Por um código deontológico da sinodalidade. Artigo de Riccardo Larini

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10 Novembro 2021

 

Riccardo Larini, nascido em 1966 em Milão, estudou física em Pavia e teologia em Bose e Cambridge. Especializado em hermenêutica bíblica e filosófica, estudioso de Paul Ricoeur, dirigiu editoras, escolas e faculdades universitárias. Atualmente mora na Estônia e trabalha para integrar os sistemas educacionais tradicionais com os sistemas de inteligência artificial.

Por cortesia do autor, publicamos do livro "Bose. La traccia del vangelo” (Bose. O rastro do Evangelho, em tradução livre) um trecho muito útil para este tempo sinodal.

 

O texto foi publicado por Vino Nuovo, 04-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o texto.

 

Bose. La traccia del vangelo

 

Acredito que a contribuição mais importante da comunidade de Bose para o diálogo entre os cristãos seja a implementação de um verdadeiro "código deontológico do ecumenismo", que de alguma forma deveria caracterizar qualquer encontro entre posições e histórias diferentes (não apenas na esfera teológica ou intercristã) ... A que segue é, portanto, uma minha síntese elaborada de tal código.

 

1) Aceitar a alteridade e a diversidade do outro. Somos muito tentados, tanto em nome daquelas que acreditamos serem verdades reveladas, quanto em nome da universalidade da razão iluminista, a forçar o outro em categorias e preconceitos que construímos por meio da nossa atividade de conhecimento e pensamento. Se é verdade que através de um diálogo autêntico é possível chegar junto com o outro a descobrir traços em comum, inclusive muito profundos e relevantes, o ponto de partida de um verdadeiro encontro só pode ser a aceitação incondicional do mistério do outro. E isso inclui também a aceitação dos seus tempos: nem todos estão disponíveis para o diálogo quando somos nós que o queremos. A sincronicidade é uma categoria muito perigosa, especialmente quando se encontram mundos culturais tornados estranhos por histórias diferentes, às vezes prolongadas por longos períodos de tempo, séculos ou até mesmo milênios.

 

2) Deixar que seja o outro a se definir. Parece uma banalidade, mas não é. A grande virada trazida pelos diálogos ecumênicos pós-conciliares (muitas vezes renegada nos anos mais recentes em muitas igrejas, incluindo a católica) foi a transição do "segundo vocês protestantes ... (ou ortodoxos, ou católicos, ou anglicanos)” para o ficar em silêncio e deixar que sobre cada argumento seja o outro a propor a própria narrativa: “Para nós, protestantes ... (ou ortodoxos, ou católicos, ou anglicanos)”. É o primado da escuta, possível apenas se houver silêncio, se forem silenciadas as vozes interiores, as nossas representações do outro que, na realidade, nos impedem de encontrá-lo pelo que ele realmente é e que muitas vezes nos colocam em diálogo mais com a nossa imagem do outro do que com o próprio outro.

 

3) Definir a si mesmos. Na mesma lógica do ponto anterior, é a nossa vez de nos apresentarmos, e também aqui estamos longe de algo dado como certo. Um compromisso sério de exposição daquilo em que acreditamos passa por um percurso de aprofundamento da nossa tradição, através do estudo, do conhecimento e da reflexão. Frequentemente, as surpresas mais esclarecedoras surgem bem aqui. Como mencionei acima, o historiador ortodoxo estadunidense John H. Erickson cunhou a expressão untraditional traditionalisms para indicar aquelas convicções muitas vezes arraigadas, sobre a nossa tradição e as nossas tradições que na verdade não resistem a um estudo aprofundado da história, porque são construções ideológicas muito mais recentes e infundadas do que imaginamos.

 

4) Reconhecer a priori uma igualdade entre as partes em diálogo. Este talvez seja o nó mais difícil, e certamente deve ser esclarecido, mas é também o mais vital. O outro é aquele que é pela sua história e cultura, que a priori não posso julgar inferiores ou erradas, ainda que aparente ou concretamente contrastem, em poucas ou muitas coisas, com as minhas. Em última instância, trata-se de ser verdadeiramente inteligente, ou seja, capaz de ler as lógicas das histórias alheias e conhecer as próprias: respostas diferentes significam divergências reais apenas quando nascem das mesmas perguntas, mas na grande maioria dos casos são diferentes porque eram diferentes as perguntas dirigidas aos mesmos problemas. Dessa forma, escutando em profundidade a definição que o outro dá de si mesmo (e definindo com estudo e competência nós mesmos) é possível descobrir itinerários de pensamento compostos por perguntas e respostas diferentes, para depois retornar aos nossos itinerários pessoais com possíveis novas perguntas aprendidas do outro a serem dirigidas à realidade (e às quais responder engajando-se pessoalmente em um caminho de reflexão). É o maravilhoso détour de que falou Paul Ricœur com grande sabedoria: a digressão ou diversão para mundos diversos do nosso, que nos devolve às nossas vidas enriquecidos com novas perspectivas e possibilidades.

 

5) Não temer a transformação desencadeada pelo diálogo. Se todos os passos anteriores foram dados, estamos agora no limiar de um processo real e profundo de mudança, diante do qual é possível e normal sentir medo. Mudar é deixar morrer uma parte de nós, das nossas ideias, para dar lugar a algo novo de que não é possível definir a priori os contornos. Enzo Bianchi a definiu como uma kénosis, um esvaziamento por amor, que é o caminho cristão para a ressurreição de todas as coisas. Mas também é válido em termos leigos, porque todo nosso conhecimento pode e deve ser questionado pelo pensamento, que por sua natureza é dialógico, e é verdadeiro diálogo se acolher em si a alteridade radical do outro para construir novas sínteses das quais o ego, sozinho, nunca pode ser senhor ... De fato, a identidade é sempre composta de um diálogo entre o que já somos agora e os questionamentos que nos põe a realidade externa, o outro, todo outro.

 

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