Pluralismo das fés, civil e religioso, ao mesmo tempo, ainda não valorizado adequadamente

Revista ihu on-line

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mais Lidos

  • Ucrânia, Terceira Guerra Mundial e o guia do Papa Francisco para a Igreja. Artigo de Tomáš Halík

    LER MAIS
  • A guerra de Putin e Kirill. “O pluralismo religioso nunca foi um problema para a democracia, mas hoje o pluralismo ético moral é para as democracias.” Entrevista com José V. Casanova

    LER MAIS
  • África, a guerra do pão. Entrevista com o padre Elio Boscaini

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


09 Junho 2021

 

"O atlas das crenças sob nosso céu se enriquece: corremos o risco de não conseguir reconhecer este kairòs, a experiência do pluralismo das fés, civil e religioso ao mesmo tempo; de não o apreciar e não compreendê-lo em sua real dimensão", escreve Brunetto Salvarani, teólogo italiano e professor da Faculdade Teológica da Emília-Romanha, em artigo publicado por Vita Pastorale, 01-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

É opinião generalizada que, quase sessenta anos após o início do Vaticano II, não só os leigos não são devidamente valorizados, mas que uma crescente clericalização aos poucos recuperou seu fôlego, em muitos níveis. Com resultados negativos até para os próprios presbíteros, fatigados ou exaustos por ter de gerir a vida paroquial na íntegra ou quase. Não será fácil sair disso, infelizmente.

Ampliando o objetivo, aliás, a própria dimensão do secularismo como um todo - para a cultura europeia - não é um dogma inato, mas sim o resultado de uma história conturbada. Se o desafio para os católicos depois do Concílio é a busca de articular a tensão entre verdade e alteridade no sentido da comunhão, da escuta e do encontro, e não mais da exclusão, da arrogância e da autossuficiência, ainda assim permanece em nós, oculta, a tentação para continuar a pensar como maioria. E, portanto, de exercer pressões para ser reconhecidos no papel de regentes em uma sociedade em que as ideologias messiânicas, os Grandes Contos, já se puseram no horizonte. Uma tentação sempre viva, explicitada nos últimos vinte anos, na Itália, no sentido de uma religião civil. Com as ambiguidades do caso. Enquanto isso, o atlas das crenças sob nosso céu se enriquece: corremos o risco de não conseguir reconhecer este kairòs, a experiência do pluralismo das fés, civil e religioso ao mesmo tempo; de não o apreciar e não compreendê-lo em sua real dimensão.

Este é o desafio que temos pela frente: para superá-lo, muito dependerá da evolução da nossa consciência europeia. Quanto mais os italianos se sentem europeus, mais se descobrirão protestantes e ortodoxos, judeus e muçulmanos. A partir disso, para amadurecer uma nova consciência do valor de um amplo pluralismo cultural e religioso, o passo poderia revelar-se relativamente curto. Mas muito também dependerá das comunidades de fé: embora para muitas delas, aliás, soem bem altas as sirenes do fundamentalismo e de impulsos radicais, dificilmente compatíveis com os princípios do secularismo e do pluralismo. Vai levar tempo, paciência, investimentos na educação para a interculturalidade, capacidade de ser empáticos com o outro. Sim, vivemos uma época em que cassandras mais ou menos interessadas preveem o fim do Ocidente, de sua cultura e de seus valores, agora superados pelas pressões da imigração, do multiculturalismo, do relativismo, do terrorismo jihadista.

Um panorama sombrio em um plano inclinado, em que tudo o que resta seria vestir o capacete e lutar ... Mas será esse mesmo o destino inevitável do Ocidente? A sua história, embora tão violenta e densa de contradições, indica outro caminho, nem armado nem submisso, que corre ao longo do sulco do princípio do laicismo: conjugar as liberdades individuais e os interesses coletivos, distinguindo entre os valores espirituais e os deveres civis; construindo um ethos de pluralismo e da coexistência na diversidade das identidades que compõem uma comunidade política. Nesse itinerário, traçado pela primeira vez no Ocidente, não há espaço para identidades fechadas e absolutistas, brandidas como clavas em campo de batalha de um suposto choque de civilizações. Até porque não existe uma identidade perfeita: há um quebra-cabeça, composto por peças diferentes, pois diferentes são os elementos que nos definem. Mais ainda: a nossa identidade é “um quebra-cabeça defeituoso, em que faltam algumas peças” (Z. Bauman). Portanto, o quebra-cabeça sempre será imperfeito e aproximado. E o leigo, seja pouco, muito ou não crente, vive dessa frágil consciência.

 

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Pluralismo das fés, civil e religioso, ao mesmo tempo, ainda não valorizado adequadamente - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV