Três homilias contra o Führer

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13 Julho 2021

 

Clemens von Galen abalou a consciência dos alemães. Em 13 de julho de 1941, e por mais dois domingos, o bispo de Münster, que sempre foi hostil a Hitler, atacou as políticas nazistas.

A reportagem é de Gian Antonio Stella, publicada por Corriere della Sera, 12-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Minha cabeça está à disposição de vossa majestade, mas não minha consciência”. O imenso Clemens von Galen, naquele verão de 1941, citava como exemplo a destemida resposta dada em 1763 por Ernst von Münchhausen a Frederico II, o imperador que ousara pedir a seu ministro que cometesse uma injustiça. Ele a citava e a assumia para si, para desafiar Adolf Hitler.

O arcebispo de Münster estava bem ciente de que estava colocando em jogo sua própria pele: "Nenhum de nós tem certeza, seja ele convicto de ser o mais fiel, o mais consciencioso cidadão, seja ele convicto de sua própria completa inocência, que um dia não será levado de casa, privado de sua liberdade e trancado nos subterrâneos e nos campos de concentração da polícia secreta. Não tenho ilusões: isso pode acontecer até hoje, ou daqui a dia, até comigo. E como então não poderei mais falar em público, quero fazê-lo hoje".

E ele falou. Ele falou com palavras tão claras, severas, implacáveis que explodiram como bombas em uma Alemanha silenciada pela feroz repressão nazista. Atraindo sobre si o ódio dos fanáticos, como o chefe das organizações juvenis dos SS: “Eu o chamo de porco C.A., isto é, Clemens August. Esse traidor é um traidor do país, esse porco é livre e toma a liberdade de falar contra o Führer. Ele deve ser enforcado”. "Enforcado!", insistiu Martin Bormann. Aquele bispo tão amado, entretanto, era agora um símbolo grande demais até mesmo para o regime. "Corremos o risco de torná-lo um mártir", objetou Joseph Goebbels. Adolf Hitler foi forçado a engolir. Ele pensaria nisso depois de vencer a guerra: "E ele vai pagar até o último centavo".

Nascido em 1878 no castelo da família de Dinklage, perto de Bremen, filho do conde Ferdinand von Galen e da condessa imperial Elisabeth, criado pelos jesuítas no internato austríaco "Stella Matutina" em Feldkirch escolhido pela grande nobreza da Europa Central, padre desde 1904, aquele que foi saudado pelo New York Times como "o Leão de Münster", viveu uma espécie de vida paralela ao déspota alemão. Como relembra no belo livro Un vescovo contro Hitler (Um bispo contra Hitler, em tradução livre, San Paolo Edizioni, 2006), a escritora e vaticanista (e amiga do Papa Francisco) Stefania Falasca, tornou-se bispo 9 meses após Hitler chegar ao poder e morreu cerca de 9 meses após sua morte. Sem nunca lhe dar trégua.

Tudo começou, depois de 23 anos em uma paróquia de Berlim, no próprio dia da consagração episcopal quando, apesar da declaração forçada de fidelidade ao estado exigida pela concordata entre o Vaticano e o Terceiro Reich (assinada três meses antes por Franz von Papen e pelo futuro Pio XII, Eugenio Pacelli) escolheu um lema desafiador: "Nec laudibus, nec timore". Nem com os elogios, nem com as ameaças: ele nunca trairia sua missão.

Alguns meses e os nazistas entenderão. Em sua primeira carta pastoral após a difusão massiva de O Mito do Século XX por Alfred Rosenberg, o principal teórico do nazismo racista, von Galen fez circular sua primeira carta pastoral nas igrejas em 1 de abril de 1934, Páscoa: "Uma nova nefasta doutrina totalitária que coloca a raça acima da moralidade, coloca o sangue acima da lei (...) repudia a revelação, visa destruir os fundamentos do cristianismo ...”. É apenas o primeiro passo, seguido por mais contestações até uma espécie de "apelo às armas" em maio de 1941, quando se fartou de titubeios e acanhamentos e escreveu ao bispo Wilhelm Berning que, diante da "violência praticamente insuportável infligida à liberdade da Igreja" pelo Reich, esta não pode mais ficar em silêncio. Ele próprio até agora silenciou sua consciência dizendo a si mesmo que "se o Cardeal Bertram e tantos bispos, que me superam por experiência e por virtude, permanecem calmos diante de tudo isso, e se contentam com protestos no papel e ineficazes, completamente ignorados pela opinião pública" seria arrogante, impróprio ou "maluco" se fosse ele a se levantar em nome de todos: "Mas minha consciência não suporta mais sem apaziguada com esses argumentos ex auctoritate". Ele recorda como, em nome dos valores cristãos, "São Tomás Becket, Santo Estanislau de Cracóvia e outros santos bispos morreram mártires". Ele cita "a palavra de Isaías sobre os canes muti, non valentes latrare", os cães mudos, incapazes de latir ...

No dia 13 de julho, talvez desiludido com as reações àquela carta com que tentara tirar das sombras aqueles homens tão justos, ele finalmente solta a primeira de três formidáveis homilias dominicais que demonstrarão como seria possível abalar até a Alemanha nazista.

Münster acaba de ser bombardeada, o país está cada vez mais inquieto e von Galen denuncia "o assalto aos mosteiros que se alastram já há algum tempo" e o risco "de que um mosteiro após o outro seja confiscado pela Gestapo e seus inquilinos, nossos irmãos e irmãs, filhos das nossas famílias, fiéis compatriotas alemães, sejam jogados na sarjeta como escravos sem direitos e expulsos como insetos nocivos”. Troveja: “Torna-se realidade a predição de Cristo aos seus discípulos: 'Se me perseguiram, também vos perseguirão'”. Profetiza: "Se o governo da rainha justiça não for restaurado, nosso povo alemão e nossa pátria, apesar do heroísmo de nossos soldados e de suas gloriosas vitórias, morrerão de podridão interna e corrupção”.

Mas é a terceira homilia, em 3 de agosto, que muda a história. As batidas de casa em casa dos mais frágeis e sua teorizada dizimação para forjar a raça presente no Mein Kampf ("Aqui o estado deve fornecer um enorme trabalho educacional, que um dia aparecerá como uma obra grandiosa ...") estão semeando o pânico entre os alemães. Onde estão desaparecendo os pais, as mães, os filhos doentes? Por que os parentes recebem de volta apenas cinzas? O que são as teorias sobre "vidas indignas de serem vividas"? O herói de Münster fica furioso ao ouvir que “sou como uma velha máquina que já não funciona mais, como um velho cavalo que se tornou irremediavelmente manco. Sou como uma vaca que não dá mais leite. O que você faz com essa máquina? É demolida. O que se faz com um cavalo manco, com outro animal improdutivo? (...) Não, aqui não se trata de máquinas, não se trata de cavalos e vacas ... Trata-se de seres humanos, nossos semelhantes, nossos irmãos e nossas irmãs. Pobres seres doentes e, se quiserem, também improdutivos! Mas eles não merecem ser mortos por isso. Você tem, eu tenho direito à vida apenas enquanto formos produtivos, enquanto formos considerados produtivos pelos outros? Se admitirmos o princípio, agora aplicado, de que o homem "improdutivo" possa ser morto, ai de todos nós, quando formos velhos e decrépitos! Ai dos inválidos, que no processo produtivos empenharam suas forças, seus ossos saudáveis sacrificados e os perdidos!"

Mais ainda: “Se os seres improdutivos podem ser eliminados pela violência, então ai de nossos bravos soldados, que voltam para casa gravemente mutilados, inválidos!”.

Não há alemão que, sacudido assim, não seja acometido por uma dúvida. Um nó na garganta. E as palavras espalham-se em todas as paróquias, todas as casas, todos os ambientes, chegando mimeografadas até entre os soldados no front. E gritam a ponto de obrigar Adolf Hitler a parar.

Ninguém havia iniciado oficialmente o Aktion T4, ninguém irá declarar oficialmente o seu fim. E, claro, a ânsia dos nazistas de matar em nome da "raça eleita" não vai parar. Continuará clandestina nas clínicas, nos hospitais, nos campos de concentração ...

Escondida como as mais horríveis atrocidades. Mas milhões de pessoas, naqueles dias, finalmente entenderão que aquele bispo também salvou um pedaço de sua honra como alemães.

 

A história

 

Clemens Augustus von Galen (Dinklage, Alemanha, 16 de março de 1878 - Münster, 22 de março de 1946) foi nomeada bispo de Münster (Vestfália, noroeste da Alemanha) em 5 de setembro de 1933, em 28 de outubro recebeu a consagração episcopal e já em novembro denunciou as violações pelos nazistas da concordata com a Santa Sé. Ele continuou a atacar as políticas do Terceiro Reich, em particular contra o programa de eutanásia Aktion T4, que visava "eliminar" os doentes, os portadores de deficiência e os "improdutivos". Suas homilias de julho e agosto de 1941 foram espalhadas por aviões aliados sobre a Vestfália em novembro. Foi elevado ao cargo de cardeal pelo Papa Pio XII em 21 de fevereiro de 1946. João Paulo II o declarou venerável em 20 de dezembro de 2003 e em 9 de outubro de 2005 foi beatificado por Bento XVI.

 

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