Grandes bancos internacionais financiaram a petroleira Shell com 56,8 bilhões de dólares, desde o Acordo de Paris

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04 Junho 2021

 

Durante os últimos anos, tornou-se evidente entre as autoridades, os reguladores e os supervisores do setor financeiro que é muito importante conhecer quais são as empresas que mais poluem, assim como o detalhamento de quais entidades as financiam. Na semana passada, a petroleira holandesa Royal Dutch Shell foi condenada, na Holanda, a reduzir pela metade suas emissões ao ser considerada responsável pelas mudanças climáticas, o que foi considerada uma sentença histórica. Esta empresa, apesar da pressão para que reoriente o seu modelo, recebeu 56,8 bilhões de dólares, desde que foi assinado o Acordo de Paris para reduzir as emissões poluentes.

A reportagem é de Diego Larrouy, publicada por El Diario, 01-06-2021. A tradução é do Cepat.

Um dos problemas do setor financeiro, conforme denúncia de diferentes organismos, é a falta de transparência quanto à sua exposição aos setores mais poluentes. Por isso, é preciso apelar aos estudos independentes que realizam estimativas com base em informação pública acessível. Um deles, de referência no setor, é o Banking on Climate Chaos, realizado por dezenas de organizações ambientais europeias lideradas pela organização Rainforest Action Network e a BankTrack, do qual se extrai este valor do financiamento à petroleira condenada.

Trata-se de uma das empresas que captou o maior financiamento do setor bancário, durante os últimos cinco anos, entre 2016 e 2020, ao lado da BP e da Saudi Aramco, entre outras. Conforme explicam os próprios responsáveis pelo relatório, para quantificar o volume de dinheiro emprestado pelos bancos às empresas mais poluentes, com atividades como a mineração ou a energia com combustíveis fósseis, inclui-se não apenas os empréstimos oferecidos de forma direta pelas instituições, mas os seguros que elas assinam com estas empresas, quando se realiza uma emissão de bônus ou de dívida.

No período entre a assinatura do Acordo de Paris e o fechamento do último balanço, uma vintena de bancos forneceram o financiamento necessário à companhia petroleira. O gigante francês das finanças, BNP Paribas, é o primeiro financiador da Shell. Entre 2016 e 2020, concedeu um financiamento de 7,3 bilhões de dólares. O estadunidense Morgan Stanley e o britânico Barclays fecham a lista dos principais financiadores neste período, com 5,3 e 4,7 bilhões de euros, respectivamente.

Na quarta posição das instituições que mais financiaram a petroleira está uma espanhola: o Banco Santander. O grupo presidido por Ana Botín aparece na lista com uma contribuição de 5,4 bilhões de dólares, entre 2016 e 2020. O grosso deste montante se deve a 4,9 bilhões de dólares empregados, segundo o relatório, durante o último ano. Consultados por esta situação, na instituição atenuam o dado, destacando que corresponde ao conjunto de uma operação de seguro de uma emissão da Shell com a participação de diferentes instituições, mas o total é atribuído ao Santander, que estima em 600 milhões sua participação real no processo.

O restante do financiamento obtido pela Shell veio principalmente de instituições estadunidenses como JPMorgan, Goldman Sachs, Citi e Wells Fargo. Deutsche Bank, o canadense RBC e o suíço UBS são outros financiadores que apoiam a petroleira condenada, desde que foi assinado o Acordo de Paris. Só entre abril e setembro do ano passado, em plena pandemia de coronavírus, a Shell emitiu mais de 11,2 bilhões de euros em títulos, segundo o site corporativo da própria petroleira.

Portanto, praticamente todos os grandes bancos internacionais têm participado em maior ou menor medida no financiamento da Royal Dutch Shell, apesar de há muito tempo ser conhecida, antes da sentença emitida na semana passada, por sua participação em setores que não estão em sintonia com os compromissos do Acordo de Paris. Junto a isso, é necessário acrescentar os interesses dos fundos de investimento, alguns deles com posições públicas a favor da redução de sua presença nos setores mais poluentes. As duas maiores gestoras do mundo, Blackrock e Vanguard, aparecem entre os acionistas de destaque da petroleira. A empresa tem uma avaliação na Bolsa em torno de 118 bilhões de euros.

Ao ser condenada a reduzir em 45% suas emissões de CO2, durante a próxima década, a Shell se tornou protagonista de um marco na luta contra as mudanças climáticas. Um tribunal de Haia considerou a empresa responsável pelas mudanças climáticas em uma sentença histórica, após uma denúncia da organização ecologista Amigos da Terra, apresentada em 2019. A sentença expressou que existe uma “ameaça de violação dos direitos humanos”, no que diz respeito ao direito à vida e a uma vida familiar sem moléstias e destacou que a corporação deve cumprir, “imediatamente, o estabelecido na sentença, pois sua política climática “não é o suficientemente concreta”.

A petroleira foi levada a este tribunal depois que a ONG e outros 17.000 codemandantes consideraram que o modelo de negócio desta corporação significava “uma séria ameaça aos objetivos do Acordo de Paris contra as mudanças climáticas”. Chegaram a quantificar que a petroleira era responsável por 1,8% de todo o CO2 emitido pela humanidade na atmosfera. A sentença desse tribunal holandês abre as portas para outras causas climáticas que estão em andamento em outros países.

O grupo holandês inicia a etapa pós-sentença ainda com uma grande dependência dos derivados de petróleo. Dos 180 bilhões de dólares que faturou, durante o último balanço, segundo as contas da empresa, este segmento segue representando 71% das receitas.

3,8 trilhões de financiamento, em cinco anos

A sentença da Shell é uma advertência a mais para o setor que mais contribui para a poluição e as mudanças climáticas e não atinge apenas as empresas que nele operam, mas também seus financiadores. O citado relatório sobre a relação bancária com os setores que mais afetam a crise climática mostra que, desde que o Acordo de Paris foi assinado, as principais 60 instituições de todo o mundo (incluídas BBVA e Santander) destinaram 3,8 trilhões de euros para financiar as empresas mais poluentes. Só o coronavírus conseguiu, em 2020, colocar um freio neste financiamento, embora siga em níveis muito superiores aos de 2016.

Segundo este relatório, desde a Cúpula de Paris, o BBVA financiou empresas dedicadas a projetos de carvão, gás ou petróleo com 22,35 bilhões de dólares. Seus principais clientes foram Petróleos Mexicanos, a Comissão Federal de Eletricidade (México) e a estadunidense Sempra Energy. Por sua parte, o Santander teria destinado 34 bilhões de dólares para financiar estes setores, tendo a Petróleo Brasileiro, Petróleos Mexicanos e BP entre seus principais clientes, além da já citada Royal Dutch Shell.

Nos últimos meses, organismos como o BCE e a Autoridade Bancária Europeia solicitaram que os bancos esclareçam quais são as suas contribuições a estes setores e o peso que possuem no total de seu balanço. Com isso, no próximo ano, os bancos europeus se submeterão a um exame de resistência, conhecido como teste de estresse, centrado nos riscos climáticos de seu negócio. Além disso, a supervisão, presidida pelo espanhol José Manuel Campa, pretende estabelecer a obrigação de que os bancos informem o peso dos ativos sustentáveis em seu balanço, com um esquema denominado índice de ativos verdes (GAR, na sigla em inglês).

Neste contexto, as instituições começaram a se movimentar para reduzir sua atividade nos setores relacionados ao carvão e os combustíveis fósseis. Tanto o Santander como o BBVA anunciaram, durante os primeiros meses deste ano, planos com o objetivo de alcançar a neutralidade em carbono em sua atividade, até 2050, com diferentes marcos prévios, como parar de financiar a criação de novas explorações ou os setores que dependem de maneira significativa de atividades com altas emissões.

 

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