reportagem é de Roberto Beretta, publicada por Avvenire, 15-12-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Capa da sexta edição do livro Teologia da Libertação: Perspectivas, de Gustavo Gutiérrez (Foto: Divulgação)

 

“Acredito que a Igreja está pagando o preço de ter se livrado da teologia da libertação com muita facilidade”. Foi lapidário o intelectual uruguaio Alberto Methol Ferré, amigo e professor do cardeal Bergoglio, quando anos atrás esculpiu seu juízo sobre a TDL em um trocadilho. Na verdade, hoje, exatos cinquenta anos após a publicação do livro de Gustavo Gutiérrez, que lançou a corrente teológica latino-americana de mesmo nome, acalmados tanto os ímpetos revolucionários dos padres guerrilheiros quanto (graças sobretudo ao Papa Francisco) as águas dos preconceitos suspeitos que impediam um exame mais objetivo das ideias do pensador peruano, o aniversário exige um balanço que não pode ser maniqueísta. O que a Teologia da Libertação nos deixou? Foi um perigo de marxismo que falhou ou uma oportunidade perdida para a Igreja? Aliás, antes mesmo: ela está viva, ainda tem algo a dizer?

Massimo Borghesi, professor de Filosofia Moral em Perugia, é um dos especialistas italianos no assunto: “Sim, convém fazer um balanço em claro-escuro. Além disso, o fez o próprio fundador da Tdl, que na segunda edição de sua obra (1988) elaborou uma autocrítica muito profunda sobre a subordinação à metodologia marxista de que a Teologia da Libertação sofreu o fascínio. O grande equívoco que arrastou milhares de jovens para longe da fé foi a interpretação dicotômica da realidade, para exaltar a contra-violência dos pobres e identificar a construção do socialismo e do reino de Deus. O elemento religioso servia apenas como combustível, mas depois, método e ação se desenvolvem de acordo com uma ideia de classe, rejeitando todo reformismo ‘burguês’. O efeito prático na América Latina foram as ditaduras militares”.

Mas depois caíram os muros, o socialismo real demonstrou todos os seus fracassos... “E naquele momento devia ser promovido um autêntico empenho pela libertação, no qual a presença cristã assumisse também a responsabilidade do social sem, portanto, renegar a pertença eclesial. Em vez disso, desde a década de 1990, a Igreja se entrincheirou em uma cidadela, teve medo e prevaleceu uma reconfortante teologia da ordem. Perdemos uma grande oportunidade”. Teologia da libertação queimada, então? “Certamente o Papa Francisco - que se reconhece na Escola do Rio de la Plata, a teologia del pueblo - a trouxe de volta em sua forma autêntica, e de fato o acusam de marxismo. A atenção preferencial aos pobres, a crítica a um capitalismo financeiro sem misericórdia, a valorização da dimensão popular são evidentes nele. Sabe o que vou lhe dizer? Paradoxalmente, precisaríamos reconstitui-la no Ocidente, a Tdl...”.

Concordar com isso é imediato para o missionário padre Alex Zanotelli: “A Teologia da Libertação? Nunca como agora é tão atual! Lembro-me de ter lido o livro de Gutiérrez quando ainda estava no Sudão, me impressionou muito e sou grato ao autor (que infelizmente pagou caro por aquela obra) porque foi uma inspiração para muitas teologias da África e da Ásia. Nestes 50 anos, a Tdl tornou-se um patrimônio eclesial, especialmente estimulou as comunidades cristãs a compreender que a fé - muitas vezes entendida no sentido intimista - deve ser unida à vida, isto é, à dimensão política, econômica, ambiental e social. O Papa Francisco não vem diretamente da Tdl, mas foi muito influenciado por ela; quando afirma ‘Esta economia mata’, ou em vários trechos da encíclica sobre o meio ambiente, ele de fato retoma a Teologia da Libertação embora sem usar o termo - que poderia ofender alguém. Só na Europa e nos Estados Unidos há mais dificuldade em aceitá-la, porque estamos demasiado presos ao sistema que está nos conduzindo ao abismo”.

O professor Andrea Riccardi também alude ao contexto internacional, mas como historiador da Igreja afirma: “A Teologia da Libertação representou sobretudo o orgulho da América Latina em ter uma teologia, no período em que se discutia a dependência econômica e política do subcontinente. Ratzinger me confessou que faltou dar-lhe uma avaliação positiva, purgando-a do marxismo e vinculando-a a uma autêntica libertação do homem; é um juízo compartilhável. Mas a Tdl de ontem está datada com um mundo que não existe mais, com um marxismo que não existe mais... Talvez a teologia do povo, pelo fato de estar ligada à metrópole de Buenos Aires, tenha aspectos mais duradouros em um contexto cultural da globalização".

Tomo a liberdade de traduzir: precisamos ir mais longe. “Mais ainda, o problema hoje é a falta de pensamento teológico: aqui está a questão gravíssima. Pelo menos a Tdl movimentou a vida da Igreja, apresentou propostas capazes de estimular um diálogo; agora, por outro lado, vejo um esgotamento da atração da teologia acadêmica e, de outra forma, não me parece que surja nem mesmo o pensamento de baixo. Uma teologia que nasce da vida eclesial é fundamental; e uma Igreja sem pensamento, sem visão, sem debate corre o risco de ser apenas administração de sentimentos. Ainda sabemos ler os sinais dos tempos? Falamos muito sobre secularização e não temos propostas sobre a globalização; bastaria pensar no fenômeno da migração”.

Mas a teologia da libertação realmente tem algo a dizer neste contexto tão mudado? A irmã Antonietta Potente, teóloga dominicana que viveu longamente na América Latina, destaca o aspecto metodológico: “Esta continua a ser a força da Tdl: olhar a realidade e procurar o mistério que há nela. A Teologia da Libertação não tem definições a priori, surge do que se constata na vida e da pergunta: como falar de Deus a partir do sofrimento dos inocentes? Depois, os tempos e os contextos mudam, diferentes teorias sociais e filosóficas podem ser aplicadas, mas o método ainda tem atualidade”. A crítica, porém, partiu justamente do apoio buscado no marxismo. “Na época parecia um dos sistemas mais aplicáveis à realidade. Mas a Tdl era vista com desconfiança também por falta de conhecimento, um determinado tipo de Igreja assustava-se porque não conhecia a prática: se tivessem considerado a vida e o empenho gratuito de milhares de religiosos e cristãos, o juízo teria sido diferente e haveria menos suspeitas. Porém tudo isso é passado. A Tdl continua viva, gerou as teologias contextuais (indígena, feminista, negra...) e, acima de tudo, deixou muitos traços no coração e no estilo de muitas pessoas. Aqueles que transformaram suas vidas graças aos seus estímulos”.

 

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