Lesbos, entre os “esquecidos” pela UE

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06 Agosto 2021

 

Mais de 4 mil refugiados presos no campo de Kara Tepe à espera de um pedaço de papel que nunca chega. Ayaan, somali, está aqui há dois anos, e balança a cabeça diante da terceira negativa. "Esperar, esperar, esperar."

A reportagem é de Stefano Pasta, publicada por Avvenire, 05-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

A Europa parou em Lesbos. Ayaan, uma mulher somali, explica isso bem, balançando a cabeça diante do pedaço de papel com a terceira negativa ao seu pedido de asilo. Há dois anos e três meses mora na ilha grega, a poucos quilômetros da costa turca, e não sabe o que vai acontecer com ela. Dos 4.200 habitantes de Kara Tepe, entre as barracas e os contêineres do maior acampamento da União, muitos estão na mesma situação que ela. Também nos outros campos gregos, 'estruturas controladas fechadas' para o governo helênico, o desespero é um desafio a ser vencido todos os dias: em 10 de julho, Hamid, um afegão de 22 anos, se enforcou dentro do contêiner onde estava alojado em Schisto, próximo de Atenas. Ele só aguentou até a segunda negativa.

Em Kara Tepe, as tentativas de suicídio também afetam os menores. Aqui, 45% dos habitantes têm menos de 18 anos: os 'esquecidos' que tanto assustam a Europa do inverno demográfico são principalmente crianças. Ninguém vai à escola propriamente dita (apenas 3 crianças), alguém consegue aceder aos cursos das ONG. Existem também muitas mulheres sozinhas, cujo destino está ameaçado pelas redes de tráfico. Desde 1º de janeiro, houve apenas 1.300 chegadas por mar às ilhas gregas (e algumas dezenas de mortes no mar). Haviam sido mais de 50.000 em 2019, dos quais 35.000 em Lesbos. Diminuíram porque neste período Erdogan está colaborando: bloqueia as saídas, retoma nas costas os botes que a Frontex e a Guarda Costeira grega interceptam, até foram sinalizados retornos após alguns dias de permanência na Grécia, sem possibilidade de pedir asilo.

Mapa da Grécia com a Ilha de Lesbos em vermelho (Foto: editada por M. Minderhoud | Wikimedia Commons)

Resumindo, a Turquia está realizando o trabalho pelo que a Europa lhe prometeu este ano três bilhões de euros, que se somas aos já repassados desde 2016. O hotspot de Moria, destruído pelo incêndio em setembro de 2020, tinha sido construído em 2015 a pedido da UE. A Agenda Europeia de Imigração previa que as pessoas ficassem no centro apenas alguns dias, para serem identificadas e transferidas para outros países da UE através de recolocações, mas em 2017 esse programa foi suspenso e em 2019 chegou-se a 22 mil refugiados do campo de Moria. Enquanto isso, em 2016, o acordo entre a Europa e Erdogan (renovado em junho passado) prometia a redução nas partidas e a possibilidade de mandar de volta à Anatólia os refugiados sírios, somalis, afegãos, paquistaneses e bengalis, todas nacionalidades para as quais a UE considera segura a permanência na Turquia.

Em 2020, quando as autoridades gregas reconstruíram um novo assentamento após o incêndio, muitos fugiram - com ou sem documentos - para o continente, dirigindo-se para a rota dos Balcãs ou de outras formas, para deixar a Grécia. Os que ficaram são 4.200, principalmente afegãos (45%), somalis, sírios, congoleses; entre os últimos chegados, estão aumentando a população de Serra Leoa e outras nacionalidades subsaarianas.

Há até famílias que estão na ilha há três anos.

Do campo só se pode sair em alguns dias, em determinados horários. Um lixeiro me disse que os frascos cheios de urina são muito comuns no lixo: principalmente as mulheres têm medo de ir aos poucos banheiros químicos. "É uma situação insustentável", confirma Khadija, uma síria de 20 anos de Deir el-Zor, que está em Kara Tepe há dezesseis meses. Uma terra desolada, 40 graus no verão, com barracas ou contêineres superlotados como único abrigo para o frio invernal. Eu a encontro na Tenda da Amizade, onde a Comunidade de Santo Egídio distribui cestas de alimentos e oferece 400 refeições por dia, enquanto as crianças, finalmente, têm um lugar para brincar.

Mapa com a localização de Kara Tepe, na Ilha de Lesbos, Grécia (Foto: Google Maps)

Wait, wait, wait...”, “esperar”, suspira. Também ela não sabe explicar por que, após três entrevistas, só recebeu negativas: “Na Síria, a minha casa foi destruída pela guerra. O meu marido, engenheiro eletrônico, está numa cadeira de rodas devido às consequências de uma bomba”. Agora estão presos em uma barraca, em condições higiênicas debilitantes. “Ele não consegue mais dormir à noite devido ao stress; eu não aguento mais".

Ao lado de Khadija está Noura, de Aleppo, uma viúva síria com 4 filhos e uma mãe idosa que quase nem mais fala. Ela também luta para ter esperança, chegou à quarta negativa. Quando pode sair do acampamento, porém, vai para a Escola da Paz, onde leva seus filhos para aprender a escrever. “Só tenho vocês e Deus”, diz a Monica Attias da Santo Egídio, que já a conhece há anos: “Mais de 250 voluntários da Comunidade de toda a Europa - explica Attias - revezam-se nos meses de julho e agosto. É nossa escolha não fechar os olhos diante dos 'esquecidos' de Lesbos”. Se a Europa quisesse, a solução existiria: “São os corredores humanitários que garantem a recolocação e um percurso de integração no contexto local”. Nos últimos meses, lembra a coordenadora dos corredores da Grécia, transferimos 101 requerentes de asilo para a Itália, enquanto 69 foram transferidos em colaboração com a Santa Sé. Entre eles, os 12 embarcados pelo Papa Francisco no voo de regresso durante a sua visita a Lesbos em 2016, depois confiados à Santo Egídio.

Mapa da região do Mar Mediterrâneo, com destaque para a Ilha de Lesbos, Grécia (Foto: Google Maps)

 

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