Os mendigos, meus mestres de vida. Artigo de Enzo Bianchi

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10 Mai 2021

 

Quando estendem a mão para pedir e receber, fazem um gesto extraordinário: o gesto da criança inerme e infante, o gesto de quem reza, o gesto de todo mendicante de pão ou de luz.

O comentário é de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Jesus, de maio de 2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o artigo.

 

Na minha longa vida, a figura do mendicante, daquele que estende a mão e “pede a caridade”, não só sempre esteve presente, mas também sempre me pareceu uma figura eminente, que atraía o meu olhar, me interrogava, me inspirava profunda simpatia.

Antigamente, os mendigos chegavam a localidades como a minha, passavam de porta em porta e às vezes compravam alguns trapos ou peles de coelho que os camponeses secavam. Muitas vezes, antes de encontrar um lugar para dormir em celeiros ou em cabanas abandonadas, bebiam e se embriagavam, por isso eram objetos de desprezo e também um pouco temidos. Na nossa casa, quando o mendigo batia à porta, meu pai o deixava entrar em casa e se sentar à nossa mesa.

Assim, acostumei-me a não ter medo deles e a suportar o seu fedor. Eu me perguntava como era possível levar uma vida tão cansativa, principalmente no inverno, sem uma casa, sem ninguém que se possa chamar de amigo...

Alguns contavam a sua história. Eram sempre histórias desgraçadas: não tinham uma família, cresceram em orfanatos, fugiram de casa ainda adolescentes... Homens profundamente feridos pelas vicissitudes da vida.

Quando estendem a mão para pedir e receber, fazem um gesto extraordinário: o gesto da criança inerme e infante, o gesto de quem reza, o gesto de todo mendicante de pão ou de luz...

Mas houve para mim uma hora da graça em 1965. Em uma revista francesa, descobri o Abbé Pierre, um frade que vivia com os indigentes, os descartados da sociedade. Imediatamente, tive o impulso de lhe escrever para lhe perguntar se ele me permitia ficar alguns meses com ele. Ele me respondeu que sim, e, assim, no fim de maio, fui ao encontro dele às margens do Sena, em Le Grand-Quevilly, na periferia de Rouen.

Eu estava acampado em barracas com cerca de 40 homens, ex-legionários, alcoólatras, libertados da prisão, sans papiers... Ele me pediu para viver no meio deles não como um missionário, nem como alguém que foi “fazer caridade”, mas simplesmente para estar com eles com humanidade, respeito, discrição, sem nunca ceder à tentação de ensinar alguma coisa. E assim aprendi não só a ver os mendigos e ter simpatia por eles, mas também a me tornar, eu mesmo, um mendicante.

Todas as manhã, eu ia com alguns deles à cidade, a Rouen, para recuperar roupas velhas nas casas, levar embora o que as pessoas jogaram fora e pedir algo para comer também. Depois, quando voltávamos para as nossas barracas, consumíamos a comida em um clima muito fraterno. Não havia nada de religioso, ostentoso, pelo contrário, o Abbé Pierre me disse com muita doçura: “Este é o lugar menos indicado para um jovem da Ação Católica, mas você vai entender mais tarde aquilo que agora talvez lhe pareça uma negação da sua identidade”.

Na realidade, muitas coisas eu não entendi nem mesmo no fim dos meses que passei ao lado daqueles santos. Mas me basta ter entendido que os pobres são, acima de tudo, mestres, verdadeiras cátedras de cristianismo: as cátedras dos pobres!

E eles o são precisamente no fato de serem mendigos, de estarem na necessidade e de estenderem a mão. Ícones de cada pessoa que busca, pergunta, que, precisamente porque se sente “descartada”, não precisa de outra coisa senão de misericórdia: de Deus, certamente, mas também das pessoas.

Por isso, quando cheguei a Bose em 1965 e morei sozinho por três anos, porém, tive mendigos como hóspedes assíduos. Enrico, o fabricante de cadeiras, ficou por um inverno inteiro: na bela estação, ele andava por aí consertando cadeiras, parando nas casas das famílias e, depois, sempre saía de bicicleta para outras localidades. Bom, manso, ele era muito sábio e, à noite, me contava sobre a sua vida de errante, tão repleta de encontros que ele lia como razões para levar em frente aquela vida de mendicante. Depois, Muretèn, outro mendigo que viveu em comunidade até à sua morte.

Sim, os mendigos são meus familiares, vizinhos, amigos: gostaria de me assemelhar ainda mais a eles, e não só com o meu coração vagamundo.

 

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