Jesus acolheria também os homossexuais. Artigo de James Martin

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15 Junho 2021

 

O texto é um trecho da intervenção do jesuíta James Martin - consultor do Dicastério do Vaticano para a Comunicação, há muitos anos engajado nas questões dos católicos LGBT e autor de um livro intitulado Uma ponte a ser construída (em tradução livre, Marcianum Press) na Torino Spiritualità sobre “O desejo de ser 'nós'. Uma ponte a ser construída entre a Igreja e as pessoas LGBT”.

O jesuíta James Martin relê três histórias do Evangelho: um modelo de acolhimento para qualquer um que deseja encontrar Deus. Gostaria de examinar três passagens da Bíblia, dos Evangelhos, que nos ajudam a lançar luz sobre como a Igreja pode atuar com pessoas LGBTQ. Em tudo isso, é necessário olhar para Jesus, porque Jesus é o modelo para saber como tratar qualquer pessoa na Igreja e fazer qualquer coisa.

O artigo é publicado por La Stampa, 14-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o texto.

 

Em Cafarnaum, Jesus é abordado por um centurião romano à frente de 100 homens. Este soldado diz a ele que seu servo está doente. Jesus se oferece para ir a sua casa e o homem lhe diz que não há necessidade, porque basta ele dizer uma palavra e seu servo ficará bom. Ele também explica a Jesus que tem muitas pessoas sob sua autoridade, que obedecem a todas as suas ordens. Jesus fica surpreso e afirma nunca ter visto tal fé em nenhum lugar de Israel. No final da passagem, Jesus cura o servo do homem. Essa história, para a maioria dos cristãos, mostra o poder de Jesus capaz de curar as doenças apenas com suas palavras. Mas há outro significado que às vezes nos escapa.

O centurião romano é completamente estranho à sociedade judaica. Ele não é judeu. Não é monoteísta. Ele não acredita em um único Deus. Ele provavelmente é politeísta, acredita na religião de Roma. Mesmo assim, Jesus não condena esse personagem, embora ele não seja de cultura judaica, nem pede que ele se converta antes de atendê-lo. Pelo contrário, ele o ouve e o encontra. Ele o ouve com atenção e depois lhe faz um grande favor curando seu servo. Esta é uma primeira indicação de como Jesus trata as pessoas à margem, e acredito que é uma grande lição, para todos nós na Igreja e na sociedade, sobre como tratar as pessoas que desejam encontrar Deus e que desejam ter uma relação com Deus. É exatamente o que o centurião romano quer: pedindo sua ajuda, declara que quer uma relação com Jesus. E Jesus o ajuda, o trata com respeito, compaixão e sensibilidade.

A segunda história é a da mulher no poço, ou a Samaritana. Na época de Jesus, judeus e samaritanos estavam em desacordo principalmente por motivos religiosos. Tende-se a interpretar a parábola do bom samaritano como um convite a ser sempre boas pessoas e a ajudar os outros, mas essa história tem um significado adicional para as pessoas da época, porque os samaritanos eram "os outros", o grupo odiado. No Evangelho de João, Jesus está em Samaria, região onde vivem aqueles que se opõem ao judaísmo, e ao meio-dia encontra uma mulher samaritana junto a um poço. Mais adiante na história, entendemos por que aquela mulher estava no poço ao meio-dia, apesar do grande calor: ela já fora casada várias vezes e agora mora com um homem que não é seu marido. Provavelmente, portanto, ela foi excluída das outras mulheres e talvez se sinta condenada ao ostracismo. Jesus começa a falar com ela apesar de ser uma mulher samaritana. E, em vez de condená-la ou criticá-la, escuta a sua história e os dois terão uma das conversas mais longas de todos os Evangelhos. Novamente, como na primeira história, Jesus trata uma pessoa marginalizada - uma mulher samaritana que vive com um homem que não é seu marido - com respeito, compaixão e sensibilidade. Ele a conhece, a escuta, cria uma intimidade revelando-se a ela.

A terceira história, a última, é a que prefiro: é a história de Zaqueu - convido-vos a interpretar este personagem como um exemplo, um emblema das pessoas LGBTQ na Igreja - e se encontra no Evangelho de Lucas. Jesus está passando por Jericó, uma das maiores cidades da época e ainda hoje a mais antiga cidade habitada. Em Jericó vive um homem chamado Zaqueu, que é o chefe dos cobradores de impostos, o que na época significava ser o pior dos pecadores (ser o chefe dos publicanos significava estar em conluio com os romanos, e isso faz Zaqueu sentir-se extremamente marginalizado) Zaqueu é descrito como um homem de baixa estatura. Não sei se o mesmo vale na sua língua também, mas neste caso, no texto, "estatura" também significa importância, ou seja, o poder ou posição que se tem na Igreja ou na sociedade. Vamos pensar em como é baixa a estatura das pessoas LGBTQ dentro da Igreja e como elas às vezes se sentem pequenas no mundo da Igreja. Zaqueu é descrito como incapaz de ver Jesus por causa da multidão. Da mesma forma, muitas vezes é precisamente a multidão que se posiciona entre a pessoa LGBTQ (ou qualquer outra pessoa à margem) e o desejo ou o encontro com Deus.

Na história, Jesus está passando e Zaqueu resolve subir numa árvore para vê-lo. Quantas vezes as pessoas LGBTQ precisam fazer um esforço extraordinário para viver o que a multidão vive com facilidade, ou seja, a visão de Jesus? No Evangelho de Lucas está escrito que Zaqueu queria ver quem era Jesus. Era esse o seu desejo, e para tentar realizá-lo decide subir numa árvore, porque na multidão não consegue vê-lo. E enquanto Jesus atravessa a multidão, ele não aponta para um líder religioso, um rabino ou um de seus discípulos, mas se dirige para Zaqueu e pede que ele desça imediatamente, porque quer parar na sua casa. Este é um sinal público de acolhimento para alguém que está à margem.

Zaqueu desce cheio de alegria. Se continuarmos a imaginá-lo como emblema de uma pessoa LGBTQ, sua alegria é comparável àquela das pessoas LGBTQ quando são acolhidas nas comunidades religiosas, nas igrejas, como membros plenos. Zaqueu desce e permanece em seu lugar. A língua grega não só diz que está em pé, mas que mantém o seu lugar. Segue meu trecho preferido de toda a história: vendo a cena, todos murmuraram. Todos aqueles que viram Jesus estender sua graça a uma pessoa à margem ficaram zangados, porque estender a graça a quem está à margem sempre irrita alguém. Mas Zaqueu permanece em seu lugar e diz que dará a metade de seus bens aos pobres e que, se fraudou alguém, restituirá o devido quatro vezes mais. Portanto, há uma conversão.

E por "conversão" não quero dizer uma terapia de conversão, da qual alguns falam em relação às pessoas LGBTQ, mas falo de conversão, em grego metanoeîn: uma mudança no coração e no pensamento que o encontro com Deus sempre produz. Zaqueu, depois de ser acolhido por Jesus, vive, portanto, uma experiência de conversão, e Jesus lhe diz que, naquele dia, a salvação entrou em sua casa. Mais uma vez, Jesus não condena ou critica uma pessoa marginalizada, mas dá a ela uma espécie de bênção pública: para Jesus não existe um nós e um eles. Existe apenas um nós.

Jesus queria levar as pessoas de dentro, como os apóstolos e os discípulos, para fora, para as periferias, para as margens. E trazer as pessoas das periferias para dentro. Este é o movimento de Jesus, que queria criar um único nós. Um sentido cada vez mais amplo e profundo de nós, de quem somos. E os católicos LGBTQ fazem parte desse nós. Parece-me, portanto, que existem duas posições possíveis quando pensamos nesse ministério na Igreja Católica ou em qualquer ministério com as pessoas LGBTQ. Podemos ficar com a multidão murmurante, vendo a graça sendo estendida aos que estão à margem, como na história de Zaqueu, ou podemos ficar com Jesus e dirigir amor, graça e compaixão, tratando os outros com respeito, compaixão e sensibilidade. Eu fico com Jesus, e convido vocês a fazerem o mesmo.

 

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

Nos dias 11 e 21 de junho de 2021, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza o evento A Igreja e a união de pessoas do mesmo sexo. O Responsum em debate, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente os pressupostos teológicos, antropológicos e morais subjacentes à resposta negativa da Congregação para a Doutrina da Fé à bênção de uniões de pessoas do mesmo sexo e suas implicações pastorais para as comunidades eclesiais.

 

A Igreja e a união de pessoas do mesmo sexo. O Responsum em debate

 

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