Escuta-me, é uma revolução. Artigo de Enzo Bianchi

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26 Outubro 2021

 

“Escutar é uma operação sempre a ser aprendida e renovada, mas é laboriosa! Às vezes, a escuta do outro não é interessante, é até enfadonha. A escuta de quem é diferente nos desestabiliza, a escuta de quem é nosso inimigo nos angustia, nos fere”, escreve Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 25-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

A quem me pergunta: “Qual é o primeiro mandamento, o mais urgente?”, respondo sem dúvidas, é o mandamento da escuta. Escute!

De fato, está significativamente à frente dos dez da tradição judaico-cristã, porque sem o exercício da escuta não podemos observar as dez palavras que fazemos remontar a Moisés.

A escuta, exercício que nos acompanha desde a vida intrauterina, exercício sempre em função, e por isso o ouvido está sempre aberto e não podemos fechá-lo. É a escuta que nos torna capazes de falar, que nos permite colocar o outro e torná-lo próximo, mesmo que distante, mesmo que invisível, que nos habilita ao diálogo, à palavra transversal, à relação. Parece que especialmente hoje existe uma recusa à escuta diretamente proporcional ao desejo, à pretensão de falar, de intervir, de se manifestar. Em todos os níveis. Da família, onde há as palavras “Escute! Está me escutando? Nunca me escuta!”, à vida em sociedade, na qual o primado é dado aos ruídos, às informações obsessivas, às tempestades de mensagens que nos chegam sonoramente também nas redes sociais. Não há tempo para colocar-se à escuta, não há desejo de ouvir o outro, e assim a escuta é retirada por distrações e compromissos que nos pedem para preferir ser ativos à suposta passividade da escuta.

Porém, a escuta não é passividade, requer certo silêncio, uma atenção à palavra que nos é dirigida; sempre é preciso empenhar a mente e coração para realmente escutar. Quem sabe escutar está ciente que até a postura do seu corpo pode estar disposta à escuta ou negar qualquer acolhimento à palavra que vem de fora. Penso também que, para quem quer guardar a vida interior, seja necessário escutar o próprio silêncio, e nele a voz das próprias profundidades, da consciência para cada ser humano, de Deus para o crente... Escutar é uma operação sempre a ser aprendida e renovada, mas é laboriosa! Às vezes, a escuta do outro não é interessante, é até enfadonha.

A escuta de quem é diferente nos desestabiliza, a escuta de quem é nosso inimigo nos angustia, nos fere.

Porém, só na escuta acendemos relações, sustentamos histórias de amor, percorremos caminhos de tolerância e de reconciliação, porque a escuta nos descentraliza, o outro que escuto é incorporado por mim, para que o outro em mim se torne um bem que me habita no íntimo. Nos últimos dias, os políticos fizeram muitas vezes a promessa de ouvir as pessoas, de ouvir as cidades que os elegeram e, ao mesmo tempo, na Igreja Católica começou pela primeira vez a iniciativa chamada "sinodal" de escutar a todos, sim, escutar até aqueles que até ontem tinham apenas que escutar as hierarquias e nunca fazer ouvir sua própria voz. A escuta seria uma revolução sem precedentes, mas é urgente em todos os níveis para uma convivência mais humana e bela.

 

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